“Como tenda peregrina no meio da história, a Igreja se deixa interpelar pelos ventos do tempo e pelos passos do povo que nela busca abrigo. Atenta ao que acontece ao redor, ela escuta as vozes que chegam, algumas carregadas de esperança, outras marcadas pela dor. Assim, aprende a discernir os apelos do Espírito. Alargando suas lonas para acolher melhor, inclina-se sobre as alegrias e feridas do mundo, reconhecendo que, em cada realidade humana, Deus continua a falar e a conduzir seu povo pelos caminhos da missão.” (DGAE 17)
As DGAE 2026-2032 são o instrumento principal no Brasil para a Implementação do Sínodo. A reflexão que pode ser haurida a partir delas servirá para criar uma espécie de “instrumento de trabalho” para a nossa Assembleia Eclesial Diocesana que deveremos realizar no primeiro semestre de 2027. No mês passado propus a reflexão dos sinais de esperança que devem marcar nossa caminhada e experiência de um Deus que caminha conosco. Agora, haurindo das mesmas DGAE, temos que corajosamente refletir sobre situações que ainda desafiam a evangelização. A “tenda peregrina” da diocese de Guarulhos possui e possui muitas situações que nos desafiam na evangelização. As DGAE a partir do número 27 apresentam tantas das situações que persistem desafiando a evangelização. Proponho aqui para reflexão algumas situações que, creio, sejam mais candentes em nossa diocese.
É patente ouvir nas paróquias a realidade do enfraquecimento do sentido comunitário, pois tal compromisso implica numa atitude de pertença e responsabilidade com a ação evangelizadora de uma comunidade. Eu mesmo já ouvi pessoas dizerem que são “diocesanas”, pois participam da Eucaristia, novenas, cercos de Jericó e outras celebrações em toda a diocese, mas não têm disposição e tempo de assumirem compromisso com uma comunidade concreta. Outras vão atrás de onde está este ou aquele padre. Assim, temos agentes de pastorais em nossas comunidades sobrecarregados no servir. Além disso, temos as pessoas que – ao menos isso – participam da Eucaristia em suas comunidades, mas não querem saber de envolvimento com a comunidade. Isso também reflete numa outra situação desafiadora para a comunidade que é o ser Igreja em estado permanente de missão. Aqui, em muitos locais, temos um retrocesso, pois esta proposta foi impulsionada pela Conferência de Aparecida em 2007.
É doloroso, mas é verdade, que o contratestemunho de membros da comunidade, inclusive consagrados e ministros ordenados, tem afastado pessoas, de modo especial os irmãos e irmãs mais fracos na fé. Em muitas destas situações aparece o clericalismo, tanto por parte dos ministros ordenados, como por parte dos cristãos leigos e leigas. No entanto, é preciso maturidade para compreender que todos somos pecadores em processo de conversão. O centro da comunidade deve ser o Cristo. As pessoas passam, mas o Cristo é para sempre. Na comunidade sempre podemos encontrar a graça da Palavra e dos Sacramentos. Esta situação causa outro desafio: o enfraquecimento da vida fraterna e da comunhão, pois gera divisões na comunidade.
Os leigos e leigas, por vocação própria, são chamados a serem o fermento do Reino na sociedade.
“A missão própria dos cristãos leigos e leigas os envia a atuar de modo transformador nos muitos espaços onde a vida acontece: na família, no trabalho e na economia; na cultura e educação; nas artes e ciências; na política e comunicação…(DGAE 72).
Acrescentemos aqui a participação política, não somente aquela partidária, mas aquela em que há envolvimento nas políticas públicas. Vemos em nossas comunidades a diminuição de agentes de pastoral junto às pastorais sociais e, assim, mesmo dentro das comunidades assistimos ao frágil protagonismo de parte dos cristãos leigos e leigas.
Ainda no próximo mês vou retomar esta temática. Ainda que o número de desafios seja maior que os sinais de esperança, a Esperança é sempre maior, pois “ela não decepciona”.
Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.
Bispo Diocesano de Guarulhos


