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“O Senhor fez em mim maravilhas.” (Lc 1,49)

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"A Esperança não decepciona" (Rm 5,5)

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Artigos Voz do Pastor

Estamos vivendo a implementação do Sínodo dos Bispos (2021-2024) – Parte 3

O escopo de ser Igreja Sinodal é a missão da Igreja. Não uma missão que alimenta uma pastoral de conservação ou mera manutenção do que já estamos vivendo pastoralmente. Precisamos alargar a abrangência dos destinatários da missão.

            No último artigo lembrei que a primeira atitude importante no ser Igreja Sinodal é a escuta. Não se trata de escutar o outro simplesmente. Trata-se de escutar à luz da Palavra de Deus. Para escutar precisamos ter o “ouvido” do nosso coração purificado pela Palavra de Deus. Recordava da importância da Leitura Orante da Palavra de Deus. No entanto, para o contato com a Palavra, esta é apenas um instrumento. Os caminhos da missão devem ser iluminados primeiramente e antes de tudo pela Palavra. Que cada um possa refletir sobre o que está fazendo para educar o “ouvido” do coração à escuta da Palavra.

É preciso, sim, ter formação bíblica!  Tivemos dois anos de Escola Diocesana de Formação tratando da importância das Escrituras. Você participou? Há quase duas décadas temos a Escola da Palavra que teve início e continua a existir na Forania Aparecida e com tantas outras modalidades está presente nas outras foranias. Você já participou? A Escola Diocesana de Ministérios, no seu currículo, oferece também em sua grade o estudo dos vários livros das Escrituras. A formação da Escola Diocesana de Catequese, na formação dos catequistas tem ensinado a centralidade da Palavra como “material primeiro” de cada encontro catequético. A formação ajuda as lideranças das comunidades a formar equipes litúrgicas e de celebração mais enraizadas na Palavra. Ajuda também a preparar melhor os coordenadores de grupos de rua e reflexão, pois todos os nossos encontros devem partir da Palavra.

Apesar de já ter tocado no assunto anteriormente, mas vale recordar como a Leitura Orante da Palavra ajuda a interpretar a própria história à luz da fé e a discernir os caminhos da missão. Para tanto é preciso recolocar a centralidade da Palavra na vida da comunidade, não somente na preparação das celebrações mas, de modo especial, nas reuniões de decisões da comunidade. Você cultiva a Leitura Orante pessoal? Participa de momentos de Leitura Orante em sua comunidade? Celebra a Palavra?

Evidentemente não temos em nossa diocese todos os instrumentos para a formação no entendimento, escuta e oração com a Palavra de Deus. Que cada irmão e irmã veja o que está presente em sua comunidade e o que não está. Veja se estas formações diocesanas e os subsídios da Leitura Orante Palavra de Deus são divulgados em sua comunidade. Analise se existe uma formação centrada na Palavra de Deus para as equipes de liturgia e de celebração, ou se apenas se reúnem (quando não combinam somente por Whatsapp) para distribuírem tarefas. Os agentes de pastoral, de modo especial os das Pastorais Sociais, cuja ação pastoral tem como destinatário na maioria das vezes, os afastados e excluídos têm buscado formação bíblica e este contato orante com as Escrituras? Os pobres e excluídos têm, antes de qualquer coisa, o direito de receberem o anúncio da Palavra de Deus? Não somos simplesmente assistentes sociais ou uma ONG

A Palavra precisa ser anunciada. Em sua comunidade, por exemplo, existe o Ministério da Visitação que leva o anúncio da Palavra nas famílias, visitando-as periodicamente? Há uma preocupação em anunciar Jesus Cristo aos afastados?

Estamos em tempo de escuta para a implementação do Sínodo em nossa diocese. Caso tenha uma sugestão de como poderíamos melhorar a formação com subsídios e outros instrumentos, faça a caridade de se manifestar.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

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Artigos Editorial

Celebremos o mês mariano, exaltando a intercessão e modelo de Maria como serva e mãe da Igreja

Caríssimos irmãos e irmãs, com imensa alegria, saudamos todas as mulheres com o dom da maternidade biológica, outras com o dom de adoção por coração em muitos aspectos na sociedade, e manifestamos a gratidão a Deus por sua existência, de modo especial na vida Igreja através da ação evangelizadora e testemunho de fé.

Nesta edição exaltamos a intercessão e o exemplo de Nossa Senhora para continuar a implantação do Sínodo dos Bispos na Igreja particular de Guarulhos com o artigo de Dom Edmilson que de maneira provocativa elenca inúmeros questionamentos sobre a busca do conhecimento da Palavra de Deus na vida pessoal e comunitária dos cristãos. Vale a pena você ler e deixar-se provocar para bem viver as propostas do Sínodo.

Com a intercessão da Virgem Maria, também contaram os bispos que compõe a Conferência Nacional dos Bispos no Brasil e as diversas equipes que organizaram e acompanharam os trabalhos ao longo de todo período da 62ª Assembleia em Aparecida. O mundo estava com o olhar voltado para o Santuário Nacional de Aparecida todos os dias, de modo especial através das mídias católicas, em cada momento litúrgico e de espiritualidade, entrevistas e debates, transmitidos com muita eficiência e qualidade. A triste realidade, é ver que as “grandes” mídias não se interessam por realizar a cobertura da Assembleia, ao menos que em algum momento exista algo polêmico e escandaloso. É lamentável ver que noticia é o que não dá certo e não aquilo que dá certo e tornará melhor o mundo.

A Igreja como mãe não desiste dos seus filhos e filhas e continuará a promover assembleias que possam direcionar o pensar, o falar e o agir das pessoas no mundo através de diretrizes. Cada cristão deve a partir do lançamento das Diretrizes Gerais da Acão Evangelizadora da Igreja no Brasil, adquirir, conhecer profundamente e propagar nos diversos grupos de convivência dentro e fora da Igreja. Ninguém pode ficar indiferente as propostas das Diretrizes, afinal somos uma Igreja Sinodal, promotora da comunhão, participação e missão. Em Guarulhos, a intercessão mariana é permanentemente alimentada nas casas de formação para sacerdotes por isso todos os anos no mês de maio é celebrada a Festa de Nossa Senhora das Vocações com a finalidade de rezar pelo aumento das vocações e agradecer a Deus e a Virgem Maria pelos que disseram sim ao chamado, aos que deram um passo a mais neste sim recebendo ministérios e pelos que sustentam a estrutura de acolhida vocacional, desde e equipe de formação aos colaboradores diretos e indiretos dos seminários.

Graças ao testemunho de confiança na providência divina e intercessão de Maria, o clero de Guarulhos não para de aumentar com novas ordenações, como acontecerá mais uma vez no dia trinta de maio. Podemos com certeza declarar: “Minha alma exalta o Senhor, meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva. Eis que, de agora em diante, todas as gerações me considerarão feliz, pois o Todo-poderoso fez grandes coisas por mim. Seu nome é santo e sua misericórdia perdura de geração em geração para aqueles que o temem. Ele agiu com a força de seu braço. Dispersou os arrogantes de coração. Derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes.” (Lc 1, 46-52).

Nesta edição acompanhamos na integra a primeira mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais na busca de orientar a inteligência artificial para servir à essência humana, e não substituí-la. Essa é a missão permanente da Pastoral da Comunicação que reunidas nas diversas formas de celebração e encontro renovam e fortalecem essa missão.

Parabenizo e agradeço a todos os “pasconeiros”  e “pasconeiras” pelo trabalho realizado de maneira voluntária nas dioceses e que muitas vezes são os que menos aparecem e os que mais vezes são cobrados quando o outro não aparece em suas coberturas.

Continuem fazendo tudo com zelo e servidão pôr amor a Deus e ao próximo, aguardando a recompensa da vida eterna e à exemplo de Nossa Senhora da Comunicação,  serva por amor.

Boa leitura e não esqueça de compartilhar!

 

Pe. Marcos Vinicius Clementino

Jornalista e Diretor Geral

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Artigos Enfoque Pastoral

Uma Igreja que existe para anunciar: voltar ao essencial

Há momentos na vida da Igreja em que é preciso parar e perguntar: afinal, para que existimos? Não para manter estruturas, nem apenas para organizar atividades, mas para algo muito mais profundo e decisivo: anunciar Jesus Cristo.

As novas Diretrizes recordam isso logo no início: a missão recebida de Jesus é clara — “Proclamai o Evangelho” (Mc 16,15). Não é uma opção entre tantas. É a identidade da Igreja. Tudo o que somos e fazemos precisa nascer dessa fonte. Quando isso se perde, a pastoral se torna pesada, repetitiva e sem força transformadora.

Mas há um detalhe importante que o texto nos ajuda a perceber: evangelizar não é apenas falar de Deus. É testemunhar a misericórdia que recebemos. Antes de anunciar, a Igreja experimenta. Antes de ensinar, ela acolhe. Isso muda tudo. O anúncio deixa de ser teoria e passa a ser vida compartilhada.

Outro ponto decisivo é este: Jesus Cristo não é apenas o conteúdo da evangelização — Ele é o próprio Evangelho. Isso significa que evangelizar não é transmitir uma mensagem distante, mas tornar presente uma pessoa viva. Jesus continua a caminhar, a falar, a curar, a acolher — agora através da Igreja.

E como Ele evangeliza? As Diretrizes são muito concretas: com palavras e gestos. Ele anuncia o Reino, mas também se aproxima, serve, toca as feridas, busca quem está perdido. Não exclui ninguém. Vai ao encontro de todos. Esse estilo não é secundário — é o próprio caminho da Igreja hoje.

Por isso, as Diretrizes insistem: não basta repetir métodos antigos. Estamos diante de uma mudança de época. O mundo mudou, as perguntas mudaram, e a forma de anunciar também precisa ser renovada. Mas sem perder o essencial: o centro continua sendo Jesus.

Há ainda um chamado forte à conversão. Não apenas pessoal, mas também das relações, dos processos e dos vínculos. Em outras palavras: não basta querer evangelizar, é preciso mudar o modo de ser Igreja. Torná-la mais aberta, mais acolhedora, mais próxima, mais sinodal.

A imagem da “tenda” ajuda a entender isso. Uma Igreja que não é fechada, mas que se alarga. Que escuta mais. Que acolhe melhor. Que permanece firme na fé, mas com as portas abertas para todos.

No fundo, a Introdução das Diretrizes nos coloca diante de uma pergunta simples e exigente: estamos realmente anunciando Jesus ou apenas mantendo a Igreja funcionando?

Se voltarmos ao essencial, tudo se reorganiza. A fé ganha vida. As comunidades se tornam mais missionárias. E a Igreja volta a ser aquilo que sempre foi chamada a ser: sinal vivo do amor de Deus no mundo.

 

Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo Metropolitano de Santa Maria (RS)
Presidente da Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB

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Artigos Vocação e Seminário

Sob a intercessão de Nossa Senhora das Vocações

O mês de maio é tradicionalmente relacionado com a figura da Virgem Maria. Em nossa Diocese – de modo especial em nosso Seminário – a presença de Nossa Senhora se manifesta mais profundamente com o título de Mãe das Vocações. As Casas Formativas em Guarulhos possuem uma grande devoção a essa invocação mariana, pois dela se providenciou muitas e santas vocações para as comunidades em Guarulhos.

Dirigir-se a Nossa Senhora das Vocações é confiar à Mãe de Deus o pedido que o próprio Jesus nos fez nas páginas dos Evangelhos: “Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie operários para sua messe” (Mt 9,38). Depositar, então, essa intenção à Virgem Maria é não somente confiar que Deus continuará a chamar operários, como também é crer que jovens responderão ao chamado de Deus.

Estar sobre essa intercessão de Nossa Senhora das Vocação é ter a certeza de que Deus não vai desamparar o seu povo sobre essa expressa necessidade. E a própria história da Mãe das Vocações em Guarulhos revela que o Senhor da messe não deixa de enviar muitas e santas vocações para as nossas comunidades. Mas, para isso, é necessário a oração e a esperança!

Possamos, portanto, rezar pela intercessão de Nossa Senhora para que os corações de nossos irmãos estejam alicerçados na confiança de um Deus que nos chama e, quem responder esse chamado, realizando em si o fiat mariano, possa realizar o projeto do Senhor em sua vida. E que tenhamos a esperança para tantos jovens possam responder o chamado de Deus e, assim, igualmente a Virgem Maria, serem testemunhas da verdade do Senhor.

 

Padre Edson Vitor

Reitor do Seminário Propedêutico Santo Antônio

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Artigos Falando da Vida

Mãe, esse ser imperfeito

Como curar as feridas e os traumas do passado?


 

Por que a maioria dos problemas psicológicos trabalhados nas sessões de psicoterapia, tem como foco principal o relacionamento com os pais, sobretudo a figura materna? Falta de carinho, repressão, negligência, são geralmente apontados como fatores causais dos transtornos psicológicos.  Será que a mãe é tão culpada assim, ou será que culpar a mãe não passa de uma justificativa para os fracassos pessoais? Não seria mais eficiente se tomássemos posse da nossa liberdade e fizéssemos uso da nossa capacidade de construir nosso destino e sermos responsáveis pela nossa própria história?

A culpabilização da figura materna deve-se muitas vezes ao fato de que a mãe, ou quem assume esse papel, é frequentemente o primeiro espelho de um ser humano. É o modelo primordial da vida do bebê desde o nascimento, é nela e com ela que a criança experimenta os primeiros prazeres e desprazeres da vida. Segundo Melanie Klein, psicanalista freudiana e autora de diversos livros sobre Psicologia infantil, a relação mãe-bebê é o alicerce da estrutura psíquica. Através da amamentação a criança adquire um vínculo de satisfação e ao mesmo tempo de frustração.

O seio materno passa a ocupar um lugar central da vida do bebê à medida em que ele percebe que sem tão precioso objeto, não há vida, não há prazer, nem cuidado. Segundo a autora é nesse contexto que surgem as primeiras manifestações de amor e ódio que vão moldar a personalidade do indivíduo. Mas é exagero afirmar que todas as mazelas psíquicas que acontecem na vida é culpa da mãe. Existem muitos casos de pessoas que foram negligenciadas pelos pais na infância, mas se tornaram exemplos de superação, como Steve Jobs, fundador da Apple, que foi rejeitado pela mãe biológica e entregue para adoção.

A melhor atitude para quem teve uma infância sofrida e desafiadora, marcada por ausência de apego materno, é acreditar que a vida é um dom e que você não nasceu por acaso. Todos, temos um propósito e se você não encontrou o seu, deve procurá-lo exaustivamente; em alguns casos, é necessário fazer psicoterapia. O fato é que precisamos aceitar nossas feridas do passado, reconhecendo o quanto ela dói, mas ao mesmo tempo tratá-las com bondade e autocompaixão. Talvez, o melhor presente que possamos dar às mães e a nós mesmos, seja o perdão autêntico que nasce do entendimento maduro de que a perfeição não existe, pois todos nós somos imperfeitos, incluindo você e sua mãe.

 

Romildo R. Almeida

Psicólogo clínico

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Artigos CNBB Liturgia

Mensagem do Papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais

Preservar vozes e rostos humanos

Queridos irmãos e irmãs!

O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro. Os antigos sabiam-no bem. Para definir o ser humano, os gregos usavam a palavra “rosto” (prósopon), que etimologicamente indica o que está diante do olhar, o lugar da presença e da relação. Por sua vez, o termo latino persona (de per-sonare) inclui o som: não um som qualquer, mas a voz inconfundível de alguém.

Rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu. Uma Palavra que, ao longo dos séculos, ressoou na voz dos profetas e depois, na plenitude dos tempos, fez-se carne. Esta Palavra – esta comunicação que Deus faz de si mesmo – pudemos ainda escutá-la e vê-la diretamente (cf. 1 Jo 1, 1-3), porque se deixou conhecer na voz e no Rosto de Jesus, Filho de Deus.

Desde o momento da criação, Deus quis o ser humano como seu interlocutor e, como disse São Gregório de Nissa, [1] imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros.

A tecnologia digital, no caso de falharmos nesta preservação, corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas.

O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinónimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos.

Não renunciar ao próprio pensamento

Há muito tempo que existem múltiplas evidências de que os algoritmos concebidos para maximizar o envolvimento nas redes sociais – rentável para as plataformas – recompensam as emoções rápidas e, ao contrário, penalizam as expressões humanas que requerem mais tempo, como o esforço para compreender e a reflexão. Ao encerrar grupos de pessoas em bolhas de fácil consenso e indignação, estes algoritmos enfraquecem a capacidade de escuta e pensamento crítico, aumentando a polarização social.

Veio somar-se a isto uma confiança ingenuamente acrítica na inteligência artificial como “amiga” omnisciente, dispensadora de todas as informações, arquivo de todas as memórias, “oráculo” de todos os conselhos. Tudo isto pode enfraquecer ulteriormente a nossa capacidade de pensar de forma analítica e criativa, de compreender significados, de distinguir entre sintaxe e semântica.

Embora a IA possa dar apoio e assistência na gestão de tarefas comunicativas, ao abstermo-nos do esforço do próprio pensamento, contentando-nos com uma compilação estatística artificial, corremos o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas.

Nos últimos anos, os sistemas de inteligência artificial estão a assumir cada vez mais o controlo da produção de textos, música e vídeos. Grande parte da indústria criativa humana corre o risco de ser destruída e substituída pela etiqueta “Powered by AI”, transformando as pessoas em meros consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anónimos, sem autoria nem amor. Ao mesmo tempo, as obras-primas do génio humano no âmbito da música, da arte e da literatura vão sendo reduzidas a um mero campo de treino para as máquinas.

No entanto, a questão que realmente nos interessa não é o que a máquina consegue ou conseguirá fazer, mas o que nós podemos e poderíamos fazer, crescendo em humanidade e conhecimento, com uma inteligente utilização de ferramentas tão poderosas ao nosso serviço. Desde sempre, o ser humano tem sido tentado a apropriar-se do fruto do conhecimento sem o esforço do envolvimento, da pesquisa e da responsabilidade pessoal. Contudo, renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz.

Ser ou fingir: simulação de relações e da realidade

À medida que navegamos pelos nossos fluxos de informação (feeds), torna-se cada vez mais difícil compreender se estamos a interagir com outros seres humanos ou com “bots” ou influenciadores virtuais. As intervenções não transparentes destes agentes automatizados influenciam os debates públicos e as escolhas das pessoas. Especialmente os chatbots, baseados em grandes modelos linguísticos (LLM), estão a revelar-se surpreendentemente eficazes na persuasão oculta, através de uma contínua otimização da interação personalizada. A estrutura dialógica e adaptativa, mimética, destes modelos linguísticos é capaz de imitar os sentimentos humanos e, assim, simular uma relação. Esta antropomorfização, que pode até ser divertida, é ao mesmo tempo enganadora, especialmente para as pessoas mais vulneráveis. Porque os chatbots tornados excessivamente “afetuosos”, além de estarem sempre presentes e disponíveis, podem tornar-se arquitetos ocultos dos nossos estados emocionais e, desta forma, invadir e ocupar a esfera da intimidade das pessoas.

A tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamento pode não só ter consequências dolorosas para o destino dos indivíduos, mas também prejudicar o tecido social, cultural e político das sociedades. Isso acontece quando substituímos as relações com os outros pelas relações com a IA treinada para catalogar os nossos pensamentos e, portanto, construir à nossa volta um mundo de espelhos, onde tudo é feito “à nossa imagem e semelhança”. Desta forma, deixamo-nos roubar a possibilidade de encontrar o outro, que é sempre diferente de nós e com o qual podemos e devemos aprender a confrontar-nos. Sem aceitar a alteridade, não pode haver nem relação nem amizade.

Outro grande desafio que estes sistemas emergentes colocam é o da distorção (bias, em inglês), que leva a adquirir e transmitir uma perceção alterada da realidade. Os modelos de IA estão moldados pela visão do mundo de quem os constrói e podem, por sua vez, impor modos de pensar, replicando estereótipos e preconceitos presentes nos dados a que acedem. A falta de transparência na construção dos algoritmos, a par da inadequada representação social dos dados tendem a manter-nos presos em redes que manipulam os nossos pensamentos, perpetuando e aprofundando as desigualdades e injustiças sociais existentes.

O risco é grande! O poder da simulação é tal que a IA pode também iludir-nos com a construção de “realidades” paralelas, apropriando-se dos nossos rostos e das nossas vozes. Estamos imersos numa multidimensionalidade, onde se torna cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção.

A isto acrescenta-se o problema da falta de precisão. Os sistemas que apresentam como conhecimento uma probabilidade estatística, na realidade, oferecem-nos, quando muito, aproximações da verdade, que por vezes são verdadeiras “alucinações”. A falta de verificação das fontes, com a crise do jornalismo no terreno, que implica um trabalho contínuo de recolha e verificação de informações nos locais onde os eventos ocorrem, pode favorecer um solo ainda mais fértil para a desinformação, provocando uma crescente sensação de desconfiança, desorientação e insegurança.

Uma possível aliança

Por trás desta enorme força invisível que a todos envolve, está apenas um pequeno grupo de empresas, cujos fundadores foram recentemente apresentados como os criadores da “pessoa do ano de 2025”, ou seja, os arquitetos da inteligência artificial. Isto suscita uma preocupação importante em relação ao controlo oligopolístico dos sistemas algorítmicos e de inteligência artificial capazes de orientar subtilmente os comportamentos e até mesmo de reescrever a história da humanidade – incluindo a história da Igreja –, muitas vezes sem que possamos ter real consciência disso.

O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas.

Esta aliança é possível, mas tem de se basear em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.

Em primeiro lugar, a responsabilidade. Ela pode ser definida, consoante as funções, como honestidade, transparência, coragem, visão, dever de partilhar conhecimento, direito de ser informado. Porém, em geral, ninguém pode fugir à sua responsabilidade diante do futuro que estamos a construir.

Para quem está no comando das plataformas on-line, isso significa garantir que as próprias estratégias empresariais não sejam norteadas pelo exclusivo critério da maximização do lucro, mas por uma visão clarividente que tenha em conta o bem comum, da mesma forma que cada um deles se preocupa com o bem-estar dos seus filhos.

Aos criadores e desenvolvedores de modelos de IA, é exigida transparência e responsabilidade social em relação aos princípios de criação de projetos e aos sistemas de moderação que estão na base dos seus algoritmos e dos modelos desenvolvidos, de modo a permitir um consentimento esclarecido aos utilizadores.

Igual responsabilidade é pedida aos legisladores nacionais e reguladores supranacionais, que têm a função de zelar pelo respeito da dignidade humana. Uma adequada regulamentação pode proteger as pessoas duma ligação afetiva com os chatbots e conter a disseminação de conteúdos falsos, manipuladores ou deturpados, preservando a integridade da informação face à sua simulação enganosa.

Por sua vez, as empresas dos mass media e da comunicação não podem permitir que algoritmos orientados para vencer a qualquer custo a batalha por alguns segundos de atenção a mais prevaleçam sobre a fidelidade aos seus valores profissionais, voltados para a busca da verdade. A confiança do público conquista-se com a precisão e a transparência, não com a corrida por uma participação qualquer. Os conteúdos gerados ou manipulados pela IA devem ser sinalizados e claramente distinguidos dos conteúdos criados por pessoas. A autoria e a propriedade soberana do trabalho dos jornalistas e outros criadores de conteúdo devem ser protegidas. A informação é um bem público. Um serviço público construtivo e significativo não se baseia na opacidade, mas na transparência das fontes, na inclusão dos sujeitos envolvidos e num elevado padrão de qualidade.

Todos somos chamados a cooperar. Nenhum setor pode enfrentar sozinho o desafio de liderar a inovação digital e governar a IA. Por isso, é necessário criar mecanismos de salvaguarda. Todas as partes interessadas – desde a indústria tecnológica aos legisladores, das empresas de criação ao mundo académico, dos artistas aos jornalistas e educadores – devem estar envolvidas na construção e na efetivação de uma cidadania digital consciente e responsável.

O objetivo da educação é este: aumentar as nossas capacidades pessoais de refletir criticamente, avaliar a credibilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da seleção das informações que nos chegam, compreender os mecanismos psicológicos que elas ativam, permitir às nossas famílias, comunidades e associações a elaboração de critérios práticos para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável.

Precisamente por isso, cada vez mais, é urgente introduzir também, em todos os níveis dos sistemas educativos, a literacia para os meios de comunicação social, a informação e a IA, que algumas instituições civis já estão a promover. Como católicos, podemos e devemos dar o nosso contributo, para que as pessoas – especialmente os jovens – adquiram a capacidade de pensamento crítico e cresçam na liberdade do espírito. Esta literacia deveria ainda ser integrada em iniciativas mais amplas de educação permanente, alcançando igualmente os idosos e os membros marginalizados da sociedade, que muitas vezes se sentem excluídos e impotentes perante as rápidas mudanças tecnológicas.

A literacia para os meios de comunicação, a informação e a IA ajudará todos a não se adaptarem à tendência de antropomorfização destes sistemas, mas a tratá-los como ferramentas, a recorrer sempre a uma validação externa das fontes – que podem ser imprecisas ou erradas – fornecidas pelos sistemas de IA, a proteger a própria privacidade e os próprios dados, conhecendo os parâmetros de segurança e as opções de reclamação. É importante educar e educar-se para utilizar a IA de forma intencional e, neste contexto, proteger a própria imagem (fotos e áudio), o próprio rosto e a própria voz, para evitar que sejam utilizados na criação de conteúdos e comportamentos prejudiciais, como fraudes digitais, ciberbullying, deepfake, que violam a privacidade e a intimidade das pessoas sem o seu consentimento. Assim como a revolução industrial exigiu uma alfabetização mínima para permitir que as pessoas reagissem às novidades, também a revolução digital exige uma literacia digital (com uma formação humanística e cultural) para compreender como os algoritmos moldam a nossa perceção da realidade, como funcionam os preconceitos da IA, quais são os mecanismos que determinam o aparecimento de determinados conteúdos nos nossos fluxos de informação (feeds), quais são e como podem mudar os pressupostos e modelos económicos da economia da IA.

É necessário que o rosto e a voz voltem a dizer a pessoa. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica.

Ao propor estas reflexões, agradeço a todos aqueles que estão a trabalhar para os objetivos aqui apresentados e, de coração, abençoo quantos trabalham para o bem comum através dos meios de comunicação.

Vaticano, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2026.

LEÃO XIV PP.

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Estamos vivendo a implementação do Sínodo dos Bispos (2021-2024) – Parte 2

Pode-se dizer que o elemento básico para a vivência de “Por um Igreja Sinodal  – Comunhão, Participação, Missão” é a ESCUTA. Foi assim que o Papa Francisco deu o “ponta pé inicial” lá em 2021, quando na fase diocesana determinou que as pessoas das comunidades, de outras comunidades cristãs e da sociedade fossem escutadas. Os capítulo II do Documento Final ao tratar da “conversão das relações” esclarece a necessidade de que todos, na variedade de carismas e ministérios existentes em nossas comunidades, como também as mais variadas situações de nosso mundo sejam escutadas. O Espírito Santo não deixa de falar em tudo e em todos. Nos processos da caminhada sinodal, para que se obtenha um verdadeiro discernimento eclesial, é preciso a ESCUTA. O Documento Final no capítulo III fala para tanto, da necessidade da conversão dos processos.

Será que na “conversão das relações”, bem como na “conversão dos processos” basta ter a paciência de ouvir os outros e a realidade e seguir um “método”?  Será suficiente um novo modo de proceder e a estratégia? É verdade,  o Espírito fala pela boca de nossos irmãos e irmãs de comunidade, bem como através da história e dos sinais do tempo. Basta a nossa inteligência para enxergar retamente todas estas coisas?

Não. Todas estas conversões necessitam de uma ESCUTA PRIMORDIAL, A ESCUTA DA PALAVRA DE DEUS.

A escuta da Palavra de Deus é o ponto de partida e o critério de todo o discernimento eclesial. De fato, as Sagradas Escrituras testemunham que Deus falou ao seu Povo, a ponto de nos dar, em Jesus, a plenitude de toda a Revelação (cf. DV 2), e indicam os lugares onde podemos ouvir a sua voz”  (Documento Final 83).

A própria compreensão da vivência “Por uma Igreja Sinodal” tem que ser iluminada pela Palavra de Deus. A escuta e iluminação da Palavra em nossas vidas nos leva à oração. Orar é entrar em comunhão com Deus e dispor-se a realizar a vontade de Deus. É adorar o Pai em espírito e verdade (cf. Jo 4,23).

Nenhum processo sinodal pode ter início sem a Leitura Orante da Palavra de Deus. Já temos mais de 10 anos que estamos tentando implantar esta prática na diocese de Guarulhos. Vários irmãos e irmãs têm experimentado a doçura deste encontro com a Palavra. Infelizmente, outros tantos irmãos desanimaram no caminho, outros sequer ousaram tentar começar. Temos uma equipe incansável e dedicada que todos os anos seguindo as temáticas que determino, rezam, estudam e se dedicam em preparar este “pão” da Palavra para os grupos de reflexão.

Neste ano a temática da Leitura Orante trata exatamente dos fundamentos bíblicos da espiritualidade sinodal. No mês de março a Equipe diocesana da Leitura Orante, encontrou-se com a coordenação dos grupos que estão fazendo esta caminhada para a motivação dos encontros.

A devoção e piedade popular que motivam as reuniões de nossos grupos de reflexão, são de grande importância. No entanto, mais importante é contato orante com a Palavra de Deus. Sem a Palavra de Deus nossa devoção e piedade correm o risco de ficarem vazias, desencarnadas da fé e missão da Igreja e, em alguns casos, podem ser alienantes.

A diocese está oferecendo este material. Aproveite. Deixe-se iluminar primeiramente pela Palavra de Deus nesta nossa caminhada sinodal.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo diocesano

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Com a Páscoa, renovamos a missão de sermos portadores da esperança em nome do ressuscitado

Caríssimos irmãos e irmãs, feliz páscoa e que juntos possamos cantar o salmo 117(116): “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos!

Daí graças ao Senhor, porque ele é bom. A mão direita do Senhor fez maravilhas, a mão direita do Senhor me levantou. Não morrerei, mas ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor!” O caminho percorrido até o domingo de Páscoa é longo e repleto de penitência, mas vale a pena, pois o resultado final é uma explosão de alegria e renovação da esperança de novos tempos reunidos em torno de Jesus Cristo, o ressuscitado. Nesta edição é possível perceber a esperança renovada em cada artigo.

O bispo Dom Edmilson, recorda os passos do processo sinodal e destaca a importância da Leitura Orante da Palavra de Deus como base fundamental para sustentar a caminhada de fé em torno dos ensinamentos da Sagrada Escritura e ao mesmo tempo , o bispo demonstra sua preocupação com as pessoas e grupos que resistem para fazer a experiência, porém afirma que não desistirá do projeto e se alegra com os que abraçaram a proposta com alegria e fortalecimento espiritual como testemunharam no encontro realizado pela equipe diocesana nas diversas foranias. A esperança se renova também com a realização da 62ª Assembleia Geral dos Bispos em vista da aprovação das próximas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil adiada em 2025, por ocasião da morte do Papa Francisco, um verdadeiro peregrino da esperança que passou por nossa história e agitou a Igreja Católica Apostólica Romana e porque não dizer, agitou o mundo através das convocações de anos específicos e o Sínodo dos Bispos.

A Diocese de Guarulhos também renova suas expectativas de atendimento aos mais necessitados e assistência espiritual, através da ordenação de mais três diáconos permanentes e mais um rito de admissão as ordens sacras de candidatos em vista do diaconado. Esperança notável na alegria e emoção de Dom Edmilson nas celebrações de instituição. Deus seja louvado pela diversidade do ministério na Igreja.

A festa da esperança em cada sim ao ressuscitado continua com o convite para a ordenação de mais cinco novos diáconos transitórios e tenho certeza será uma manhã de muita alegria e emoção para toda a Igreja. Uma pena que mesmo diante de tantas notícias maravilhosas de esperança, muitos ainda resistem a crer que é possível criar um mundo novo aqui e agora, por isso continuam investindo em guerra e sofrimento como recorda o psicólogo Romildo em seu artigo.

Enfim, não podemos desistir nem desanimar afinal nos diz o texto bíblico da Primeira Carta de São Pedro 1,3-9 proclamada no domingo da Divina Misericórdia: “Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, que não se mancha nem murcha e que é reservada para vós nos céus.

Graças à fé e pelo poder de Deus, vós fostes guardados para a salvação que deve manifestar-se nos últimos tempos. Isso é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que agora fiqueis por algum tempo aflitos por causa das várias provações. Desse modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira e alcançará louvor, honra e glória no dia da manifestação de Jesus Cristo. Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação.”

Desejo que os artigos contribuam para fortalecer sua esperança renovada na semana santa. Não esqueça de ler, tomar posse do que lê, compartilhar a revista com os outros grupos e colaborar com sugestões, elogios e críticas construtivas com esse maravilhoso instrumento de unidade e boas notícias da Igreja, promovido pela Pastoral da Comunicação, que aliás realizará um dia de Mutirão de Formação sobre Comunicação Cristã para melhor servir a Igreja de Jesus Cristo.

Quem sabe você se interessa em fazer parte deste Mutirão. Encerro com a saudação franciscana: paz e bem! Boa leitura.

 

Pe. Marcos Vinicius Clementino

Jornalista e Diretor Geral

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Artigos Falando da Vida

Páscoa, esperança de paz!

Quando os homens de “boa vontade” se entenderão?


 

A Páscoa nos remete a uma memória afetiva de festa e alegria. Toda família por mais pobre que seja tem um almoço especial e as crianças ganham ovos de chocolate simbolizando o renascimento e a doçura da ressurreição de Cristo. Mas, este ano estamos vivendo um clima de guerra, devido ao conflito entre Estados Unidos/Israel e Irã. É triste ligar a TV e ver cenas de bombas explodindo e mães chorando a perda dos seus filhos enquanto os homens de “boa vontade” de terno e gravata discutem, em salas climatizadas e confortáveis, o destino das pessoas.

As ações dos Estados Unidos pelo mundo lembram muito a “Pax romana” que foi um período de paz que durou 200 anos a partir de 27 a. C. Aquele período de paz era imposto pelo poderoso império romano que, pela força e supremacia dos seus exércitos, abafavam qualquer tentativa de revolta dos povos. Se antes, a justificativa era levar a civilização aos bárbaros, hoje, é combater o suposto eixo do mal. Antigamente os romanos abriam estradas para facilitar o deslocamento dos seus exércitos, hoje, os Estados Unidos espalham suas bases militares pelo globo e impõem o controle financeiro internacional.

Se compararmos as guerras atuais com as guerras romanas, vem a seguinte questão: faz sentido invadir uma nação e matar inocentes como medida preventiva para promover a paz? A resposta é não; a história tem demonstrado que nenhuma paz baseada na força é eterna, porque a supremacia de um povo também não é. O poderoso império romano teve o seu declínio possibilitando o surgimento de um outro sistema de nações tal como conhecemos hoje. A verdadeira paz é frequentemente definida não apenas como a ausência de guerra, mas como a presença de justiça social e equidade.

O Papa Francisco, poucos dias antes de sua morte, alertou o mundo em sua mensagem de Páscoa: “A paz não se constrói com armas, a ideia de paz armada é uma ilusão perigosa, pois o uso de armas gera novos ciclos de violência. A verdadeira segurança não vem dos arsenais, mas da confiança mútua. ” A mensagem de Francisco encontra eco na Psicologia Cognitiva que afirma que o diálogo humaniza o “inimigo”, pois quando sentamos a mesma mesa para conversar, o outro deixa de ser um alvo e se torna um irmão. Enquanto essa paz não vem, resta-nos sentar à mesa no domingo de Páscoa com a esperança de que as coisas façam sentido, mesmo quando estão difíceis. Feliz Páscoa a todos.

 

Romildo R. Almeida

Psicólogo clínico

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CNBB realiza sua 62ª Assembleia Geral, em Aparecida (SP) a partir do dia 15 de abril

Nesta semana, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) inicia sua 62ª Assembleia Geral. De 15 a 24 de abril, os bispos de todo o Brasil estarão reunidos no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP), para dias de convivência, oração e definições importantes para a missão da Igreja Católica no país.

Órgão supremo da CNBB, a Assembleia Geral é “a expressão e a realização maior do afeto do colegial, da comunhão e da corresponsabilidade dos Bispos da Igreja no Brasil”. O Estatuto da CNBB estabelece que este órgão tem a finalidade de realizar os “objetivos da CNBB, para o bem do povo de Deus”. Nesse encontro, são tratados assuntos pastorais relacionados à missão da Igreja e aos problemas das pessoas e da sociedade, sempre na perspectiva da evangelização.

Tema Central

O tema central desta assembleia é a aprovação das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Após um processo de atualização adiado para receber as contribuições do Sínodo sobre a Sinodalidade, o texto com os acréscimos e contribuições recebidos também das dioceses, pastorais e organismos chega ao conjunto do episcopado para ser votado e aprovado.

As diretrizes formam o documento que direciona e orienta a missão da Igreja de evangelizar. Elas auxiliam as dioceses de todo o país na sua atuação pastoral a partir do discernimento da realidade e oferece propostas para iluminar a vida eclesial e a sociedade a partir dos valores do Evangelho.

Além do tema central, os bispos também vão tratar de três temas prioritários, 20 temais diversos, 4 mensagens e 10 comunicações. O encontro dos bispos também conta com um retiro espiritual, que acontece nos primeiros dias de assembleia.

Entre os temas prioritários está o relatório da Presidência da CNBB, e entre os temas diversos as análises de conjuntura social e eclesial; o processo de implantação do Sínodo sobre a Sinodalidade no Brasil; aprovações de textos litúrgicos; as Campanhas da CNBB; a Tutela de Menores e adultos vulneráveis; o Congresso Americano Missionário (CAM 7), marcado para 2029; o Bicentenário das Relações Diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé; a atualização do Documento “Evangelização da Juventude” (Doc. 85 CNBB); e o 19º Congresso Eucarístico Nacional, marcado para 2027.

Programação

A programação diária dos bispos tem início às 8h, com a oração das Laudes, no Centro de Eventos Padre Vitor Coelho de Almeida. A primeira das quatro sessões diárias começará às 8h30 e a segunda às 11h. Já às 10h30, bispos definidos pela Presidência concedem entrevista coletiva à imprensa, com transmissão pelas redes sociais da CNBB.
À tarde, as sessões retornam às 15h, com a oração da Hora Média. Às 18h, os bispos celebram a Eucaristia com a oração das Vésperas, no altar central da basílica de Aparecida.

Nos primeiros dias, os bispos vivenciarão um retiro espiritual, com início na tarde do dia 15 de abril e conclusão com a Eucaristia, na noite de quinta-feira. Antes da celebração, prevista para 18h, os bispos rezarão o terço durante procissão do Centro de Eventos até a Basílica do Santuário Nacional.

No sábado e no domingo, as missas serão pela manhã: no dia 18, às 7h, e no dia 19, às 8h.

Quem participa

São convocados para a Assembleia Geral da CNBB os membros da Conferência: cardeais, arcebispos, bispos diocesanos, auxiliares e coadjutores. Os bispos eméritos, administradores diocesanos e representantes de organismos e pastorais da Igreja são convidados.

A Igreja Católica no Brasil possui 281 circunscrições eclesiásticas. O número de bispos no país é de 497, dos quais 324 estão no exercício do governo pastoral de alguma diocese/arquidiocese e outros 173 são bispos eméritos. Destes, 373 estão inscritos na 62ª Assembleia Geral da CNBB.

Para acompanhar

Será possível acompanhar o encontro dos bispos pelos meios de comunicação da CNBB e pelas emissoras de rádio e de TV de inspiração católica. A sessão de abertura, as coletivas de imprensa e as missas serão transmitidas ao vivo, tanto no canal da CNBB no Youtube, quanto nas emissoras de TV.

A Assessoria de Comunicação da CNBB vai levar ao público vários conteúdos especiais na cobertura da Assembleia Geral, tanto para o Portal da CNBB, quanto para as redes sociais e para os veículos de comunicação católicos. Confira abaixo a programação:

  • Live sobre a pauta do dia – 7h45
  • CNBB Confere – 9h
  • Coletiva de imprensa – 10h30
  • Podcast – 11h45
  • Boletim de Rádio para emissoras de inspiração católica- 17h
  • Boletim Igreja no Brasil – 19h

Fonte: CNBB.org.br