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“O Senhor fez em mim maravilhas.” (Lc 1,49)

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"A Esperança não decepciona" (Rm 5,5)

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Estamos vivendo a implementação do Sínodo dos Bispos (2021-2024) – Parte 2

Pode-se dizer que o elemento básico para a vivência de “Por um Igreja Sinodal  – Comunhão, Participação, Missão” é a ESCUTA. Foi assim que o Papa Francisco deu o “ponta pé inicial” lá em 2021, quando na fase diocesana determinou que as pessoas das comunidades, de outras comunidades cristãs e da sociedade fossem escutadas. Os capítulo II do Documento Final ao tratar da “conversão das relações” esclarece a necessidade de que todos, na variedade de carismas e ministérios existentes em nossas comunidades, como também as mais variadas situações de nosso mundo sejam escutadas. O Espírito Santo não deixa de falar em tudo e em todos. Nos processos da caminhada sinodal, para que se obtenha um verdadeiro discernimento eclesial, é preciso a ESCUTA. O Documento Final no capítulo III fala para tanto, da necessidade da conversão dos processos.

Será que na “conversão das relações”, bem como na “conversão dos processos” basta ter a paciência de ouvir os outros e a realidade e seguir um “método”?  Será suficiente um novo modo de proceder e a estratégia? É verdade,  o Espírito fala pela boca de nossos irmãos e irmãs de comunidade, bem como através da história e dos sinais do tempo. Basta a nossa inteligência para enxergar retamente todas estas coisas?

Não. Todas estas conversões necessitam de uma ESCUTA PRIMORDIAL, A ESCUTA DA PALAVRA DE DEUS.

A escuta da Palavra de Deus é o ponto de partida e o critério de todo o discernimento eclesial. De fato, as Sagradas Escrituras testemunham que Deus falou ao seu Povo, a ponto de nos dar, em Jesus, a plenitude de toda a Revelação (cf. DV 2), e indicam os lugares onde podemos ouvir a sua voz”  (Documento Final 83).

A própria compreensão da vivência “Por uma Igreja Sinodal” tem que ser iluminada pela Palavra de Deus. A escuta e iluminação da Palavra em nossas vidas nos leva à oração. Orar é entrar em comunhão com Deus e dispor-se a realizar a vontade de Deus. É adorar o Pai em espírito e verdade (cf. Jo 4,23).

Nenhum processo sinodal pode ter início sem a Leitura Orante da Palavra de Deus. Já temos mais de 10 anos que estamos tentando implantar esta prática na diocese de Guarulhos. Vários irmãos e irmãs têm experimentado a doçura deste encontro com a Palavra. Infelizmente, outros tantos irmãos desanimaram no caminho, outros sequer ousaram tentar começar. Temos uma equipe incansável e dedicada que todos os anos seguindo as temáticas que determino, rezam, estudam e se dedicam em preparar este “pão” da Palavra para os grupos de reflexão.

Neste ano a temática da Leitura Orante trata exatamente dos fundamentos bíblicos da espiritualidade sinodal. No mês de março a Equipe diocesana da Leitura Orante, encontrou-se com a coordenação dos grupos que estão fazendo esta caminhada para a motivação dos encontros.

A devoção e piedade popular que motivam as reuniões de nossos grupos de reflexão, são de grande importância. No entanto, mais importante é contato orante com a Palavra de Deus. Sem a Palavra de Deus nossa devoção e piedade correm o risco de ficarem vazias, desencarnadas da fé e missão da Igreja e, em alguns casos, podem ser alienantes.

A diocese está oferecendo este material. Aproveite. Deixe-se iluminar primeiramente pela Palavra de Deus nesta nossa caminhada sinodal.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo diocesano

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Mensagem de Páscoa 2026 – Dom Edmilson Amador Caetano

“um grande tremor de terra…o anjo retirou a pedra e sentou-se nela…sua aparência era como um relâmpago…os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram e ficaram como mortos…”(Mt 28, 2-4)


A solenidade pascal que celebramos não se repete existencialmente. Cada Páscoa é única em nossa vida, em nossa história. A Solenidade Pascal deste ano nos encontra com tantos acontecimentos que não são fáceis de discernir no momento, como os fenômenos apresentados pelo evangelista Mateus no relato da ressurreição: uma guerra que explode no Oriente Médio e que nos atinge de tantas formas; um ano eleitoral onde não predomina a arte da política, mas, novamente, uma disputa polarizada e polarizante, semeando divisões e discórdias, longe do bem comum; pastoralmente muitos estranham a implementação do caminho sinodal; a Campanha da Fraternidade atacada, pois para alguns grupos falar do pobre, direito à terra, teto e trabalho, são coisas de “esquerda”; diante dos conflitos muitos de nossos irmãos e irmãs de comunidade preferem trancar-se no interior da espiritualidade dentro das igrejas e sentem medo de ser Igreja em saída…

“Não tenhais medo” (Mt 28,5.10)

É o que anjo e Jesus diz às mulheres diante de tanta confusão aparente. O medo imobilizou os soldados do sepulcro. O medo – que é falta da vivência da fé – também nos imobiliza na caminhada sermos Igreja Sinodal na comunhão, participação e missão.

Deixemos que o anúncio da Ressureição que as mulheres receberam do Anjo, que é o mesmo anúncio que recebemos na proclamação da Palavra nesta Solenidade Pascal, nos tire do imobilismo. A presença do Cristo Ressuscitado nos encoraje para o anúncio e retorno à Galileia.

“  Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à nossa frente na Galileia. Lá vós o vereis.” (Mt 28,7.10)

A Galileia é o lugar onde Jesus passou a infância, adolescência, juventude e chegou à idade adulta. A maioria dos discípulos era da Galileia. O início do ministério público de Jesus, após o batismo no Jordão, foi a partir dos confins da Galileia. Os primeiros sinais do Reino, como nas Bodas de Caná, foram realizados na Galileia. Em Cafarnaum, na Galileia, estava a casa de Jesus e seus discípulos. Junto ao Mar da Galileia Jesus fez as multiplicações dos pães e ensinou seus discípulos a missionarem. Da Galileia Jesus vai para Jerusalém para entregar a sua vida. Voltando à Galileia Jesus ressuscitado envia os discípulos em missão prometendo que, com poder, está com eles todos os dias até final dos tempos.

Na Galileia Jesus chamou os seus primeiros discípulos.

Na nossa Galileia Jesus também nos chamou e colocou-nos na sua comunidade.

Nesta celebração pascal de 2026 voltemos à Galileia, sem medo,  para vermos o Cristo ressuscitado. Não fiquemos aterrados e aterrorizados diante da cruz de cada dia, da crueldade do mundo em guerra, da corrupção que nos rodeia, da miséria que fere a dignidade do ser humano, das forças e ideias que querem negar a caminhada da Igreja à luz do Concilio Vaticano II, dos que querem desistir de uma Igreja missionária encarnada…

Voltemos à Galileia. Voltemos ao primeiro amor, onde e quando o Senhor com voz potente tocou o nosso coração e compreendamos que a Cruz não é derrota, mas vitória. Voltemos à Galileia onde com a comunidade dos discípulos – aquela onde o Senhor nos inseriu e vimos os seus sinais – assim compreenderemos que o Senhor vitorioso está conosco. Voltemos à Galileia e retomemos a nossa vida em comunidade e tenhamos renovada consciência de sermos comunidade eclesial missionária. Voltemos à Galileia e não nos deixemos  dominar pela preguiça e comodismo. Voltemos à Galileia e não deixemos que as vozes dos falsos profetas, apregoadores de desgraça e divisão, distancie-nos da comunidade e da celebração da Eucaristia, fazendo-nos duvidar da força e do poder do Espírito do ressuscitado.

Não pode haver Feliz Páscoa se não voltarmos à Galileia.

Alegria! O Senhor ressuscitou! Verdadeiramente ressuscitou!

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo diocesano de Guarulhos

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Nota do Bispo Diocesano sobre a lavagem da Catedral Nossa Senhora da Conceição de Guarulhos

No dia 21 de março, dia Nacional das Tradições Afro-brasileiras, aconteceu a terceira edição da chamada Lavagem da Catedral de Guarulhos. Vários católicos de Guarulhos e de fora de Guarulhos, manifestaram-se contrários ao evento nas redes sociais. Algumas manifestações foram ofensivas aos participantes das religiões de matriz africana e aos católicos. A estes últimos por permitirem tal celebração na porta da Catedral.

            Primeiramente quero fazer saber que este ato foi pacifica e respeitosamente combinado com a Igreja, para que não houvesse importunação durante alguma celebração na Catedral.

            Em segundo lugar, além do evento ter sido realizado em um espaço público (mesmo que a frente da igreja pertença à Catedral), isto é, um espaço que é comum a todos, não se tratou de uma celebração inter-religiosa e nem mesmo uma manifestação de sincretismo religioso por parte da Igreja Católica. As portas da Catedral  permaneceram abertas e o espaço celebrativo católico foi totalmente respeitado.

            Por fim, quero lembrar aos católicos, que vivemos sob a orientação do Concílio Vaticano II, que na Declaração Nostra Aetate fala das sementes do Verbo de Deus presentes em todas as expressões religiosas não cristãs, bem como da necessidade de vivermos em espírito de fraternidade com todas as religiões. Além disso, o mesmo Concílio Vaticano II, na Declaração Dignitatis Humanae fala magistralmente sobre o direito da liberdade religiosa a todas as comunidades da sociedade.

            Neste mundo marcado por guerras, até mesmo de origem religiosa, e num País, onde oficialmente no passado oprimiu-se manifestações religiosas não católicas e, hoje, em virtude da chamada laicidade do Estado tenta-se sufocar a maneira de cada religião exprimir publicamente a sua crença, não cabe  aos católicos quererem propagar ideias de repressão às religiões não cristãs. Vivamos em nossas comunidades a nossa fé cristã e católica e sempre que necessário, manifestemos de modo celebrativo nos lugares públicos. Temos direito a isso.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo diocesano de Guarulhos

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Estamos vivendo a implementação do Sínodo dos Bispos (2021-2024)

Uma das últimas orientações do Papa Francisco a toda Igreja, ainda quando estava internado no hospital, em fevereiro de 2025, foi autorizar a Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos dar prosseguimento à Implementação do Sínodo dos bispos (2021-2024), a partir do Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, “Por uma Igreja Sinodal: Comunhão, participação, missão.

A coordenação deste trabalho, em cada diocese, cabe ao bispo diocesano, assessorado por uma Equipe Diocesana do Sínodo. Esta equipe já existia desde 2021e agora foi ampliada. Este trabalho tem sido feito, com busca de discernimento, de maneira incessante, mas paulatinamente. Não se tata de uma técnica ou modismo que deva ser implantado rapidamente, mas de uma identidade da Igreja que precisa ser redescoberta e estabelecida solidamente, ancorada em bases espirituais inalienáveis.

Para fazer conhecer este Documento Final tivemos até agora (março 2026) três reuniões com os membros dos CPPs. Estas reuniões foram realizadas nas Foranias. De cada uma destas reuniões foram entregues tarefas às paróquias para que, experimentando uma prática sinodal, de alguma maneira fossem sendo encontradas respostas pastorais. Da primeira reunião, após explicitação do primeiro capítulo do Documento Final, os membros do CPP levaram como “lição de casa” um questionário. A segunda reunião foi a devolutiva desse questionário e a “lição de casa”, foi para cada CPP, já com alguma prática sinodal, que escolhesse um dos aspectos pastorais levantados através do questionário, em toda diocese, e deste aspecto fizesse brotar um processo pastoral para que fosse implantado na paróquia. Na terceira reunião, foram apresentados os capítulos segundo e terceiro do Documento Final. E, iniciando um processo de modo sinodal, foi iniciada a revisão dos Estatutos do CPP, em vigor desde 2017 em nossa diocese.

Por que escolhi os membros dos CPPs?  Fiz esta escolha por tratar-se de irmãos e irmãs que estão, juntamente com os pastores de cada paróquia, à frente do discernimento e organização do trabalho evangelizador em cada comunidade. Desta forma, muito mais que com palestras e cursos, possam ir trabalhando esta mentalidade em nossas comunidades.

Alguém pode perguntar ou objetar: Por que não se faz um curso ou Semana Diocesana de Formação sobre este Documento Final? Porque diferentemente de outros documentos do Magistério da Igreja, este documento deve ser aprendido através da experiência, de aspectos mais sensíveis a cada realidade diocesana e conforme o discernimento que vá sendo feito à luz dos sinais dos tempos.

A propósito, a Comissão Diocesana de Pastoral (CODIPA), escutando alguns irmãos e irmãs, achou por bem dar um enfoque mais doutrinal à Semana Diocesana de Formação. O povo tem sede de que seja melhor explicitado os conteúdos da nossa fé. Assim sendo, a partir deste ano iremos, com critério e sem pressa, apresentar/estudar na Semana Diocesana de Formação os conteúdos do Catecismo da Igreja Católica: Creio, Liturgia e Sacramentos, Moral e Oração. Seguramente serão argumentos para mais de uma década.  Vejo nesta escolha uma convergência interessante de acontecimentos. O Catecismo da Igreja Católica atual surgiu após um Sínodo dos bispos em 1985 (20 anos do término do Concílio Vaticano II) e a implementação do Sínodo, assim chamado sobre “a sinodalidade” começa a acontecer no ano em que se celebrou os 60 anos do término do Concílio Vaticano II.

Ao longo deste ano, nesta coluna, irei falando sobre pontos que julgo capitais para a vivência desta Igreja Sinodal dentro da nossa realidade diocesana.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo diocesano

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Jubileu da Esperança e a ‘‘Dilexi te’’

Chegamos ao mês de dezembro, também ao último mês deste Ano Jubilar. No próximo dia 28 de dezembro, Festa da Sagrada Família, às 15h, em nossa Catedral, teremos a celebração de encerramento do Ano Jubilar.

O Jubileu termina, mas não o sermos Peregrinos de Esperança. Os sinais de esperança, manifestados pelo Papa Francisco na Bula convocatória do Jubileu, “Spes non confundit”, continuam aí para serem vivenciados, e agora mais iluminados pela Exortação Apostólica “Dilexit te”, do Papa Leão XIV.  Nesta Exortação, o Papa ao nos recordar ao longo da caminhada da Igreja, através dos séculos, as várias formas de manifestação da opção preferencial pelos pobres, nos dirige também para alguns sinais de esperança indicados pelo Papa Francisco.

O Apóstolo Paulo, na segunda Carta aos Coríntios (8-9), fala de uma campanha de solidariedade para os pobres da comunidade de Jerusalém. Na Igreja de Jerusalém são instituídos pela imposição das mãos os sete servidores para que ninguém passe dificuldades. Na Dilexi te o Papa Leão fala desta verdadeira Tradição do cuidado aos pobres, como parte integrante da missão e do testemunho da Igreja. Cita o Diácono São

Lourenço, de Roma (38), os Santos Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna (39). Da mesma época dos dois santos – século II – é também citado São Jusitno, de Roma, que mostra que a partilha com os pobres, faz parte da vivência da celebração Eucarística (40). O cuidado pastoral para com os pobres do bispo de Cartago, S. Cipriano, também é citado (49). Não poderia, sem sombra de dúvida, faltar a citação do grande Padre da Igreja, São João Crisóstomo, século IV, que une intimamente a vivência cristã na liturgia e na vida, com a opção preferencial pelos pobres (41). O grande Padre da Igreja do Ocidente, Santo Agostinho – séculos IV e V – é citado pela exigência do seguimento de Cristo, oferta aos pobres e coração indiviso (46-48).

O primeiro sinal de esperança, indicado pelo Papa Franciso, é a paz no mundo imerso em guerras. (Spes non confundit 8). Aqui, podemos contemplar ao longo da história, que em tempos tristes de flagelos da guerra, as comunidades cristãs sempre encontraram meios de anunciar a paz pela solidariedade. Na “Dilexi te” é citada a Vida Monástica, de modo especial desde a chamada Idade Antiga até a Idade Média (53-58). Os mosteiros sempre foram vistos como oásis de paz, em meio a tantos conflitos. O desprezo das riquezas incluía o cuidado para com os pobres e acolhida aos necessitados em meio aos sofrimentos. Do Oriente é citado um dos grandes mestres: o Capadócio São Basílio Magno (sec. IV). Para fazer presente a vida monástica do Ocidente, são citados João Cassiano (séc. IV) e São Bento Pai dos monges do Ocidente (séc. V). Para Idade Média, entre tantos filhos da Tradição beneditina, é citado São Bernardo de Claraval e os cistercienses (sec. XII). O final da Idade Média, na Europa, marcado por tantas guerras intestinas de poder, tem em contrapartida o testemunho de pobreza e partilha das Ordens mendicantes (cf. Dilexi te 63-67), cujo grande testemunho temos em Francisco de Assis, mas também a grande presença dos dominicanos, carmelitas e agostinianos.

Depois, para olhar para o futuro com esperança, temos que ter a abertura à vida, segundo sinal de esperança (SNC 9). Quantas Congregações religiosas, principalmente, surgiram com a missão de defender a vida, seja cuidando dos órfãos, das mães abandonadas, bem como trabalhando para a educação dos pobres. Os números 68-72 da Dilexi te enumeram: São José de Calazans e a Ordem dos clérigos Regulares Pobres da Madre de Deus das Escolas Pias, no século XVI. Nos séculos seguintes surgiram, além de Congregações femininas, São João Batista La Salle, Marcelino Champagnat, São João Bosco, Beato Antonio Rosmini…

No número 10 da Bula o Papa Francisco para a necessidade de dar sinais de esperança aos encarcerados. Em tempos de guerra, onde pessoas eram escravizadas, Deus inspirou pessoas a viverem a consagração especial para a libertação dos cativos: Trinitários, Mercedários e na Dilexi te (59-62), são citados São João da Mata e São Felix de Valois.

No quarto sinal de esperança (SNC 11) estão os doentes e no número 14, estão os idosos. Deus suscita carismas, principalmente nos séculos XVII, que lembram estas obras de misericórdia: São Camilo de Lelis, São João de Deus, São Vicente de Paulo, Santa Luiza de Marillac (50-51).

O quinto sinal de esperança (SNC 12) dirige-nos aos jovens. Aqui, como não remeter aos já citados santos e santas, citados acima, que se preocuparam com a educação da juventude nas mais diversas situações?

Os migrantes são contemplados na Bula do Papa Francisco (SNC 13). A “Dilexi te” cita a situação de migração e imigração do Povo de Deus do Antigo Testamento e a própria Sagrada Família que foi para o Egito e de lá voltou tendo que se estabelecer em Nazaré. Acolher os forasteiros é obra de misericórdia (Mt 25,35). Deus também suscitou santos e santas chamados a viver esta obra de misericórdia, como São João Batista Scalabrini e Santa Francisca Cabrini (73-75)

Por último, mas não em último lugar, estão os pobres, os empobrecidos (SNC 15-16). De várias formas Deus tem suscitado na Igreja (e também no mundo, fora do ambiente ad intra da Igreja) pessoas que doam suas vidas pelos pobres. Duas santas são mencionadas particularmente na “Dilexi te”: Santa Teresa de Calcutá e Santa Dulce dos pobres. Também são citados: São Bento Menni, Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, São Charles de Foucauld, Santa Katarine Drexel… (76-81).

Quero concluir a citação desta espécie de resenha da “Dilexi te” e consonância com a “

Spes non confudit” com uma citação da Carta aos Hebreus: “Portanto, com tamanha nuvem de testemunhas em torno de nós, deixemos de lado o que nos atrapalha e o pecado que nos envolve, com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente da nossa fé e a leva à perfeição. Em vista da alegria que o esperava, suportou a cruz, não se importando com a infâmia e assentou-se à direita do trono de Deus.” (Hb 12, 1-2)

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

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Dois Jovens Santos neste Ano Jubilar: Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati

O Ano Jubilar que estamos vivendo está repleto de imagens e acontecimentos que somos chamados a contemplar e ver a ação de Deus. Entre o final de julho e começo de agosto pudemos assistir o Jubileu dos jovens em Roma. Aquela imagem da multidão de jovens em Tor Vergata, seguramente, faz-nos acreditar que, sim, podemos ser peregrinos de esperança.

Temos um outro acontecimento ligado à juventude que é a canonização do Beato Carlo Acutis, que deveria ter acontecido no dia 27 de abril, mas em virtude da morte do Papa Francisco, foi, posteriormente, transferida para o dia 07 de setembro.

Carlo Acutis (1991-2006), jovem adolescente, que viveu entre o final do século XX e início do século XXI, é um santo que inspira a nossa juventude tão “antenada” com as novas tecnologias. Afinal, ele não foi somente um jovem gamer, mas serviu-se de seu conhecimento técnico de informática para favorecer a obra da evangelização em sua paróquia, na Igreja e na sociedade.

No entanto, a sua santidade não vem dos seus conhecimentos tecnológicos e do trabalho que realizou. A santidade é dom de Deus. Dom que Carlo soube acolher com o impulso do Espírito Santo. Ele, de família católica tradicional, mas nem tanto “praticante”, acolheu o chamado de Deus e na infância, adolescência e início da sua juventude, esforçou-se por ser fiel a Deus e à Igreja. Este seu esforço e fidelidade foram elementos para uma caminhada de conversão para toda sua família.  Sua vida desde a infância foi permeada de catequese, oração e adoração, e profundo sentido da força da Eucaristia, celebrada e acolhida como caminho para o céu.

Que os nossos jovens possam olhar para São Carlo Acutis não simplesmente como gamer, antenado no mundo digital, mas como aquele no qual Deus, propõe um caminho de santidade para hoje!

Entretanto, a Providência Divina, através do Papa Leão, nos presenteia com outra canonização na mesma celebração do dia 07 de setembro, a do Beato Pier Giorgio Frassati  (1901-1925).

Também ele, proveniente de família católica “tradicional”. Educado em colégios católicos, desde a infância, adolescência e juventude destaca-se  – diferentemente da sua família – numa vida eclesial mais engajada: comunhão diária, Cruzada Eucarística, Liga Eucarística, Companhia do Santissimo Sacramento. Congregação Mariana, Confraria do Santo Rosário. Ação Católica. Terciário dominicano, Conferência de São Vicente. Todos movimentos eclesiais que congregavam jovens na Itália do início do século XX. Como Acutis fará um século depois, acolhe o chamado de Deus e busca ser fiel a ele. Sua biografia diz que sua mãe temia que ele fosse querer ser padre, mas há testemunhos de que ele teria dito preferir ser leigo para poder estar mais perto de realidades que ferem a dignidade da pessoa humana.

Era conhecedor da cultura clássica, com destaque para a Divina Comédia, de Dante Aleghieri. A sua experiência de fé possui fundamentos  bíblicos (Novo Testamento) e leituras de Santo Agostinho e Santa Catarina de Sena. Amava esportes e alpinismo. Estava prestes a tornar-se engenheiro na área da mineração quando faleceu. Esta escolha ele o fez para poder estar mais perto de uma das classe trabalhadoras mais sofrida na sua realidade.

A sua família era abastada. Seu pai foi fundador de um dos jornais mais fortes da Itália, em Turim, “La Stampa”. Pier Giorgio diante dos acontecimentos sociais do seu tempo, sempre buscou ler os fatos através do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja (lembremos que fazia poucos anos que Leão XIII havia escrito a Rerum Novarum). Esta leitura se torna concreta nele diante do forte avanço da industrialização em Turim, do flagelo da gripe espanhola, dos horrores da I Guerra mundial e do avanço do fascismo na Itália. Para estar mais engajado politicamente inscreveu-se no Partido Popular e se desliga de uma organização universitária onde estava inscrito, por discordar dela devido a condescendência, da mesma, com as ideias fascistas.

Dois santos propostos como exemplos e intercessores para a Igreja e, de modo especial, para juventude. A nossa juventude está sendo “bombardeada” por tantas  ideias através das novas tecnologias e por tantas ideologias de polarizações sociais e políticas. A grande tentação é alienar-se ou tomar  “partido” buscando refúgio onde se encontra mais seguranças humanas.

Dois jovens – cada um no seu tempo – souberam encontrar caminhos dentro de uma vida eclesial comprometida espiritual, intelectual e socialmente.

Dois jovens que são colocados como padroeiros do nosso VIVA A VIDA, que chega à sua 20ª edição, no mesmo dia da canonização de ambos.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

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As peregrinações do Ano Santo: expressão do ser Peregrino de Esperança

Em maio de 2024 o Papa Francisco publicou a Bula de convocação do Ano Santo Jubilar de 2025. No refletir sobre ela e apresentá-la à diocese, veio em meu coração o desejo de fazer a Peregrinação a Roma. Pela minha idade é bem possível que seja o último Ano Santo Jubilar em que possa fazer esta peregrinação. Uma vez visto na programação que haveria uma data específica para o Jubileu dos bispos, preparei-me na agenda, no espírito e economicamente para esta viagem. Com alegria, então, pude estar em Roma nos dias 23 a 30 junho.

O Papa Leão XIV ao saudar os bispos no dia do Jubileu dos Bispos, disse-nos: “Aprecio e admiro o vosso empenho em vir como peregrinos a Roma, sabendo muito bem quão prementes são as exigências do ministério. Mas cada um de vós, como eu, antes de ser pastor, é ovelha do rebanho do Senhor!…somos os primeiros a serem convidados a atravessar a Porta Santa, símbolo de Cristo Salvador. Para guiar a Igreja confiada a nossos cuidados, devemos deixar-nos renovar profundamente por Ele, o Bom Pastor, para nos conformarmos plenamente ao Seu coração e ao Seu mistério de amor.” Estas palavras tocaram-me de modo especial, pois exprimiam todo o sentido de estar ali, naquele momento e naqueles dias. Foi exatamente com este espírito que passei pelas Portas Santas das quatro Basílicas papais de Roma.

Quero, pois, partilhar com os meus diocesanos algumas experiências destes dias de peregrinação.

            Já. na segunda-feira, dia 23 de junho, após breve repouso da viagem, peregrinei a duas Igrejas jubilares de Roma. A primeira foi a Basílica de São João do Latrão, catedral do Papa e considerada mãe de todas as igrejas de Roma e do mundo. Lá, primeiramente, participei do Sacramento da misericórdia de Deus para os pecadores. Ali, nas orações próprias para lucrar as indulgências, rezei pela caminhada sinodal da nossa diocese, pelos passos corajosos que pastoralmente somos chamados a dar. Não pude deixar de colocar nas minhas orações a comunhão do presbitério e a comunhão do bispo com o presbitério. Rezei pela minha conversão pessoal e pastoral. De lá dirigi-me à Basílica de Santa Cruz in Gerusalemme, cujo inícios remontam ao século IV e que, desde então, custodiam as relíquias da Cruz de Cristo, trazidas desde a Terra Santa por Santa Helena. Os monges cistercienses, da minha Congregação, foram responsáveis por esta Basílica até 2010, por quase 500 anos. Ali residi por 02 anos e meio, durante meus estudos em Roma e também fui vigário paroquial. Ao rezar diante das relíquias da Cruz, não pude deixar de pensar nos tantos rostos sofredores dos irmãos e irmãs de nossa diocese. Jesus, o homem das dores, conhecedor de todas as misérias, se faz presente no rosto dos pobres e sofredores. Como o meu, o nosso coração, precisa se abrir à grandeza do mistério da Cruz, para amarmos na dimensão da Cruz e tomar cada dia a nossa cruz.

Dia 24 de junho, terça-feira, foi o dia de ir à periferia de Roma: Santuário de Nossa Senhora do Divino Amor. Neste lugar pedi especialmente pelos movimentos marianos da nossa diocese: Terço dos homens, Mães que oram pelos filhos, Movimento Sacerdotal Mariano, Consagração a Nossa Senhora, terço das mulheres e tantas outras expressões marianas que temos. A última igreja onde peregrinei neste dia foi a Basílica de Santa Maria Maior. Ali, juntamente com outros peregrinos presentes, pude rezar o santo terço, pedindo a todos nós, a exemplo da Virgem Maria, a obediência da fé. Esta Basílica papal, tem recebido peregrinos (e turistas também) de modo excepcional neste Ano Jubilar, pois nela se encontra sepultado o saudoso Papa Francisco. Impressionante a fila que se forma para passar diante do local onde o seu corpo está sepultado. Neste dia, também, entre a minha ida ao Santuário de Nossa Senhora do Divino Amor e a Basílica de Santa Maria Maior, peregrinei também à Basílica de São Lourenço al Verano, local do martírio do Diácono São Lourenço. Logicamente, aí, detive-me em oração pela nossa Escola Diaconal São Lourenço e pelos diáconos permanentes da nossa diocese e suas famílias.

Dia 25 de junho foi o dia do Jubileu dos Bispos. Acredito que éramos mais de 800 bispos em peregrinação. Todos nós, já paramentados para a celebração da Eucaristia, adentramos à Basílica de São Pedro, passando pela Porta Santa. A Eucaristia foi presidida pelo Cardeal Ouellet, Prefeito emérito do Dicastério para os bispos, pois o Papa estava na audiência geral com o povo na Praça de São Pedro. Após a celebração da Eucaristia o Papa Leão XIV veio encontrar-nos no altar da Cátedra, na Basílica de São Pedro. A maneira como nos saudou já disse acima. A sua audiência para nós foi uma verdadeira catequese, pois exortou-nos a ser peregrinos de esperança para vivermos o dom profético que somos chamados a exercer, sendo construtores da unidade, como homens de fé, esperança e caridade pastoral. Exortou-nos ainda em cultivar virtudes humanas indispensáveis para a nossa missão: prudência pastoral, pobreza evangélica e a continência perfeita no celibato por causa do Reino dos Céus. As palavras do Papa Leão foram encorajadoras para mim, pois ser profeta se torna mesmo, cada vez mais, nadar contra a corrente No final da audiência, foi muito significativo, juntamente com Pedro (o Papa) e junto ao túmulo de Pedro cantarmos a profissão da fé, o Creio.

Quinta-feira, 26 de junho, foi o dia de peregrinar à Basílica de São Paulo Fora dos Muros. Neste lugar onde está sepultado o Apóstolo Paulo, coloquei intenções especiais pelo nosso COMIDI, mas também por todas as pastorais e movimentos da nossa diocese para que tenhamos uma verdadeira e corajosa conversão missionária. Coloquei nas orações os padres que estão servindo em outras dioceses e também os nossos dois missionários ad gentes, Pe. Salvador, Helena e a família em missão do Caminho Neocatecumenal, Ariel, Daniela e seus seis filhos.

Na noite deste dia foi celebrada uma vigília vocacional na Basílica de São Pedro. O testemunho de um seminarista nigeriano, estudante em Roma, tocou a todos, pois sofreu perseguição por causa da fé, junto com alguns outros companheiros de seminário na Nigéria. Eles foram ridicularizados pelos seus sequestradores e um dos seus companheiros de seminário foi cruelmente assassinado por ter falado sobre a fé cristã e ter ensinado o Pai Nosso a um dos carcereiros. Pensei em nossos seminaristas que devem sempre se preparar nestes momentos de formação para que estejam sempre preparados para dar a razão da própria fé. Esta vigília preparava a solene ordenação presbiteral que foi realizada no dia seguinte, solenidade do Sagrado Coração de Jesus, presidida pelo Papa Leão XIV.

No sábado, dia 28 de junho, juntamente com o nosso seminarista Sebastião, peregrinamos à Basílica de São Sebastião ad catacumbas, local também de peregrinação jubilar. Rezando na basílica e visitando as catacumbas, coloquei nas minhas intenções todos que oferecem suas vidas pela evangelização em nossa diocese. Não deixei de colocar nas minhas intenções todos que, por pertencerem à Igreja e evangelizarem, são perseguidos, muitos começando a partir das próprias famílias.

Domingo dia 29 de junho, solenidade do martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo, tive a alegria de poder concelebrar com o Papa Leão. Nesta celebração, o Santo Padre impôs o pálio a 54 novos arcebispos. A grande experiência mística nesta celebração, foi poder atualizar na minha vida o dom da unidade e comunhão na Igreja. De fato, o Santo Padre, em sua homilia sublinhou que, apesar dos conflitos na obra evangelizadora, Pedro e Paulo, viveram a comunhão eclesial e a vitalidade da fé. “Caríssimos, a história de Pedro e Paulo ensina-nos que a comunhão a que o Senhor nos chama é uma harmonia de vozes e rostos, e não apaga a liberdade de cada um. Os nossos Padroeiros percorreram caminhos diferentes, tiveram ideias diferentes, por vezes confrontaram-se e discordaram com franqueza evangélica. Mas isso não os impediu de viver a concordia apostolorum, ou seja, uma viva comunhão no Espírito, uma sintonia fecunda na diversidade. Como afirma Santo Agostinho, «temos um só dia para as Paixões dos dois Apóstolos. Eles eram dois e formavam um só ser. Embora tivessem sofrido em dias diferentes, eles formavam um só ser» (Sermão 295, 7.7).”

Dia 30 de junho: dia de retornar a Guarulhos com o coração agradecido. Esta ação de graças pude exprimir num longo momento de oração na igreja paroquial Nossa Senhora de Loreto (que também é igreja jubilar). Esta igreja paroquial fica dentro do Aeroporto Internacional de Roma, em Fiumicino.

Ainda que seja difícil a todos irem a Roma, temos os lugares de peregrinação em nossa diocese. Espero que esta minha experiência possa animar os irmãos e irmãs, que ainda não fizeram sua peregrinação jubilar que o façam. Recordando nossas igrejas jubilares: Catedral Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos, Santuário Nossa Senhora do Bonsucesso, Santuário Bom Jesus da Cabeça, Santuário São Judas Tadeu e paróquia Santa Terezinha. A nossa Romaria diocesana deste ano, dia 20 de setembro, também será a nossa peregrinação ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, também igreja jubilar.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

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Ano Santo Jubilar e as Indulgências

Ao falar aqui de maneira simples sobre as Indulgências, espero não estar “pecando” através da linguagem.

Quando pecamos, ferimos a nossa existência. Quanto mais pecamos, a nossa existência vai se amoldando às consequências do pecado em nós. Com o passar do tempo, nódoas profundas, como uma sujeira impregnante, vão se acumulando como a sujeira numa piscina: por cima tudo pode estar limpo, mas no fundo está a sujeira.

O Sacramento da Penitência, sim, perdoa os nossos pecados. O Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo nos remiu de todo pecado. No entanto, as chamadas penas temporais (consequências) continuam aí. Faz-se necessário uma profunda conversão em toda a nossa existência para que as manchas sejam retiradas. Precisamos de purificação. Caso não tenhamos em nossa existência terrena esta purificação, o amor de Deus, por quem fizemos opção fundamental, irá nos purificar após a nossa peregrinação terrena. É o que a Igreja ensina sobre o Purgatório. Quem “está” no Purgatório não está condenado, está salvo, mas necessita desta atenção amorosa de Deus.

As Indulgências que a Igreja ordinariamente nos oferece, em certas ocasiões, nos ajudam na libertação destas penas temporais do pecado em nós. As Indulgências especiais concedidas no Ano Santo Jubilar, como este que estamos celebrando, são uma grande oportunidade de purificação para todos nós. Com as Indulgências “a Igreja, esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado.”  (Papa Francisco, Misericordiae Vultus 22). Podemos assim experimentar a ilimitada misericórdia de Deus. Atenção: não só para conosco, mas em algumas circunstâncias, para as almas do Purgatório, em virtude da fé que professamos “creio na comunhão dos santos”. A Igreja peregrina está em comunhão, não somente com a “Igreja celeste”, mas também, como se dizia, com a “Igreja padecente”.

A Penitenciaria Apostólica ao falar sobre a concessão das Indulgências para este Jubileu declara: “Durante o Jubileu Ordinário de 2025, permanecem em vigor todas as outras concessões de Indulgência. Todos os fiéis verdadeiramente arrependidos, excluindo qualquer apego ao pecado, que forem movidos por um espírito de caridade e que, no decurso do Ano Santo, purificados pelo Sacramento da Penitência e revigorados pela Sagrada Comunhão, rezarem segundo as intenções do Sumo Pontífice, estes poderão obter, do tesouro da Igreja, pleníssima Indulgência, remissão e perdão dos seus pecados, que se pode aplicar às almas do Purgatório sob forma de sufrágio.

Estejamos atentos: não se trata de fazer simplesmente as coisas exteriores prescritas: peregrinações e visitas pessoais aos lugares sagrados do Jubileu, realizar as obras de misericórdia e penitência, participar de missões populares, encontros de formação sobre o Concílio Vaticano II, visita aos doentes e idosos, redescobrir o valor penitencial das sextas-feiras etc. etc. Primeiramente é preciso sentir em nós a dor do pecado. Depois ter um verdadeiro arrependimento. Em seguida, buscar o Sacramento da Penitência (sem o qual não se pode lucrar as Indulgências). Realizar os modos de lucrar as Indulgências com todo sentimento de desapego ao pecado.

Assim sendo, o sermos Peregrinos de Esperança, vai transformando o nosso ser à medida em que espelhamos em nós a vida nova que nos vem do Cristo.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

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O Bispo e o Papa

Durante este Tempo Pascal Deus nos permitiu viver acontecimentos especiais com a morte do saudoso Papa Francisco e a eleição e primícias do Pontificado de Leão XIV.

Naquela manhã de segunda-feira, 21 de abril, oitava da Páscoa fomos surpreendidos com a morte do Papa Francisco. O sentimento que experimentei foi surpresa até para mim mesmo, pois me senti órfão e ao mesmo tempo perguntando-me: para onde vou?  Eu mesmo me censurava dizendo-me: o que é isso? Que apego desnecessário! As horas daquele dia foram passando e então fui diagnosticando em mim aquele sentimento.

É verdade: o Pontificado do Papa Franciso foi marcante para mim. Os desafios lançados desde as suas primeiras palavras como Papa, a Evangelii Gaudium (com uma linguagem diferente), as Encíclicas sociais, os Sínodos…Tudo isso sempre foi para mim um apelo à conversão pessoal e pastoral. Algumas coisas não entendiam “de primeira”, mas depois refletindo entendia que não era heresia, que estava em comunhão com a fé e Tradição da Igreja.

No entanto, aquele sentimento, no dia 21 de abril, não era somente algo afetivo, mas também efetivo. Tenho 17 anos de serviço episcopal, dos quais 12 sob o Pontificado de Francisco. Não fiquei com medo do futuro, absolutamente. Tratava-se de um momento que, apesar de continuar sendo Sucessor dos Apóstolos, o Colégio Episcopal, estava sem a sua Cabeça visível nesta terra. O Ministério do Sucessor de Pedro estava temporariamente ausente. Foi aquela sensação que o meu ministério episcopal não estava, diria, pleno.

De fato, nos ensina a Lumen Gentium, Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II: “O Senhor Jesus, depois ter orado ao Pai, chamou a si os que ele quis e escolheu os doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (Cf Mc 3,13-10; Mt 10,1-42); a estes os constituiu apóstolos (cf. Lc 6,13) sob a forma de colégio, isto é, de grupo estável, cuja presidência entregou a Pedro, escolhido dentre eles.  (cf Jo 21,15-17) (Lumen Gentium 19) Tal como, por disposição do Senhor, São Pedro e os demais apóstolos formam um só colégio apostólico, de maneira semelhante o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e os bispos, sucessores dos apóstolos, estão unidos entre si. (…). Mas o colégio episcopal não tem autoridade, se nele não se considera incluído, como cabeça, o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, permanecendo sempre íntegro o seu poder primacial sobre todos, tanto pastores como fiéis.”  (Lumen Gentium 22).

Para corroborar com esta doutrina explicitada no Vaticano II, temos a Exortação Apostólica “Pastores Gregis” de São João Paulo II, que foi publicada a partir do Sínodo dos Bispos sobre o serviço episcopal: “De igual modo, através da sucessão pessoal do Bispo de Roma ao bem-aventurado Pedro e de todos os bispos no seu conjunto aos apóstolos, o Romano Pontífice e os Bispos estão unidos entre si como um Colégio. (…) De fato, ele é (o bispo) constituído na plenitude do ministério episcopal pela consagração episcopal e pela comunhão hierárquica com a Cabeça do Colégio e com os membros, isto é, com o Colégio que sempre inclui sua Cabeça. (…). Porém, o afeto colegial só se realiza e exprime, de modo pleno, na ação colegial em sentido estrito, isto é, na ação de todos os Bispos unidos com a sua Cabeça pela qual exercem o poder pleno e supremo sobre toda a Igreja. Esta natureza colegial do ministério apostólico é querida pelo próprio Cristo. Por isso, o afeto colegial ou colegialidade afetiva vigora sempre entre os bispos como communio episcoporum e em alguns atos se exprime como colegialidade efetiva. (…). Princípio e fundamento desta unidade, tanto da Igreja como do Colégio dos Bispos, é o Romano Pontífice. (…) Cada Bispo – sempre em união com todos os irmãos no episcopado e com o Romano Pontífice – representa Cristo, Cabeça e Pastor da Igreja.”

(Pastores Gregis, 8)

Esta compreensão, existencial e sacramental, tornou-se para mim mais clara ainda, quando na tarde de 08 de maio, foi anunciada a eleição de Leão XIV. Naqueles momentos, antes mesmo do anúncio do eleito e do nome que ele havia escolhido, senti voltar aquela sensação do ministério “pleno”. Depois, sabendo quem era o eleito, sabendo um pouco da história, fui intuindo os caminhos de Deus na história. Não somente as suas primeiras palavras no balcão da Basílica de São Pedro, mas principalmente a sua homilia, na Sistina, com os cardeais, no dia 09 de maio, fizeram-me experimentar um sentimento de comunhão efetiva e afetiva.

Ainda que, após o assentimento à sua eleição, o Papa eleito, sendo já bispo, torna-se bispo de Roma, com tudo aquilo que está intimamente ligado a esta missão, a celebração de 18 de maio, “início do Pontificado”, é também cheia de significado nesta união afetiva e efetiva. “…a unidade da Igreja está radicada na unidade do episcopado, o qual, para ser uno, requer uma Cabeça do Colégio. De forma análogo a Igreja para ser una exige uma Igreja como Cabeça das Igreja, a de Roma, cujo bispo – sucessor de Pedro – é a Cabeça do Colégio. (…)O primado do bispo de Roma e o Colégio Episcopal são elementos próprios da Igreja universal, não derivados da particularidade das Igrejas, mas interiores a cada Igreja Particular. O fato de o ministério do Sucessor de Pedro ser interior a cada Igreja Particular é expressão necessária dessa fundamental e mútua interioridade entre Igreja universal e Igreja Particular.”  (Pastores Gregis 56)

Então, todos os meus sentimentos como bispo, não são coisas que podem ser chamadas banalmente de sentimentais. Tratam-se de sentimentos que denotam uma realidade existencial e sacramental – ousaria dizer ôntica. Visto, ainda, que sou um bispo diocesano, toda a Igreja Particular de Guarulhos, deve unir-se a este sentimento, para estarmos plenamente na comunhão e unidade da Igreja.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo diocesano

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Peregrinos da Esperança ou Peregrinos de Esperança? – Parte 3

Nós, cristãos católicos, neste Ano Jubilar somos chamados a ser, sim, Peregrinos de Esperança. O Peregrino da Esperança é aquele que está em busca da Esperança que não decepciona. O Peregrino de Esperança já possui a Esperança e, portanto, dela transborda e manifesta os sinais da Esperança e a significa para a humanidade.

De fato, “…justificados pela fé, estamos em paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não é só. Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança a virtude comprovada, a virtude comprovada a esperança. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. (Rm 5,1-5)

Neste texto que inspira o Jubileu da Esperança, a primeira coisa que se nos apresenta e nos diferencia em sermos Peregrinos de Esperança e não Peregrinos da Esperança, é a outra virtude teologal que nele aparece: a fé. Duas vezes aparece a expressão “pela fé”. O próprio apóstolo Paulo em outros textos diz que a fé vem pelo ouvido e pela pregação. A fé que temos foi em nós infusa pela ação do Espírito Santo através da pregação da Igreja que ouvimos com nossos ouvidos.

A fé é a nossa resposta de adesão àquilo que nos foi pregado e entrou de modo avassalador em nossos corações, pois o anúncio da salvação por Jesus Cristo proporcionou-nos o encontro, não como uma ideia ou ideologia, mas com a pessoa deste nosso Deus, Senhor e Salvador e, que, de alguma maneira, transformou a nossa existência. A nossa “justificação” vem através desta fé, pois nossa adesão ao Senhor Jesus, faz-nos sentir amados e perdoados, não obstante a situação de morte e infelicidade que nos colocaram os nossos pecados. Isso, seguramente, não aconteceu somente uma vez, mas várias vezes, sempre que esta pregação reverberou e ainda reverbera dentro de nós.

Então, a primeira coisa que nos faz Peregrinos de Esperança é a nossa fé. A fé que vence o mundo, como nos diz São João. Esta fé tem um conteúdo, possui uma maneira de enxergar o mundo com os olhos de Deus e acreditar no amor do Pai, aquele amor que o “pai da mentira”, desde o princípio tenta fazer com que duvidemos. A vivência da nossa fé nos faz testemunhas do amor que é mais forte do que a morte. Nenhuma situação de morte neste mundo pode destruir este amor que acreditamos.

Convido a cada um e a cada uma a fazer memória em sua vida daquele ou daqueles momentos em que o anúncio de Jesus fez com que você acreditasse no amor, pois se sentiu amado e amada por Deus. Este é um primeiro passo para entendermos a nossa identidade de Peregrinos de Esperança e não de Peregrinos da Esperança.

A convocação e o anúncio deste Jubileu foram feitos pelo grande Peregrino de Esperança do nosso tempo: o Papa Francisco que terminou a sua peregrinação no último 21 de abril, não sem antes, no dia anterior, domingo da Páscoa da Ressurreição, ao se fazer presente na Praça de são Pedro, testemunhar que, mesmo na debilidade, podemos e somos Peregrinos de Esperança.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo Diocesano