Diocese de Guarulhos

SÃO PAULO - BRASIL

“O Senhor fez em mim maravilhas.” (Lc 1,49)

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Artigos Falando da Vida

Por que a Guerra?

A interessante pergunta que Einstein fez à Freud.

Enquanto você lê esse artigo, milhares de pessoas estão morrendo em decorrência de guerras ou sofrendo as suas consequências. Desde 2525 a.C, quando aconteceu o primeiro conflito militar de que se tem notícia, a humanidade não parou mais de guerrear por diferentes motivos como: desentendimentos religiosos, interesses políticos, econômicos, rivalidades étnicas, etc. Além de causar mortes, as guerras provocam perdas econômicas, destruição do meio ambiente e traumas que ficam na mente dos sobreviventes.

Depois da guerra Franco-Prussiana, em 1871 que terminou com mais de 150 mil mortos, instaurou-se na Europa um movimento chamado de Belle Époque. De fato, era o sonho de uma bela época em que a humanidade viveria em paz, a partir dos avanços tecnológicos proporcionados pela Revolução Industrial. Os grandes pensadores ficaram tão otimistas que imaginavam que naquele mundo civilizado não haveria mais lugar para as guerras. No entanto, em 1914 eclodiu a primeira guerra mundial que deixou mais de 40 milhões de mortos e 30 anos mais tarde veio a segunda que matou mais de 55 milhões.

Em 1932 Albert Einstein escreveu uma carta à Sigmund Freud, criador da Psicanálise, com a seguinte pergunta: Por que a guerra? Existe alguma forma de livrar a humanidade dessa ameaça? A resposta de Freud foi desanimadora; segundo ele, existem dois instintos básicos na nossa psique: o instinto de vida ligado à preservação da mesma, chamado de Eros e o da Morte ligado a destruição, chamado de Thanatos. Esses dois princípios fundamentais se combinam e se completam de modo que um depende do outro. Por esse motivo, segundo Freud, a violência sempre acompanhará o homem no curso da sua história.

Considerando essa teoria, não devemos esperar que a paz aconteça, pois a humanidade carrega na sua constituição a semente da violência como estratégia de poder e dominação.  Violência contra seu semelhante, violência contra os animais, contra o meio ambiente e, em última análise, contra si mesmo. No entanto, não podemos viver de teorias. Precisamos acreditar na paz e construí-la de maneira simples a partir da nossa realidade. É preciso começá-la de algum lugar e o melhor lugar é dentro de nós mesmos. Precisamos ter paz interior para depois construir a paz exterior. Que a paz seja buscada, mesmo em meio a guerra, afinal, como disse o próprio Albert Einstein “Não se pode manter a paz pela força, mas sim pela concórdia. ”

Nesta última edição impressa deste jornal, quero agradecer a direção da Folha Diocesana, bem como os leitores, pela oportunidade a mim confiada, de compartilhar minhas ideias e reflexões através dessa coluna. Essa experiência me trouxe um grande aprendizado tanto na vida profissional como no aspecto pessoal. Obrigado e até breve!

 

Romildo R. Almeida – Psicólogo clínico

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Positividade Tóxica

A negação do sofrimento pode ser prejudicial à Saúde mental.

Todos devemos encarar a vida com otimismo e ter uma postura positiva frente às adversidades. Não há dúvidas de que a motivação é uma alternativa melhor do que o pessimismo em qualquer situação. Mas existe uma ideia que tem se difundido muito nos últimos tempos, principalmente nas mídias sociais. Trata-se da Positividade Tóxica que é o excesso de otimismo que as pessoas impõem a si mesmas no processo de condução de suas vidas. Evitar compulsivamente o contato com emoções negativas, disfarçar o sofrimento, forçar falsos sorrisos, podem ser, a longo prazo, atitudes prejudiciais à saúde mental.

A negação, conforme sustentava Sigmund Freud, é um mecanismo de defesa do ego e está relacionada ao propósito de fuga da realidade. A princípio parece bom, mas a longo prazo é prejudicial à saúde mental causando ansiedade, pânico e depressão. Por outro lado, a aceitação natural dos acontecimentos penosos, vivenciando todas as suas etapas, contribui para a sua superação, além de trazer amadurecimento e equilíbrio à personalidade. Não devemos confundir Positividade Tóxica com o otimismo que algumas pessoas têm. Enfrentar as adversidades com esperança, sem ignorar a realidade é bem diferente da postura do indivíduo com Positividade Tóxica.

A falta de empatia é, também, uma característica marcante da Positividade tóxica; o indivíduo preocupado consigo mesmo, não consegue colocar-se na perspectiva do outro, tornando-se, assim, egoísta. Quando alguém compartilha um sofrimento com um positivista tóxico, é comum ouvir, como resposta, frases evasivas tipo: isso não é nada, você é forte, etc. A tendência de querer positivar também é outra característica marcante do positivista tóxico. Por exemplo, quando alguém reclama do emprego, ouvir de volta algo como pelo menos você tem emprego. Isso promove desconexão além de não validar o sentimento do outro.

A ideia de que o agradável, o prazeroso, o motivador, devem estar acima das outras emoções consideradas negativas, gera egoísmo tanto no aspecto individual como no social. O distanciamento empático não contribui para um ideal de sociedade humana e fraterna, sobretudo nesses tempos difíceis pelo qual o mundo está passando. Desligar o rádio e a TV, fechar os olhos para as tragédias, não melhora o indivíduo e tampouco o mundo em que ele vive. Compartilhar a humanidade é aceitar que a dor do outro é, também, a minha dor. Nesse contexto, somos todos palestinos, judeus, russos e ucranianos, pois somos todos humanos. É melhor abrir os olhos para ver e o coração para sentir, pois o pior sofrimento é aquele em que fingimos estar felizes.

 

Romildo R. Almeida – Psicólogo Clínico

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Deixai vir a mim os Pequeninos!

Uma breve discussão sobre a Erotização da infância.

Outubro é o mês em que as atenções se voltam para as crianças. Essa época tornou-se importante também para o comércio, pois marca o início das vendas de Natal. Em meio às dúvidas naturais sobre o que comprar, surge uma questão mais importante: Do que elas estão precisando efetivamente? Uma breve olhada nos perfis disponíveis nas mídias sociais, nota-se um fenômeno preocupante: As crianças estão deixando de ser crianças; estão se apresentando como se fossem adultos, buscando notoriedade e seguidores. Para atingir esse objetivo, apelam para dancinhas eróticas ao som de músicas com letras pornográficas.

Muitas pessoas podem argumentar que, as crianças estão apenas se divertindo, que não há nada de errado e que a maldade está nos olhos de quem vê. De fato, não teria problema algum se o vídeo fosse apenas para registro particular, mantido em casa. Mas a partir do momento em que eles se tornam públicos e, com o aval dos próprios pais, qualquer pessoa pode copiá-los e utilizá-los como quiserem. É o que tem acontecido ultimamente, quando grupos criminosos alimentam sites de pornografia inserindo imagens de crianças que foram colhidas dos perfis exibidos na mídia social. Essa é a nova face da Pedofilia.

A criança ou até mesmo o adolescente, não possui maturidade suficiente para avaliar as consequências dos seus atos. Tudo o que querem é alcançar reconhecimento e obter poder através do aumento de seguidores e número de curtidas. O problema é que na ambição de ganhar popularidade, acabam reproduzindo o mesmo padrão hipersexualizado encontrado nas páginas dos adultos. Essa hipersexualização, infelizmente, está se tornando cada vez mais precoce e as consequências não são positivas. Podem causar estresse e ansiedade, além de afetar o rendimento escolar. Contudo, o problema mais grave, é a vulnerabilidade dessas crianças diante desse mundo virtual, tornando-as presas fáceis de pessoas mal-intencionadas.

Neste mês de outubro que é o mês Missionário, mas também um mês em que a sociedade coloca a criança como centro, é importante refletir sobre a nossa missão, seja como genitores ou educadores. Temos um desafio que é resgatar a criança que foi atraída e presa nessa realidade virtual. É preciso enxergar nas coreografias insinuantes, um pedido escondido de socorro. São vozes abafadas e inocentes que, de maneira sutil, clamam pelo direito de ser apenas crianças. Afinal, se o Reino dos céus é dos pequeninos, não existe maneira mais pura de seguir a Deus devolvendo a elas a liberdade perdida e a infância roubada.

 

Romildo R. Almeida – Psicólogo Clínico

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Narcisismo Parental

A tênue fronteira entre cuidar e prender

O drama vivido pela atriz global Larissa Manoela, amplamente explorado na mídia no último mês, é o ponto de partida para discutir um problema muito comum que ocorre nas famílias. Trata-se da relação de possessão que alguns pais querem exercer sobre os filhos. É natural que alguns pais tenham dificuldade em transferir responsabilidades e, até certo ponto, isso não é um problema. Na maioria das vezes, esse sentimento, logo dá lugar ao orgulho de presenciar o sucesso dos filhos. No entanto, existem casos em que essa relação é carregada de estresse, pois os genitores querem dirigir a vida dos filhos em todos os aspectos, sob a justificativa de que eles são jovens imaturos.

Alguns casos podem evoluir para o Narcisismo Parental, um transtorno psíquico que atua especificamente na relação entre pais e filhos. Narcisismo origina-se do mito grego onde o belo jovem Narciso se apaixonou pela própria imagem refletida nas águas do rio e, por esse motivo, viveu infeliz e sozinho, impossibilitado de se relacionar com outras pessoas. No Narcisismo Parental, o pai, a mãe ou ambos se seduzem pelo papel que representam e têm dificuldade de reconhecer a autonomia dos filhos, pois isto significaria abrir mão da própria superioridade pela qual, estão seduzidos.

Na prática, não querem perder o poder que imaginam ter e, por isso, transformam a convivência numa relação tóxica e carregada de estresse envolvendo sentimentos contraditórios de amor, inveja, ciúme e até ódio. Pais narcisistas em geral, são autoritários, egoístas e manipuladores, pois, ao longo do relacionamento com os filhos, desenvolvem essas características como estratégias para manter o poder sobre eles. Quando são contestados ou desafiados, tornam-se agressivos fazendo com que a relação se torne inviável. As consequências não são boas para nenhuma das partes, pois os pais acabam sozinhos repetindo o mito de Narciso. Quanto aos filhos, os danos são ainda maiores, pois podem desenvolver: baixa autoestima, dependência afetiva, insegurança, depressão, entre outros.

Nunca a carta de São Paulo aos efésios (Ef 4:24) tornou-se tão apropriada ao contexto que estamos vivendo sobretudo nas relações sociais, incluindo as famílias.  Revestir-se da nova humanidade é desapegar-se dos valores materiais, do poder que queremos exercer sobre as pessoas e aprender a viver na humildade. A sedução nos cega tal como no mito de Narciso e nos faz viver aprisionados pelo egoísmo.  A empatia é a porta que se abre para o amor, permitindo viver a bondade de coração, único caminho que pode nos libertar e conduzir à felicidade sustentável e à Salvação.

 

Romildo R. Almeida – Psicólogo Clínico

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Pai Misógino ou Pai Filógino

O que você quer ser quando crescer?

Estamos em agosto, mês em que se comemora o dia dos pais, data propícia para refletir sobre a importância da paternidade na construção da família. Gostaria de fazer isso à luz do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado recentemente e, de acordo com os dados, houve uma média de 205 estupros por dia no Brasil em 2022. Os números podem ser ainda maiores pois não incluem os casos em que a vítima não prestou queixa. Se compararmos com 2021, houve um aumento de 8,2%, o que coloca o Brasil no mapa dos países mais perigosos para mulheres.

O que isto tem a ver com paternidade? Bem, os meninos de hoje, serão os homens de amanhã, mas a questão é: que tipo de homens serão? A formação da personalidade de qualquer pessoa, depende, em grande parte, do modelo com o qual ela conviveu na infância desde o nascimento. A educação é um processo complexo que envolve interação com os pais em diversas situações, numa constante troca, que se dá, tanto no aspecto consciente, quanto no inconsciente. Por esse motivo, podemos supor que homens que praticam abuso e violência, não incorporaram um modelo positivo de masculinidade na infância e a causa disso pode estar na figura paterna.

A Misoginia, que significa ódio ou aversão às mulheres, começa no machismo estrutural, impregnado de falsas ideias sobre masculinidade tais como: homem não chora, não sente dor, é “imbrochável”, etc. Em contrapartida, que mulher é frágil, carente e insegura. No aspecto sexual, há o mito de que homem não pode fraquejar perante a mulher, e o preconceito de que a mulher provoca o homem dependendo da forma como se veste. Como vemos, é preciso mudar essa estrutura que está no inconsciente de cada homem, sem exceção. Os novos pais têm a missão de substituir o modelo machista, berço da Misoginia para um modelo que cultiva apreço, afeto e respeito pelo sexo feminino, chamado de Filoginia.

O pai deve estar no centro dessa mudança, interagindo em todas as situações e oferecendo-se como modelo positivo a ser seguido. É observando o respeito que os adultos têm pelas pessoas, que a criança absorve e constrói o seu caráter. Num tempo de guerra, de conflitos e de polarização, precisamos semear a paz e reconstruir a sociedade a partir de nós mesmos. Como disse o Papa Francisco: “É necessário esculpir a própria vocação em prol da humanidade e do bem comum. ” Seja um pai ativo na educação dos seus filhos. Filoginia sim, Misoginia nunca.

 

Romildo R. AlmeidaPsicólogo Clínico

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Felicidade Liquida ou Felicidade Sustentável

Como as Redes Sociais afetam nossos projetos?

Não basta passar as férias num lugar maravilhoso se ninguém souber que você esteve lá. Essa é a lógica que faz com que as pessoas se exponham cada vez mais nas redes sociais. Mas a felicidade só é completa quando a quantidade de likes recebidos alcança a meta esperada pelo ego. Parece que desistimos de buscar a felicidade real baseada em motivos sustentáveis e estamos nos contentando com a felicidade líquida que só existe nos feeds do Instagram e desaparece em seguida.

Infodemia, é o nome que se dá ao excesso de informações que recebemos e compartilhamos diariamente na Internet. Uma pesquisa da Comscore mostrou que o brasileiro passa, em média 46 horas por mês conectado nas mídias sociais. O Brasil está na terceira posição entre as nações que mais consomem esses aplicativos, além de ser o segundo país com mais influenciadores digitais no mundo. Influencer já é a profissão que mais cresce no Brasil, superando em 8 vezes a profissão de Advogado e em 20 vezes, a de Médico.

O papel do Influenciador digital é atrair o interesse das pessoas através de suas habilidades de comunicação para promover produtos e marcas. O sucesso alcançado por esses profissionais ultrapassou os limites da profissão e hoje tornou-se um modelo de comunicação social.  A maioria das páginas de pessoas comuns, exibe a mesma estrutura encontrada nas páginas dos influencers com cenas de uma vida idealizada, que muitas vezes, é só aparência. Nas Redes Sociais não há lugar para dor, tristezas e derrotas; ninguém posta situações desafiadoras, só conquistas.

Para além do simples passatempo recreativo, ficar horas nas Redes Sociais consumindo e compartilhando informações, pode afetar a saúde mental. A ideia de que a minha grama não é tão verde quanto a do meu vizinho, faz todo sentido aqui, pois cria o pensamento de que “todos são felizes, menos eu”. Para a nossa mente inconsciente, que não diferencia o falso do verdadeiro, essa atitude mental ganha um caráter concreto transformando-se em descontentamento com a vida, ansiedade e depressão.

Devemos ter sonhos e lutar por eles, mas antes disso, é preciso aprender a gerenciar nossas emoções. Será que sou mesmo um fracassado? Os meus projetos de vida são, realmente meus ou estou me baseando na história dos outros? A felicidade compartilhada nas Redes Sociais é líquida e descartável enquanto que a felicidade sustentável começa com a aceitação incondicional de quem você é incluindo defeitos. Mas a vida não pode se fechar nos interesses individuais; é preciso se abrir para o próximo através da generosidade e da prática constante do bem. Quando você sentir a verdadeira felicidade presente no seu coração, não precisará mais postá-la em nenhuma Rede social.

 

Romildo R. Almeida – Psicólogo clínico

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Os perigos da Inteligência Artificial

Até aonde a tecnologia pode evoluir sem ferir nossa liberdade?

   Em 1940, em plena segunda guerra mundial, o matemático britânico Alan Turing construiu uma máquina eletromecânica, que decifrou os códigos dos navios de guerra da Alemanha. Essa invenção não só ajudou os aliados a derrotarem os nazistas, como também criou as bases teóricas da computação que permitiram o surgimento da Inteligência Artificial “A.I”. Em novembro de 2022 foi criado o ChatGPT, uma ferramenta de pesquisa e produção de conteúdos que é derivada direto dessa inteligência e o seu uso está sendo muito discutido atualmente. Quais as consequências positivas ou negativas que o uso da A.I. provocará na sociedade?

Inteligência Artificial é o conjunto de ciências, teorias e técnicas que visa imitar as habilidades cognitivas de um ser humano. A Revolução Industrial, no início do século, facilitou a vida das pessoas, mas teve um alto custo representado pela degradação do meio ambiente e o surgimento de doenças. Desta vez, estamos vivendo uma nova revolução tecnológica que pode trazer mais eficiência na execução de tarefas, mas ao mesmo tempo, muitos perigos. Programas inteligentes como o ChatGPT, podem assumir o lugar das pessoas e influenciar decisões mudando o rumo da sociedade.

O ChatGPT seria capaz de elaborar artigos científicos e até de escrever livros. Nas artes, poderia compor peças teatrais, roteiros de filmes e músicas. Mas o maior perigo está no campo social: softwares inteligentes poderiam criar informações falsas e manipular imagens trazendo risco à privacidade dos indivíduos. A foto do Papa Francisco vestindo um casaco branco, publicada por inúmeros sites, é um exemplo claro desse perigo. Não é à toa que na Itália o ChatGPT está proibido e outros países da Europa estão criando leis para seu uso.

Por trás das questões éticas que envolvem o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial, está um mercado avaliado em centenas de bilhões de dólares. Curiosamente, os maiores líderes desse setor escreveram um documento com mais de 1000 assinaturas solicitando uma pausa de seis meses no desenvolvimento dessa nova tecnologia. O documento alerta para “riscos profundos para a sociedade e para a humanidade”.

Resumindo, se até os maiores interessados estão preocupados com as consequências dessa nova tecnologia, deveríamos nos preocupar mais ainda. Afinal, nenhum progresso vale a pena se perdermos a condição sagrada de sermos pessoas livres e conscientes, capazes de fazer nossas escolhas. Que a Inteligência Artificial, ainda que mais avançada, esteja sob o domínio da inteligência humana, para que possamos honrar e dignificar nossa identidade de filhos de Deus.

 

Romildo R. Almeida – Psicólogo clínico

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ATENÇÃO ÀS ESCOLAS

O ser humano é a única criatura que deve ser educada, por isso, a escola é foco de onde irradia a luz que clareia a sociedade. Com educação apropriada nos tornamos pessoas completas e realizadas, sem educação nos tornamos animais ferozes. Por isso, afirmava alguém: “o verdadeiro órfão é o que não recebeu educação, nem da família nem da escola”.

Falemos de nossas escolas. O que está acontecendo? Pelo Brasil afora existe uma onda de ataques às escolas. Muitas mortes e vários feridos estão assombrando o todo da sociedade. Ameaças, violências, tragédias, insegurança, rondam nossas escolas que deveriam ser lugares “sagrados”, onde se aprende a crescer no conhecimento e no amadurecimento para a vida.

A Educação em nosso pais sofre ha décadas de descaso, projetos inconclusos, mudanças frequentes de objetivos, planos e ministros da educação. Muito recurso é destinado à Educação, os resultados são decepcionantes. Entre a corrupção e a incompetência instalou-se agora o medo. Medo de que os brasileiros aprendam a pensar melhor, medo de libertar da ignorância milhares de pessoas, medo de uma nação onde a auto estima, a segurança que o saber confere às pessoas, possa ser patrimônio de todos.

A sociedade brasileira está gravemente doente, pais ausentes e filhos carentes, brinquedos que promovem violência, o cruel armamento da população e muito fortemente a falta de um vínculo religioso sério. Estamos mergulhados numa dura ditadura das minorias (a sociedade dividida em grupos afins e fechados). A valorização do subjetivo das diferentes pessoas, fruto de um egoísmo intenso, está transformando cada um em seu próprio ponto referencial. O perigo está presente: isolamento social, falta de perspectivas, pobreza degradante, sobretudo nas grandes cidades…

Isto conduz a sociedade humana ao mundo da fantasia (vazio existencial). É a “sociedade do vazio e da decepção”, da qual fala o filósofo Giles Lipovetsky. Ele indica o consumismo frustrante e o esvaziamento das instituições (da família e da religião), como causas da espiral de frustração em uma sociedade da (in)comunicação e a (in)diferença.

Entendo que os três pilares sustentadores da saudável convivência social (família, escola e fé) estão relegados a um plano muito vulgar, desconectadas entre si e desligadas da realidade. A disciplina é mal vista e substituída pelo sistema de escolha e persuasão, assim a insegurança é geral.

Invistamos nas famílias(santuário da vida); nas escolas que devem oferecer os valores universais e na formação religiosa das crianças. Para a nossa Igreja Católica a necessidade reside em dois pontos vitais: pastoral familiar e catequese em todos os níveis, e vão de mãos dadas. A Educação é um direito de todos e a Igreja exorta os seus filhos a colaborarem generosamente no campo da Educação. Sobretudo ajudando que ela possa beneficiar a todos em uma perspectiva inclusiva.

Afirmava Licurgo, sábio da antiguidade grega: “O primeiro objetivo do legislador deve ser a educação” e outro sábio desta mesma cultura afirmava: “Educai as crianças e não será preciso punir os adultos”(Pitágoras). Portanto: quanto mais escolas tivermos, menos cadeias precisaremos. Pasmem: ainda é custoso aceitar que fica mais barato construir e sustentar escolas do que cadeias.

Acordemos enquanto é tempo!

Dom Pedro Cipollini
Bispo de Santo André (SP)

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Ataque às escolas no Brasil

A tecnologia une iguais, para o bem ou para o mal

É difícil colocar-se no lugar da professora de 71 anos, morta por um adolescente numa escola de São Paulo. É difícil também imaginar-se no lugar dos pais que perderam seus filhos na creche de Blumenau em Santa Catarina. Mas é fácil reduzir esses acontecimentos a simples falhas de segurança nas escolas. Fala-se em aumentar o número de policiais, instalar câmeras de vídeo e revistar alunos. Essas medidas são válidas, mas levam em conta apenas um lado da questão, pois a verdadeira causa do problema é complexa e tem a ver com a saúde mental das pessoas.

De acordo com as estatísticas, somente entre 2022 e 2023, o número de ataques em escolas no Brasil já supera o total registrado nos 20 anos anteriores. Qualquer projeto que tente estudar esse fenômeno, tem que considerar as influências que as redes sociais exercem no desenvolvimento da personalidade de um jovem ainda em formação. A verdade é que, para o bem ou para o mal, o acesso fácil à internet promove alterações na maneira de pensar e de agir das pessoas que fazem uso constante desse recurso. Os adolescentes e as crianças, pela sua vulnerabilidade, são os principais afetados.

A Internet facilitou a vida das pessoas, mas se tornou uma espécie de caldeirão no qual se misturam os mais variados personagens, por meio de afinidades e interesses. É nesse ambiente virtual que o ódio se articula e ganha corpo, manifestando-se em ações violentas contra pessoas ou instituições. Esse potencial destrutivo sempre existiu na história da humanidade, pois pertence ao inconsciente coletivo, mas faltava algo que fosse capaz de ativá-lo e ampliá-lo, fazendo-o saltar da imaginação para a realidade. Agora não falta mais, pois a internet preencheu essa lacuna. Infelizmente as interações sociais e afetivas estão sendo substituídas pelo ambiente virtual. As crianças, muito cedo, aprendem a navegar e tornam-se dependentes.

A discussão em torno da regulação das redes, encontra grande barreira representada pelo interesse de poderosos grupos econômicos que lucram alto com as atuais regras que regem a publicação de conteúdo. Resta uma saída chamada conscientização e ela tem que começar na família. Uma criança com menos de 12 anos não deve ter perfil na internet, Smartphones não são brinquedos e deveriam vir com um alerta: “Desaconselhável para crianças. ”

Antes de permitir que uma criança navegue na rede, saiba que ela vai entrar num mundo onde céu e inferno estão muito próximos; e a porta que divide um do outro é de apenas um click, portanto, Cuidado!

 

Romildo R. Almeida

Psicólogo clínico

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Páscoa e Felicidade!

Você pode se transformar numa pessoa melhor!

Você é feliz? Se o motivo da sua felicidade está baseado no seu poder de compra, saiba que isso não é felicidade e sim conforto material. Os bens materiais perdem o efeito com o decorrer do tempo e têm que ser renovados constantemente gerando uma necessidade compulsiva de adquirir mais para tentar manter o nível de prazer. Mas, será que é possível ser feliz sem contar com recursos materiais? O monge budista Matthieu Ricard, foi considerado a pessoa mais feliz do mundo, de acordo com imagens do seu cérebro obtidas através de ressonância magnética. E o que ele faz para ser feliz? Nada, simplesmente medita práticas de compaixão e autocompaixão.

O estresse mata. A felicidade, do ponto de vista fisiológico, está ligada à ausência de estresse e essa condição pode ser detectada por intermédio da atividade de uma pequena glândula localizada no sistema límbico, chamada amígdala cerebral. Pessoas estressadas apresentam grande atividade nessa área do cérebro e maior probabilidade de desenvolver, entre outras doenças, diabetes, hipertensão, infarto e AVC. Herdamos o estresse do homem primitivo, que tinha que lidar com perigos extremos como caçar e defender-se de predadores. Hoje, os perigos são outros, mas o nível de estresse é o mesmo.

Entretanto, nos últimos anos, a ciência tem demonstrado o que as religiões sempre pregaram, ou seja, que a compaixão e a bondade vivenciadas de forma genuína, trazem um nível de felicidade sustentável que não se altera nem mesmo diante de condições adversas. A compaixão pelo próximo, altera a configuração do nosso cérebro, desenvolvendo um estado de calma e segurança. A boa notícia é que ela pode ser treinada e cultivada, portanto, você não precisa ser um monge para desfrutar de uma felicidade plena, basta cultivar atitudes bondade em relação a si mesmo e ao próximo.

A Páscoa traz um sentido profundo de libertação e transformação, oportunidade perfeita para rever a nossa relação com a vida e com o mundo que estamos construindo dentro e fora. Como lido com as minhas perdas, minhas frustrações e meus fracassos? Sou auto compassivo? E em relação aos outros, sou empático e pratico boas ações? As respostas negativas a essas perguntas estão ligadas ao estresse, caminho que nos leva à doença e à morte. Mas a compaixão e a autocompaixão representam vida nova e a oportunidade de ser feliz de verdade, porque a única riqueza que importa de fato é aquela que ninguém pode roubar: a sua paz e a sua liberdade. Isso é Páscoa!

 

Romildo R. Almeida – Psicólogo clínico