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“O Senhor fez em mim maravilhas.” (Lc 1,49)

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"A Esperança não decepciona" (Rm 5,5)

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Estamos vivendo a implementação do Sínodo dos Bispos (2021-2024) – Parte 8

“Como tenda peregrina no meio da história, a Igreja se deixa interpelar pelos ventos do tempo e pelos passos do povo que nela busca abrigo. Atenta ao que acontece ao redor, ela escuta as vozes que chegam, algumas carregadas de esperança, outras marcadas pela dor. Assim, aprende a discernir os apelos do Espírito. Alargando suas lonas para acolher melhor, inclina-se  sobre  as  alegrias  e  feridas  do  mundo, reconhecendo que, em cada realidade humana, Deus continua  a  falar  e  a  conduzir  seu  povo  pelos caminhos da missão.” (DGAE 17)

            Ainda desta vez vamos continuar refletindo sobre as situações que ainda desafiam a evangelização em nossa diocese, seguindo o indicado nas DGAE 27: frágil sintonia com as orientações da CNBB e a resistência ao Concílio Vaticano II; os limites do diálogo com os jovens e adolescentes; a pouca interlocução com os pobres como sujeitos da evangelização.

            Existe uma mentalidade em alguns fiéis da nossa Igreja – e isso também acontece em Guarulhos- de que a CNBB tem uma opção político-partidária e age desta maneira nas diretrizes pastorais no Brasil. Isso faz com que – às vezes – alguns irmãos e irmãs propaguem esta mentalidade de fragilizar o escutar a Conferência Espicopal. É sempre dificultoso até mesmo fazer despertar o interesse pelas DGAE, como está acontecendo agora neste momento de escuta em nossa diocese. Alinhado a esta mentalidade aparece – ainda que sem fundamento teológico – a resistência ao Concílio Vaticano II. Graças a Deus, o interesse na participação na última Semana Diocesana de Formação, lança como que uma luz, pois o Catecismo da Igreja Católica é fruto do Concílio Vaticano II. Estamos na região metropolitana e alguns se interessam – não somente pela celebração da Eucaristia no rito antigo – mas alinham-se com as ideias de distorção dos documentos do Vaticano II e, pior, aceitam as opiniões sedevacantistas. Deixam de participar das celebrações e instruções em nossas paróquias para irem em outros lugares participar de associações contrárias à fé da Igreja una, santa, católica e apostólica.

No início de 2020 tivemos a alegria – a partir da Exortação Apostólica pós sinodal Christus Vivit, do Papa Francisco -de realizar uma Assembleia Diocesana de Pastoral especialmente voltada para a Pastoral Juvenil. Infelizmente, a pandemia Covid 19, impossibilitou-nos de levar adiante as prioridades escolhidas. Depois de 02 anos ou de 06 anos, como agora, muitas coisas precisam ser revistas, pois os jovens de 06 anos atrás, na sua maioria, não são mais jovens. Os jovens estão presentes em nossas paróquias. São atuantes. Em muitas situações não se sentem ou não são considerados como protagonistas da evangelização. Muitas comunidades têm dificuldades em aceitar a diversidade das expressões juvenis que hoje aparecem. Dificulta também termos um Setor Juventude diocesano que ajuda neste diálogo com os jovens. O diálogo com os adolescentes também apresenta dificuldades. Progredimos na catequese, mas o pós Crisma ainda não encontrou um eixo de coesão dos adolescentes na comunidade.

O Papa Leão XIV admiravelmente brindou-nos com a “Dilexi te”, uma Exortação Apostólica que fala-nos sobre o amor para com os pobres. O importante é compreender que não se trata simplesmente de uma obra social ou promoção humana para a Igreja. Para além disso, é preciso ter presente que a evangélica opção preferencial pelos pobres, é instrumento de evangelização, a partir dos pobres e com os pobres. Temos várias pastorais sociais na diocese que trabalham com os pobres e também com situações de pobreza existencial. Entretanto, falta-nos ainda ter uma maior interlocução com os pobres como sujeitos da evangelização. Eu também preciso passar por esta conversão evangelizadora e encontrar caminhos pastorais. A propósito as DGAE, no caminho para a missão “Serviço à vida plena para todos”(134-160), especifica a evangélica opção preferencial pelos pobres (136-147) e no número 147 dá-nos preciosas indicações pastorais.

Que as nossas comunidades prossigam animadas na escuta recíproca em bendizer a Deus pelos sinais pastorais de esperança e identificar as situações que desafiam ainda a evangelização. Este será o material para o instrumento de trabalho da Assembleia Eclesial Diocesana de 2027.


 

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

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Mensagem do Papa Leão XIV para o 100º Dia Mundial das Missões

Um em Cristo, unidos na missão


 

Queridos irmãos e irmãs!

Para o Dia Mundial das Missões de 2026, que marca o centenário desta celebração, instituída por Pio XI e tão estimada pela Igreja, escolhi o tema «Um em Cristo, unidos na missão». Após o Ano Jubilar, desejo exortar toda a Igreja a prosseguir o caminho missionário com alegria e zelo no Espírito Santo, o que requer corações unificados em Cristo, comunidades reconciliadas e, em todos, disponibilidade para colaborar com generosidade e confiança.

Refletindo sobre o nosso ser um em Cristo e unidos na missão, deixemo-nos guiar e inspirar pela graça divina, para «renovar em nós o fogo da vocação missionária» e avançar juntos no empenho pela evangelização, numa «nova era missionária» na história da Igreja (Homilia na Missa pelo Jubileu do Mundo Missionário e dos Migrantes, 5 de outubro de 2025).

1. Um em Cristo. Discípulos-missionários unidos n’Ele e com os irmãos e irmãs

No centro da missão está o mistério da união com Cristo. Antes da sua Paixão, Jesus orou ao Pai: «Para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós» (Jo 17, 21). Nestas palavras, revela-se o desejo mais profundo do Senhor Jesus e, ao mesmo tempo, a identidade da Igreja, comunidade dos seus discípulos: ser uma comunhão que nasce da Trindade e que vive da e na Trindade, ao serviço da fraternidade entre todos os seres humanos e da harmonia com todas as criaturas.

Ser cristão não é, em primeiro lugar, um conjunto de práticas ou ideias: é uma vida em união com Cristo, na qual nos tornamos participantes da relação filial que Ele vive com o Pai no Espírito Santo. Significa permanecer em Cristo como os ramos na videira (cf. Jo 15, 4), imersos na vida trinitária. Desta união, brota a comunhão recíproca entre os crentes e nasce toda a fecundidade missionária. Sim, como ensinou São João Paulo II, a comunhão representa a fonte e, simultaneamente, o fruto da missão (cf. Exort. ap. Christifideles laici, 32).

Sendo assim, a primeira responsabilidade missionária da Igreja é renovar e manter viva a unidade espiritual e fraterna entre os seus membros. Em muitas situações, assistimos a conflitos, polarizações, incompreensões, desconfiança mútua. Quando, também nas nossas comunidades, isto acontece, o seu testemunho enfraquece. A missão evangelizadora, que Cristo confiou aos discípulos, requer primeiramente corações reconciliados e desejosos de comunhão. Nesta ótica, será importante intensificar o compromisso ecuménico com todas as Igrejas cristãs, aproveitando também as oportunidades suscitadas pela comum celebração do 1700.º aniversário do Concílio de Nicéia.

Por último, mas não menos importante, ser «um em Cristo» chama-nos a manter sempre o olhar voltado para o Senhor, para que Ele esteja verdadeiramente no centro da vida pessoal e comunitária, de cada palavra, ação, relação interpessoal, de modo a fazer-nos dizer com admiração: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20). Isto será possível na escuta constante da sua Palavra e na graça dos Sacramentos, para sermos pedras vivas da Igreja, chamada hoje a recolher as instâncias fundamentais do Concílio Vaticano II e do subsequente Magistério pontifício, em particular, do Papa Francisco. Realmente, como afirma São Paulo, «não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor» (2 Cor 4, 5). Reitero, portanto, as palavras de São Paulo VI: «Não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados» (Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 22). Tal processo de genuína evangelização começa a partir do coração de cada cristão para depois se expandir a toda a humanidade.

Por conseguinte, quanto mais estivermos unidos em Cristo, mais poderemos realizar juntos a missão que Ele nos confia.

2. Unidos na missão. Para que o mundo creia em Cristo Senhor

A unidade dos discípulos não é um fim em si mesma: ela está orientada para a missão. Jesus afirma-o com clareza: «para que assim […] o mundo creia que Tu me enviaste» (Jo 17, 21). É no testemunho de uma comunidade reconciliada, fraterna e solidária que o anúncio do Evangelho encontra toda a sua força comunicativa.

Nesta perspectiva, vale a pena recordar o lema do Beato Paulo Manna: «Toda a Igreja para o mundo inteiro», que expressa sinteticamente o ideal que animou a fundação, em 1916, da Pontifícia União Missionária. A ela, no seu 110.º aniversário, pelo empenho em animar e formar o espírito missionário de sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos, favorecendo a união de todas as forças evangelizadoras, vai o meu reconhecimento e a minha bênção. Com efeito, nenhum batizado é estranho ou indiferente à missão: todos, cada um segundo a sua vocação e condição de vida, participam na grande obra que Cristo confia à sua Igreja. Como o Papa Francisco recordou mais de uma vez, o anúncio do Evangelho é sempre uma ação conjunta, comunitária, sinodal.

Por isso, estar unidos na missão significa guardar e alimentar a espiritualidade de comunhão e colaboração missionária. Crescendo dia a dia nessa atitude, aprendemos com a graça divina a olhar cada vez mais para os nossos irmãos e irmãs com olhos de fé, a reconhecer com alegria o bem que o Espírito suscita em cada um, a acolher a diversidade como riqueza, a carregar os fardos uns dos outros e a buscar constantemente a unidade que vem do Alto. Pois temos juntos uma única missão que nos vem de «um só Senhor, uma só fé, um só baptismo; um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos» (Ef 4, 5-6). Esta espiritualidade constitui a forma quotidiana do discipulado missionário. Ela ajuda-nos a recuperar uma visão universal da missão evangelizadora da Igreja, superando a fragmentação dos esforços e divisões de facções – “de Paulo”, “de Apolo” – entre os seguidores do único Senhor (cf. 1 Cor 1, 10-12).

Obviamente, a unidade missionária não deve ser entendida como uniformidade, mas como convergência dos diferentes carismas para o mesmo objetivo: tornar visível o amor de Cristo e convidar todos a um encontro com Ele. A evangelização realiza-se quando as comunidades locais colaboram entre si e quando as diferenças culturais, espirituais e litúrgicas se expressam plena e harmoniosamente na mesma fé. Encorajo, deste modo, as instituições e realidades eclesiais a fortalecer o sentido de comunhão missionária eclesial e a desenvolver com criatividade formas concretas de colaboração entre si para a missão e na missão.

A propósito, agradeço às Pontifícias Obras Missionárias pelo serviço à cooperação missionária, que experimentei com apreço já durante o meu ministério no Peru. Estas obras – Propagação da Fé, Infância Missionária, São Pedro Apóstolo e União Missionária – continuam a alimentar e a formar a consciência missionária dos fiéis, seja dos pequenos aos crescidos, e a promover uma rede de oração e caridade que une as comunidades de todo o mundo. É significativo que a fundadora da Obra para a Propagação da Fé, a Beata Pauline Marie Jaricot, tenha idealizado, há duzentos anos, o Rosário Vivo, que ainda hoje reúne à distância numerosos fiéis em grupos para rezar pelas necessidades espirituais e missionárias. É importante recordar que, precisamente a partir de uma proposta da Obra para a Propagação da Fé, Pio XI instituiu, em 1926, a celebração do Dia Mundial das Missões, cujas ofertas recolhidas anualmente são por ela distribuídas, em nome do Papa, para as várias necessidades da missão da Igreja. Desta forma, as quatro Obras, em conjunto e cada uma na sua especificidade, continuam a desempenhar um papel precioso para toda a Igreja. Elas são um sinal vivo da unidade e da comunhão missionária eclesial. Convido todos a colaborar com elas com espírito de gratidão.

3. Missão do amor. Anunciar, viver e partilhar o amor fiel de Deus

Se a unidade é a condição da missão, o amor é a sua essência. A Boa Nova que somos enviados a anunciar ao mundo não é um ideal abstrato: é o Evangelho do amor fiel de Deus, encarnado no rosto e na vida de Jesus Cristo.

A missão dos discípulos e de toda a Igreja é a continuação, no Espírito Santo, da missão de Cristo: uma missão que nasce do amor, que se vive no amor e que conduz ao amor. Tanto é verdade que o próprio Senhor, na sua grande oração ao Pai antes da Paixão, depois de invocar a unidade dos discípulos, conclui assim: «O amor que me tiveste esteja neles e Eu esteja neles também» (Jo 17, 26). Os Apóstolos, portanto, evangelizaram movidos pelo amor de Cristo e por Cristo (cf. 2 Cor 5, 14). Da mesma forma, ao longo dos séculos, numerosos cristãos, mártires, confessores, missionários, deram a vida para dar a conhecer este amor divino ao mundo. Assim, a missão evangelizadora da Igreja continua guiada pelo Espírito Santo, Espírito de amor, até ao fim dos tempos.

Por isso, desejo agradecer especialmente aos atuais missionários e missionárias ad gentes: pessoas que, como São Francisco Xavier, deixaram a sua terra, a sua família e as seguranças para anunciar o Evangelho, levando Cristo e o seu amor a lugares muitas vezes difíceis, pobres, marcados por conflitos ou culturalmente distantes. Apesar das adversidades e dos limites humanos, eles continuam a doar-se com alegria porque sabem que o próprio Cristo, com o seu Evangelho, é a maior riqueza a partilhar. Com a sua perseverança, mostram que o amor de Deus é mais forte do que qualquer barreira. O mundo ainda precisa destes corajosos testemunhos de Cristo, e também as comunidades eclesiais necessitam de novas vocações missionárias, que devemos sempre ter no coração e rezar continuamente por elas ao Pai. Que Ele nos conceda o dom de jovens e adultos dispostos a deixar tudo para seguir Cristo no caminho da evangelização até aos confins da terra!

Admirando os missionários e as missionárias, faço um apelo especial à Igreja: unirmo-nos todos a eles na missão evangelizadora através do testemunho da vida em Cristo, da oração e do contributo para as missões. Muitas vezes, bem o sabemos, «o Amor não é amado», como disse São Francisco de Assis, a quem olhamos de modo particular pelos oitocentos anos do seu trânsito para o Céu. Deixemo-nos contagiar pelo seu desejo de viver no amor do Senhor e de o transmitir ao próximo e ao distante, porque, como ele afirmava, «muito se deve amar o amor d’Aquele que muito nos amou» (São Boaventura de Bagnoregio, Legenda Maior, cap. IX, 1; Fontes franciscanas, 1161). Sentimo-nos também estimulados pelo zelo de Santa Teresinha do Menino Jesus, que se propôs continuar a sua missão mesmo depois da morte, declarando: «No Céu, desejarei a mesma coisa que na terra: amar Jesus e fazê-Lo amar» (Carta ao reverendo M. Bellière, 24 de fevereiro de 1897).

Animados por estes testemunhos, comprometamo-nos todos a contribuir, cada um segundo a própria vocação e dons recebidos, para a grande missão evangelizadora, que é sempre obra do amor. As vossas orações e o vosso apoio concreto, especialmente por ocasião do Dia Mundial das Missões, serão uma grande ajuda para levar o Evangelho do amor de Deus a todos, especialmente aos mais pobres e necessitados. Cada dom, mesmo o menor entre eles, torna-se um ato significativo de comunhão missionária. Por isso, renovo o meu sincero agradecimento «por tudo o que fareis para me ajudar a ajudar os missionários em todo o mundo» (Videomensagem para o Dia Mundial das Missões 2025). E para promover a comunhão espiritual, deixo-vos, com a minha bênção, esta simples oração:

Pai santo, concedei-nos ser um em Cristo, enraizados no seu amor que une e renova. Fazei que todos os membros da Igreja sejam unidos na missão, dóceis ao Espírito Santo, corajosos no testemunho do Evangelho, anunciando e encarnando todos os dias o vosso amor fiel por cada criatura.

Abençoai os missionários e as missionárias, sustentai-os no seu esforço, guardai-os na esperança!

Maria, Rainha das missões, acompanhai a nossa obra evangelizadora em todos os cantos da terra: tornai-vos instrumentos de paz e fazei que o mundo inteiro reconheça em Cristo a luz que salva. Amém.

Vaticano, no III domingo do Tempo Comum, Festa da Conversão de São Paulo Apóstolo, 25 de janeiro de 2026

LEÃO PP. XIV


 

Saiba mais sobre a Campanha Missionária – Acesse:

Portal: cm.pom.org.br

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50 anos de fidelidade ao Chamado de Deus

Jubileu de Ouro de Vida Consagrada – Irmã Clarícia Gramarin

 “Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor.” Sl 88


Queridos irmãos e irmãs,

Estamos reunidos para celebrar um mistério de graça. Cinquenta anos de vida religiosa não são apenas uma data comemorativa, nem a contagem de anos de serviço. Celebramos, acima de tudo, a fidelidade de Deus. Antes de contemplarmos a perseverança da Irmã Clarícia, somos convidados a contemplar, Aquele que permaneceu fiel em todos os momentos da sua caminhada.

O refrão do Salmo 88, torna-se o hino desta celebração: “Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor.” Quem chega ao Jubileu de Ouro pode olhar para trás e reconhecer que, em cada passo da caminhada, havia uma mão invisível sustentando, fortalecendo e conduzindo, essa mão é a mão do Senhor.

A primeira leitura, (Is 41, 9-10; 43,1; 46,4) do profeta Isaías, leva-nos ao coração de toda vocação. Deus toma a iniciativa. É Ele quem diz: “Eu te escolhi; não te rejeitei. Não tenhas medo, porque eu estou contigo.”  (Is, 41,9-10).Toda vocação nasce dessa iniciativa amorosa de Deus. Ninguém se faz religioso por si mesmo. É Deus quem olha, chama, seduz e conquista o coração. Antes que alguém responda “sim”, Deus já havia pronunciado esse chamado no silêncio do seu amor.

Há cinquenta anos, o Senhor pronunciou um nome: Clarícia Gramarin. Não chamou apenas uma jovem; chamou uma mulher para viver totalmente para Ele, para fazer da própria vida um sinal do Reino, um testemunho do Evangelho e uma oferta de amor à Igreja.

 

O Salmo 88: “Cantar eternamente o amor de Deus”! Depois da Palavra de Isaías, a Igreja responde: “Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor.” Percebamos que o salmista não diz que cantará suas próprias conquistas. Ele canta o amor de Deus.

O Salmo responsorial nos recorda Davi que diz: “Encontrei e escolhi meu servo…Minha mão estará sempre com ele. “Deus não escolhe pelos critérios das aparências, da posição ou do prestígio; Ele olha o coração”! (1Sm 16,7). O mesmo Deus que escolheu Davi escolheu também você Irmã Clarícia. A eleição nunca é privilégio. É missão. É serviço. É responsabilidade.

Ao recordar estes cinquenta anos, podemos dizer que Deus cumpriu sua promessa sobre você Irmã Clarícia: Sua mão nunca deixou de sustentá-la. Quando parecia faltar força, Deus foi sua força. Quando surgiam dificuldades, Deus renovava sua esperança. Por isso hoje não celebramos apenas cinquenta anos de profissão religiosa. Celebramos cinquenta anos da Tua fidelidade há Deus.

O Evangelho de hoje (Mt 10,1-7) aprofunda maravilhosamente este mistério. São Mateus poderia simplesmente dizer que Jesus escolheu doze discípulos. Mas não! Ele faz questão de escrever um por um dos seus escolhidos: Simão, André, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus… cada nome é importante; …e porque não recordamos as mulheres que seguiam Jesus entre elas, Maria Madalena Apóstola dos Apóstolos, foi a primeira testemunha da Ressurreição. (Jo 20,17).

Vimos nos Evangelhos, Jesus foi acompanhado por um grupo de mulheres desde o início de sua missão na Galileia. Elas receberam curas, testemunharam seus milagres, viajaram com o grupo e sustentaram o ministério com seus próprios recursos.

As principais seguidoras citadas nominalmente incluem Joana: a Mulher de Cuza, que era administrador do palácio de Herodes Antipas , ela viajou com Jesus até Jerusalém e esteve entre as testemunhas da ressurreição. Suzana: Também acompanhava o grupo e ajudava a amparar o ministério com seus bens. Maria, mãe de Tiago (menor) e de José: citada nos relatos da crucificação e do sepultamento. Salomé: Mãe dos apóstolos Tiago e João (filhos de Zebedeu), que seguiu Jesus desde a Galileia e o serviu. (Mt 27,55-56; Mc 15,40-41).

O Evangelho de Lucas destaca que, além dessas mulheres citadas, havia “muitas outras” que auxiliavam Jesus e os doze apóstolos. A presença feminina no grupo quebrava os costumes da tradição da época. (Lc 8,2-3). Porque Deus chama pessoas e não números. Deus conhece rostos, histórias, lágrimas, sonhos e fragilidades. A vocação nunca é anônima; Jesus Cristo chama pelo nome. Ele quer dar identidade os seus vocacionados e vocacionadas.

É comovente imaginar que, se esta página do Evangelho fosse escrita hoje para esta celebração, depois da lista dos Doze poderíamos ouvir, espiritualmente, mais um nome ecoando no coração de Cristo: “Clarícia!” Há cinquenta anos, esse nome foi pronunciado pelo Senhor. E, como Maria na Anunciação, ela respondeu com generosidade: “Eis-me aqui.” Lc 1,38)

Mas o Evangelho  de hoje nos revela algo ainda mais profundo. Jesus não chama os discípulos para que permaneçam olhando para si mesmos, mas para enviá-los em missão. Depois de chamá-los, Jesus envia-os: “Ide e anunciai o Reino dos Céus está próximo!” (Mt 10,7)

Jesus não envia os Doze levando ouro, poder ou prestígio. Envia homens que levam apenas a autoridade recebida do próprio Cristo. Também a vida religiosa não se apoia nas seguranças do  mundo. Sua maior força sempre foi a confiança naquele que chama. Durante cinquenta anos, a irmã Clarícia caminhou sustentada por essa certeza; quem envia também acompanha.

“A Vida Consagrada é uma Confissão de amor da Trindade”, porque manifesta ao mundo o amor do Pai que chama; a configuração ao Filho que convida ao seguimento e a ação do Espírito Santo que sustenta a fidelidade. Assim, cada vocação consagrada torna-se um reflexo da comunhão divina”. (Doc. Vita Consecrata nº 16-19 )

Durante cinquenta anos, a Irmã Clarícia procurou viver exatamente esse envio. Em cada comunidade, em cada serviço, em cada gesto escondido, em cada pessoa acolhida, anunciou que Deus continua amando seu povo. Talvez não tenha realizado feitos extraordinários aos olhos do mundo. Mas realizou aquilo que Deus mais deseja: permaneceu fiel. E a fidelidade cotidiana é um dos maiores milagres da graça recebida.

“A Vida Consagrada torna visível o próprio modo de viver de Cristo: casto, pobre e obediente. Ela é memória viva de Jesus e sinal profético do Reino de Deus no meio da humanidade”. É precisamente isso que celebramos hoje. Celebramos uma vida configurada a Cristo. Os votos religiosos não são renúncias estéreis.

São uma forma concreta de amar. “A obediência testemunha que a vontade de Deus conduz sempre à verdadeira liberdade. A pobreza proclama que Deus é a verdadeira riqueza. A castidade anuncia que existe um amor maior que todos os afetos humanos”. (Doc. Vita Consecrata nº 21-22)

Esses votos não diminuem a pessoa humana, mas a tornam mais disponível para Deus e para os irmãos e irmãs. Como recordava o saudoso Papa Francisco, “fidelidade é renovar a cada dia o primeiro amor. Celebramos, portanto, cinquenta anos de “sim”, de recomeços e de confiança de que vale a pena seguir a Cristo”.

Neste sentido poderíamos dizer também que, cinquenta anos de Vida Consagrada da irmã Clarícia, significam milhares de Eucaristias celebradas ou participadas, incontáveis horas de oração, comunidades onde se viveu a fraternidade, rostos encontrados na missão, lágrimas enxugadas, crianças educadas na fé, enfermos visitados, pobres acolhidos. Tudo isso talvez não apareça nos livros da história, mas está gravado no coração de Deus.

Nesta celebração, não podemos deixar de contemplar aquela que é o modelo perfeito de toda vida consagrada: a Virgem Maria. Quando o Anjo pronunciou seu nome, Maria respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor.” Depois desse “sim”, colocou-se imediatamente a caminho para servir. Também a vida religiosa nasce de um “sim” que se torna missão. (Doc. Vita Consecrata nº 28)

A eucaristia celebrada hoje torna-se, assim, um novo “sim” da irmã Clarícia ao Senhor que continua chamando e enviando seus discípulos para anunciar que o reino  dos céus está próximo. Maria permaneceu fiel aos pés da cruz. Assim também a religiosa permanece fiel nas alegrias e nas provações, sustentada apenas pela certeza de que Deus jamais abandona aqueles que chama.

Querida Irmã Clarícia, hoje a Igreja não apenas lhe presta uma homenagem. Ela rende graças a Deus pela sua vida. Obrigado pelas orações silenciosas. Obrigado pelas renúncias que somente Deus conhece. Obrigado pelas comunidades que a senhora ajudou a construir. Obrigado pelas pessoas que reencontraram esperança através do testemunho de sua vida que “só Deus basta”.

A vida consagrada só pode ser compreendida à luz do amor que nos amou por primeiro. Ninguém persevera cinquenta anos na entrega, na missão, na oração e no serviço apenas por obrigação ou costume. O que sustenta uma vocação por tantos anos é um grande verdadeiro amor: o amor de Deus experimentado no coração e correspondido na entrega da própria vida a cada dia aos irmãos e irmãs.

Irmã Clarícia, quando o Senhor a chamou há cinquenta anos, talvez não pudesse imaginar os caminhos que percorreria. Hoje, olhando para trás, percebe que cada passo foi conduzido pala providência Divina!

E olhando para frente, continua ouvindo a mesma voz do mestre que há cinquenta anos, ecoou em seu coração “segue-me”, e você irmã Clarícia ouvi-o o chamado de Jesus e continua respondendo com fidelidade. (Mt 9,9)

Enquanto houver vida, haverá missão; enquanto houver missão; haverá anúncio do Reino; enquanto houver Reino; haverá motivo para cantar: Mantra – “ Tudo por causa de um grande amor!   + Amém!


 

Padre Genésio Pereira da Silva

Vigário – Paróquia N. Sra. de Fátima – Vila Fátima

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Educação não verbal

O que realmente estamos ensinando às nossas crianças?


 

O grande filósofo Immanuel Kant dizia: “Se você castigar uma criança por ser má e a recompensar por ser boa, ela fará o que é certo apenas pela recompensa.” Quando prometemos dar um bom presente à criança, caso ela consiga tirar boas notas ou apresentar bons comportamentos, estamos tentando induzi-la a apresentar bons resultados a curto prazo. No mundo corporativo acontece o mesmo: se você atingir as metas da empresa, ganhará uma promoção. No universo político observamos a mesma dinâmica de conchavos e barganhas. O que tudo isso tem a ver com ética, política e educação infantil?

Se analisarmos a crise constitucional que estamos acompanhando diariamente nos noticiários envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal, veremos que esse método é a base da formação de corruptos. As autoridades que controlam o poder agem com base no critério apelidado de toma lá, dá cá, ou seja, eu te dou uma coisa, mas você me dá outra. Creio que é muito difícil mudar um sistema que já está enraizado na sociedade há centena de anos, mas talvez ainda resta alguma esperança de futuro, se educarmos as crianças de modo diferente e é por isso que eu escrevo esse artigo.

Um dos pilares mais importantes do desenvolvimento infantil é a Educação não verbal que explica como as crianças absorvem o mundo ao seu redor. Elas aprendem através do que veem e experimentam seja num jogo de computador ou na interação com adultos. Na nossa sociedade, o que vemos é a corrupção sistêmica instalada em todas as instâncias do poder. Se os pais e educadores reproduzirem esse sistema dentro de casa em sua interação com as crianças, nada vai mudar pois a geração de agora é o modelo ético das gerações futuras.

Creio que o maior exemplo de Educação não verbal da história da humanidade é Jesus Cristo. Ele não ensinou por meio de estratégias políticas do tipo “toma lá, dá cá”, mas através do exemplo vivo do amor desinteressado. Como cristãos, o mínimo que podemos fazer para que mude alguma coisa lá no futuro é agir agora; é ensinar às crianças valores humanos, como respeito, gentileza e compaixão. No entanto, ensinar é muito mais do que fazer discursos bonitos e sim dar exemplos práticos por intermédio de ações concretas e conduta ética. Concluindo, a verdadeira transformação de uma nação não começa nas leis ou na política, mas na semeadura silenciosa do Evangelho no coração das nossas crianças.

 

Romildo R. Almeida

Psicólogo clínico

 

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Estamos vivendo a implementação do Sínodo dos Bispos (2021-2024) – Parte 7

“Como tenda peregrina no meio da história, a Igreja se deixa interpelar pelos ventos do tempo e pelos passos do povo que nela busca abrigo. Atenta ao que acontece ao redor, ela escuta as vozes que chegam, algumas carregadas de esperança, outras marcadas pela dor. Assim, aprende a discernir os apelos do Espírito. Alargando suas lonas para acolher melhor, inclina-se  sobre  as  alegrias  e  feridas  do  mundo, reconhecendo que, em cada realidade humana, Deus continua  a  falar  e  a  conduzir  seu  povo  pelos caminhos da missão.” (DGAE 17)

As DGAE 2026-2032 são o instrumento principal no Brasil para a Implementação do Sínodo. A reflexão que pode ser haurida a partir delas servirá para criar uma espécie de “instrumento de trabalho” para a nossa Assembleia Eclesial Diocesana que deveremos realizar no primeiro semestre de 2027. No mês passado propus a reflexão dos sinais de esperança que devem marcar nossa caminhada e experiência de um Deus que caminha conosco. Agora, haurindo das mesmas DGAE, temos que corajosamente  refletir sobre situações que ainda desafiam a evangelização. A “tenda peregrina” da diocese de Guarulhos possui e possui muitas situações que nos desafiam na evangelização. As DGAE a partir do número 27 apresentam tantas das situações que persistem desafiando a evangelização.  Proponho aqui para reflexão algumas situações que, creio, sejam mais candentes em nossa diocese.

É patente ouvir nas paróquias a realidade do enfraquecimento do sentido comunitário, pois tal compromisso implica numa atitude de pertença e responsabilidade com a ação evangelizadora de uma comunidade. Eu mesmo já ouvi pessoas dizerem que são “diocesanas”, pois participam da Eucaristia, novenas, cercos de Jericó e outras celebrações em toda a diocese, mas não têm disposição e tempo de assumirem compromisso com uma comunidade concreta. Outras vão atrás de onde está este ou aquele padre. Assim, temos agentes de pastorais em nossas comunidades sobrecarregados no servir. Além disso, temos as pessoas que – ao menos isso – participam da Eucaristia em suas comunidades, mas não querem saber de envolvimento com a comunidade. Isso também reflete numa outra situação desafiadora para a comunidade que é o ser Igreja em estado permanente de missão. Aqui, em muitos locais, temos um retrocesso, pois esta proposta foi impulsionada pela Conferência de Aparecida em 2007.

É doloroso, mas é verdade, que o contratestemunho de membros da comunidade, inclusive consagrados e ministros ordenados, tem afastado pessoas, de modo especial os irmãos e irmãs mais fracos na fé. Em muitas destas situações aparece o clericalismo, tanto por parte dos ministros ordenados, como por parte dos cristãos leigos e leigas. No entanto, é preciso maturidade para compreender que todos somos pecadores em processo de conversão. O centro da comunidade deve ser o Cristo. As pessoas passam, mas o Cristo é para sempre. Na comunidade sempre podemos encontrar a graça da Palavra e dos Sacramentos. Esta situação causa outro desafio: o enfraquecimento da vida fraterna e da comunhão, pois gera divisões na comunidade.

Os leigos e leigas, por vocação própria, são chamados a serem o fermento do Reino na sociedade.

“A missão própria dos cristãos leigos e leigas os envia a atuar de modo transformador nos muitos espaços onde a vida acontece: na família, no trabalho e na economia; na cultura e educação; nas artes e ciências; na política e comunicação…(DGAE 72).

Acrescentemos aqui a participação política, não somente aquela partidária, mas aquela em que há envolvimento nas políticas públicas. Vemos em nossas comunidades a diminuição de agentes de pastoral junto às pastorais sociais e, assim, mesmo dentro das comunidades assistimos ao frágil protagonismo de parte dos cristãos leigos e leigas.

Ainda no próximo mês vou retomar esta temática. Ainda que o número de desafios seja maior que os sinais de esperança, a Esperança é sempre maior, pois “ela não decepciona”.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo Diocesano de Guarulhos

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Artigos Editorial

“Palavra de Deus e compromisso no Mundo”

Caríssimos leitores e leitoras, nesta edição do mês de setembro, a busca de novos conhecimentos sobre a Sagrada Escritura é a chave principal de leitura a convite do profeta Daniel. Essa busca se dá através da Semana Bíblica, dos grupos de reflexão, da Escola da Palavra, pelas redes sociais e de tantos outros métodos desenvolvidos nas paróquias e dioceses.

O importante é saber que essa busca deve ser permanente e quanto mais conheço muito mais tenho a conhecer sobre a Sagrada Escritura. Só peço um favor a você caríssimo(a) leitor e leitora, procure não se acomodar achando que a Bíblia se resume ao salmo 23, 50 ou 91 e algumas passagens bem conhecidas, mas seja determinado e perseverante em combater as dificuldades de compreensão devido gênero literário e linguagem não comum ao cotidiano.

A exortação apostólica pós-sinodal afirma: “A Palavra divina ilumina a existência humana e leva as consciências a reverem em profundidade a própria vida, porque toda a história da humanidade está sob o juízo de Deus:

“Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, sentar-Se-á, então, no seu trono de glória. Perante Ele reunir-se-ão todas as nações (Mt 25,31-32).

No nosso tempo, detemo-nos muitas vezes superficialmente no valor do instante que passa, como se fosse irrelevante para o futuro. Diversamente, o Evangelho recorda-nos que cada momento da nossa existência é importante e deve ser vivido intensamente, sabendo que cada um deverá prestar contas da própria vida. É a própria Palavra de Deus que nos recorda a necessidade do nosso compromisso no mundo e a nossa responsabilidade diante de Cristo, Senhor da História.” (Verbum Domini 99).

A linha editorial da Revista Diocesana que chega na palma das suas mãos todos os meses de maneira virtual têm como finalidade promover reflexões e propagar notícias sempre iluminadas e impulsionadas pela Palavra de Deus, como por exemplo os artigos desta edição: O caminho de implantação do Sínodo na Igreja; a necessidade da busca do sacramento da reconciliação; a prática da compaixão diante da dimensão humana do sacerdote e os momentos de crise existencial; a elaboração de projetos socias e o compromisso de participação ativa na vida  política da sociedade, promovendo o bem comum para todos; celebrar a diversidade dos carismas através de um grito de Viva a Vida, através da juventude que é o amanhã da no mundo e precisa tomar cuidado com a armadilha da promoção de uma autoestima sem a autocompaixão.

Desejo uma excelente leitura e não esqueça de curtir e compartilhar cada artigo com seus grupos diversos de convivência e de maneira particular com aqueles que não frequentam instituições religiosas e precisam conhecer as ações iluminadas pela Palavra de Deus e assumida pela Igreja no mundo.

Boa leitura e compartilhe!

 

Pe. Marcos Vinicius Clementino

Jornalista e Diretor Geral

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Artigos Enfoque Pastoral

Peregrinos da Palavra e da Esperança: Caminhar, celebrar e acolher

“Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32)


 

O mês de setembro reúne, na vida de nossa Igreja particular, importantes celebrações e compromissos pastorais. Ao celebrarmos o Mês da Bíblia, somos convidados a redescobrir a Sagrada Escritura não apenas como um livro que deve ser estudado, mas como Palavra viva, capaz de iluminar a existência, alimentar a fé e orientar nossas escolhas.

Em nossas paróquias e foranias, as Escolas da Palavra, os encontros de formação, os círculos bíblicos e a prática da Leitura Orante demonstram o desejo de nossas comunidades de conhecer e amar cada vez mais a Palavra de Deus. Esse mesmo cuidado deve estar presente na proclamação das leituras durante as celebrações litúrgicas. Quando a Palavra é proclamada com fé, clareza e dignidade, é o próprio Cristo quem fala ao seu povo, instruindo, consolando e chamando cada pessoa à conversão.

A Palavra que toca o coração também nos coloca a caminho. É com esse espírito que realizamos a nossa 12ª Romaria Diocesana ao Santuário Nacional de Aparecida. Reunidas ao redor de nosso bispo diocesano, as paróquias manifestam a beleza da comunhão eclesial. Não caminhamos isoladamente. Somos uma Igreja peregrina, formada por pessoas e comunidades diferentes, mas unidas pela mesma fé, pela mesma esperança e pela missão que recebemos do Senhor.

Aos pés de Nossa Senhora Aparecida, levamos nossas alegrias e preocupações, os frutos de nosso trabalho pastoral e também os desafios que encontramos pelo caminho. A romaria nos recorda que a vida cristã é feita de passos, encontros, perseverança e confiança. Enquanto caminhamos, Deus fortalece nossa fraternidade e renova em nós a certeza de que ninguém precisa atravessar sozinho as dificuldades da vida.

Essa comunhão torna-se concreta quando aprendemos a cuidar uns dos outros. Nesse sentido, o Setembro Amarelo chama nossa atenção para o sofrimento de tantas pessoas que enfrentam a angústia, a solidão e a perda do sentido de viver. Diante dessas realidades, a Igreja deseja ser uma presença próxima, acolhedora e consoladora.

O sacramento da Reconciliação, o acompanhamento espiritual, o atendimento fraterno e a implantação das Pastorais da Escuta são caminhos importantes desse cuidado. Escutar não significa oferecer respostas rápidas para dores profundas. Muitas vezes, a primeira atitude verdadeiramente cristã é permanecer ao lado da pessoa, acolher sua história sem julgamentos e ajudá-la a perceber que sua vida continua tendo valor, dignidade e sentido. Uma escuta paciente pode tornar-se sinal da presença de Deus e abrir uma pequena fresta de esperança onde parecia existir apenas escuridão.

Confiemos todas as ações de nosso Enfoque Pastoral à proteção de Nossa Senhora Aparecida. Maria foi mulher da escuta, da disponibilidade e do caminho. Acolheu a Palavra de Deus, colocou-se a serviço e permaneceu firme mesmo nos momentos de dor e incerteza. Sob seu olhar materno, queremos aprender a escutar com paciência, anunciar com fidelidade e caminhar unidos. Que a Mãe de Jesus nos ajude a ser uma Igreja que se alimenta da Palavra, celebra a comunhão e acolhe com ternura as pessoas feridas. E que o Senhor renove em nós a coragem de continuar peregrinando, sustentados pela esperança que não decepciona.

 

Padre Marcelo Dias Soares

Coordenador Diocesano de Pastoral

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Artigos Bíblia

Mês da Bíblia 2026: O Livro de Daniel e a Fidelidade em Tempos de Desafio

A Palavra de Deus no Centro da Vida da Igreja

A cada ano, a Igreja Católica no Brasil celebra o Mês da Bíblia — um período dedicado ao aprofundamento da Sagrada Escritura em paróquias, comunidades, seminários e instituições de ensino. Em 2026, o livro escolhido pela Comissão Episcopal para Animação Bíblico-Catequeti ca da CNBB é o Livro de Daniel.

A escolha não é arbitrária. Daniel é um livro de resistência espiritual: foi escrito em um período de perse guição religiosa, para fortalecer a fé de um povo que enfrentava pressões para abandonar sua identidade e se render aos poderes dominantes. Sua mensagem central é atemporal: a fidelidade a Deus sustenta o ser humano mesmo nas situações mais adversas.

Por Que Daniel Hoje?

Vivemos em um tempo de múltiplas pressões sobre a fé: relativismo cultural, secularização acelerada, fragmentação das comunidades, crises institucionais. Nesse contexto, Daniel oferece uma sabedoria preciosa: não a da fuga do mundo, mas a da presença fiel no meio do mundo, sem se deixar absorver por ele.

O profeta Daniel é apresentado no livro como um jovem que vive na corte babilOnica, imerso em uma cultura estrangeira e potencialmente hostil à sua fé, e ainda assim mantém sua integridade, sua oração e seu compromisso com Deus. É uma figura que fala diretamente a quem vive a fé em contextos plurais e desafiadores.

Subsídio e Formação para Animadores

A CNBB disponibilizou um subsídio especialmente preparado para o Mês da Bíblia 2026, com aprofundamento bíblico, contextualização histórica e pistas pastorais para análise e celebração do livro de Daniel. Além disso, a Comissão Episcopal realizou um Seminário para Animadores, com sessões formativas online voltadas a quem coordena a celebração do Mês da Bíblia nas comunidades.

Esses materiais são recursos valiosos para estudantes de Teologia, cat equistas, diretores espirituais e animadores de comunidades que desejam aprofundar o estudo das Escrituras com rigor e sensibilidade pastoral.

Teologia Bíblica

O Mês da Bíblia é também uma oportunidade para que seminaristas, religiosos e agentes pastorais renov em seu amor pela Palavra de Deus — que, como lembra o Concílio Vaticano II na Constituição Dei Verbum, é alma de toda a Teologia.

Portal CNBB

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Artigos Liturgia

O padre que sofre: esperança e fraternidade diante do suicídio

Falar sobre o suicídio entre os presbíteros exige, antes de tudo, recordar uma verdade que às vezes esquecemos: o padre é um ser humano. Chamado a anunciar o Evangelho, celebrar os sacramentos e cuidar do povo de Deus, ele continua sendo alguém que experimenta cansaço, medo, solidão, crises e fragilidades. Não é herói, muito menos um deus. É um homem chamado por Deus, sustentado pela graça e necessitado, como todos, de cuidado.

A figura de Judas Iscariotes pode ajudar-nos a compreender a gravidade de uma esperança perdida. Mesmo tendo caminhado com Jesus e pertencido à comunidade dos Doze, Judas não conseguiu reconhecer outro caminho depois de sua traição. O Evangelho apresenta seu remorso e sua morte, mas não nos autoriza a transformar sua história em sentença definitiva sobre sua pessoa. O próprio Catecismo recorda que não se deve desesperar da salvação daqueles que atentaram contra a própria vida, pois somente Deus conhece plenamente o coração humano e as circunstâncias que envolvem cada existência.[1]

Também o presbítero pode chegar a um momento em que o sofrimento se torna silencioso. A rotina pastoral, a excessiva disponibilidade, a dificuldade de reconhecer limites, o isolamento e a cobrança por corresponder a um ideal sacerdotal podem produzir um processo de esgotamento. Sanagiotto chama atenção para aquilo que denomina “neurose pastoral”, marcada, entre outros fatores, pelo pouco tempo para si, pelo excesso de trabalho e pelo isolamento do presbitério.[2] Quando o sacerdote passa a acreditar que precisa resolver tudo sozinho, o ministério pode deixar de ser lugar de realização e transformar-se em fonte de profundo sofrimento.

Por isso, é necessário abandonar a imagem do padre que nunca pode fraquejar. Reconhecer limites não diminui a grandeza do sacerdócio, mas é capaz de humanizá-lo. As próprias Diretrizes da CNBB para a formação dos presbíteros ressaltam o conhecimento de si, o reconhecimento das qualidades, defeitos e limites e a importância do acompanhamento personalizado e da psicoterapia.[3] Buscar ajuda não é sinal de fracasso na vocação, mas expressão de responsabilidade diante do dom da própria vida.

Nesse caminho, as virtudes teologais oferecem um horizonte de reconstrução. A fé recorda que Deus permanece presente; a caridade conduz ao cuidado e à fraternidade; e a esperança impede que o sofrimento seja considerado a palavra definitiva. Como ensina o Papa Francisco, a esperança nasce do amor de Cristo e não se reduz a uma espera passiva.[4] É preciso “esperançar”: criar vínculos, partilhar a vida, permitir-se ser acompanhado e reconhecer que ninguém precisa atravessar sozinho as noites da existência.

A fraternidade presbiteral, portanto, não pode ser apenas uma ideia bonita, mas uma prática concreta. Um irmão que pergunta “como você está?”, uma mesa compartilhada, uma conversa sincera ou a coragem de procurar ajuda podem tornar-se instrumentos de preservação da vida. Fé e cuidado psicológico não se excluem; espiritualidade e ciência podem caminhar juntas.

Cuidar do padre é também cuidar da Igreja. Quando permitimos que o presbítero seja simplesmente homem, com sua força e sua fragilidade, abrimos espaço para que a graça encontre uma humanidade verdadeira. E talvez seja justamente aí que a esperança comece novamente a nascer.

Diácono Luis Henrique da Silva Santos

Paróquia N. Sra. Aparecida – Cocaia


[1] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Brasília: CNBB, 2022, n. 2282-2283.

[2] SANAGIOTTO, Vagner. Padres exaustos: a síndrome de burnout no contexto eclesial brasileiro. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023, p. 21.

[3] CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja no Brasil: Documento 110. Brasília, DF: Edições CNBB, 2019, n. 130 e 185.

[4] FRANCISCO, Papa. Spes non confundit: Bula de proclamação do Jubileu Ordinário 2025. Brasília: Edições CNBB, 2024, n. 1 e 3.

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Artigos Falando da Vida

A diferença entre Autoestima e Autocompaixão

Você não precisa ser o maior, basta aceitar ser quem você é.


 

Provavelmente você já leu alguma coisa sobre autoestima, mas talvez ainda não sabe exatamente o que significa. Para muita gente, significa olhar-se no espelho e sentir-se forte, bonito e inteligente, mesmo que isso não seja realidade. Por outro lado, a autocrítica severa parece estar sempre apontando um dedo em direção a si mesmo lembrando que você não é bom o bastante. Numa sociedade competitiva que só valoriza aqueles que se destacam, sentir-se bem quando os seus resultados não são os melhores, é um grande desafio. Como escapar dessa armadilha?

Em primeiro lugar é preciso considerar que a ideia de superioridade sobre outras pessoas é uma postura nada construtiva, pelo contrário, pode gerar fragilidade emocional e dificuldade em aceitar críticas. Uma pessoa com elevada autoestima pode pensar que já sabe tudo e assim se fechar a novos conhecimentos. Existem estudos que ligam a promoção de autoestima infantil ao narcisismo e preconceito na vida adulta. Jovens adolescentes que praticam bullying, alimentam a sua autoestima exercendo domínio sobre os demais revelando a faceta perversa desse jogo que se serve da violência contra as minorias para obter prestígio e poder.

A verdade é que se cairmos nessa cilada de disputar para ver quem é o melhor, estaremos fazendo exatamente o que o sistema quer de nós. A lógica do sistema capitalista é criar uma necessidade para vender uma solução. Por isso qualquer campanha de vendas começa com frases do tipo seja um vencedor, não fique para trás. Mas a questão que precisamos abordar aqui, não é o que você pode ser, mas sim reconhecer quem você é. Nesse sentido, não é possível desenvolver a autoestima sem desenvolver a autocompaixão. A autocompaixão ensina a ser bom e amável consigo, mesmo quando as coisas não vão bem.

Para explicar em palavras simples o que é Autocompaixão, vou usar a definição de Kristin Neff no seu livro Self Compassion: “É a prática de tratar a si mesmo com a mesma gentileza, carinho e compreensão que você ofereceria a um bom amigo”. Ao invés de recorrer a uma autocrítica severa ao enfrentar falhas, dores ou momentos de dificuldade, você compreende que os seus erros são humanos. A autocompaixão ensina que não é necessário ser extraordinário para merecer respeito, afeto e paz de espírito; basta ser inteiramente você. Portanto, abrace o seu passado, presente e futuro; afinal, tudo o que você almeja ser, em última análise, você já é.

Romildo R. Almeida

Psicólogo clínico