SÃO PAULO - BRASIL

“O Senhor fez em mim maravilhas.” (Lc 1,49)

SÃO PAULO - BRASIL

"A Esperança não decepciona" (Rm 5,5)

Categorias
Artigos Voz do Pastor

Jubileu da Esperança e a ‘‘Dilexi te’’

Chegamos ao mês de dezembro, também ao último mês deste Ano Jubilar. No próximo dia 28 de dezembro, Festa da Sagrada Família, às 15h, em nossa Catedral, teremos a celebração de encerramento do Ano Jubilar.

O Jubileu termina, mas não o sermos Peregrinos de Esperança. Os sinais de esperança, manifestados pelo Papa Francisco na Bula convocatória do Jubileu, “Spes non confundit”, continuam aí para serem vivenciados, e agora mais iluminados pela Exortação Apostólica “Dilexit te”, do Papa Leão XIV.  Nesta Exortação, o Papa ao nos recordar ao longo da caminhada da Igreja, através dos séculos, as várias formas de manifestação da opção preferencial pelos pobres, nos dirige também para alguns sinais de esperança indicados pelo Papa Francisco.

O Apóstolo Paulo, na segunda Carta aos Coríntios (8-9), fala de uma campanha de solidariedade para os pobres da comunidade de Jerusalém. Na Igreja de Jerusalém são instituídos pela imposição das mãos os sete servidores para que ninguém passe dificuldades. Na Dilexi te o Papa Leão fala desta verdadeira Tradição do cuidado aos pobres, como parte integrante da missão e do testemunho da Igreja. Cita o Diácono São

Lourenço, de Roma (38), os Santos Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna (39). Da mesma época dos dois santos – século II – é também citado São Jusitno, de Roma, que mostra que a partilha com os pobres, faz parte da vivência da celebração Eucarística (40). O cuidado pastoral para com os pobres do bispo de Cartago, S. Cipriano, também é citado (49). Não poderia, sem sombra de dúvida, faltar a citação do grande Padre da Igreja, São João Crisóstomo, século IV, que une intimamente a vivência cristã na liturgia e na vida, com a opção preferencial pelos pobres (41). O grande Padre da Igreja do Ocidente, Santo Agostinho – séculos IV e V – é citado pela exigência do seguimento de Cristo, oferta aos pobres e coração indiviso (46-48).

O primeiro sinal de esperança, indicado pelo Papa Franciso, é a paz no mundo imerso em guerras. (Spes non confundit 8). Aqui, podemos contemplar ao longo da história, que em tempos tristes de flagelos da guerra, as comunidades cristãs sempre encontraram meios de anunciar a paz pela solidariedade. Na “Dilexi te” é citada a Vida Monástica, de modo especial desde a chamada Idade Antiga até a Idade Média (53-58). Os mosteiros sempre foram vistos como oásis de paz, em meio a tantos conflitos. O desprezo das riquezas incluía o cuidado para com os pobres e acolhida aos necessitados em meio aos sofrimentos. Do Oriente é citado um dos grandes mestres: o Capadócio São Basílio Magno (sec. IV). Para fazer presente a vida monástica do Ocidente, são citados João Cassiano (séc. IV) e São Bento Pai dos monges do Ocidente (séc. V). Para Idade Média, entre tantos filhos da Tradição beneditina, é citado São Bernardo de Claraval e os cistercienses (sec. XII). O final da Idade Média, na Europa, marcado por tantas guerras intestinas de poder, tem em contrapartida o testemunho de pobreza e partilha das Ordens mendicantes (cf. Dilexi te 63-67), cujo grande testemunho temos em Francisco de Assis, mas também a grande presença dos dominicanos, carmelitas e agostinianos.

Depois, para olhar para o futuro com esperança, temos que ter a abertura à vida, segundo sinal de esperança (SNC 9). Quantas Congregações religiosas, principalmente, surgiram com a missão de defender a vida, seja cuidando dos órfãos, das mães abandonadas, bem como trabalhando para a educação dos pobres. Os números 68-72 da Dilexi te enumeram: São José de Calazans e a Ordem dos clérigos Regulares Pobres da Madre de Deus das Escolas Pias, no século XVI. Nos séculos seguintes surgiram, além de Congregações femininas, São João Batista La Salle, Marcelino Champagnat, São João Bosco, Beato Antonio Rosmini…

No número 10 da Bula o Papa Francisco para a necessidade de dar sinais de esperança aos encarcerados. Em tempos de guerra, onde pessoas eram escravizadas, Deus inspirou pessoas a viverem a consagração especial para a libertação dos cativos: Trinitários, Mercedários e na Dilexi te (59-62), são citados São João da Mata e São Felix de Valois.

No quarto sinal de esperança (SNC 11) estão os doentes e no número 14, estão os idosos. Deus suscita carismas, principalmente nos séculos XVII, que lembram estas obras de misericórdia: São Camilo de Lelis, São João de Deus, São Vicente de Paulo, Santa Luiza de Marillac (50-51).

O quinto sinal de esperança (SNC 12) dirige-nos aos jovens. Aqui, como não remeter aos já citados santos e santas, citados acima, que se preocuparam com a educação da juventude nas mais diversas situações?

Os migrantes são contemplados na Bula do Papa Francisco (SNC 13). A “Dilexi te” cita a situação de migração e imigração do Povo de Deus do Antigo Testamento e a própria Sagrada Família que foi para o Egito e de lá voltou tendo que se estabelecer em Nazaré. Acolher os forasteiros é obra de misericórdia (Mt 25,35). Deus também suscitou santos e santas chamados a viver esta obra de misericórdia, como São João Batista Scalabrini e Santa Francisca Cabrini (73-75)

Por último, mas não em último lugar, estão os pobres, os empobrecidos (SNC 15-16). De várias formas Deus tem suscitado na Igreja (e também no mundo, fora do ambiente ad intra da Igreja) pessoas que doam suas vidas pelos pobres. Duas santas são mencionadas particularmente na “Dilexi te”: Santa Teresa de Calcutá e Santa Dulce dos pobres. Também são citados: São Bento Menni, Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, São Charles de Foucauld, Santa Katarine Drexel… (76-81).

Quero concluir a citação desta espécie de resenha da “Dilexi te” e consonância com a “

Spes non confudit” com uma citação da Carta aos Hebreus: “Portanto, com tamanha nuvem de testemunhas em torno de nós, deixemos de lado o que nos atrapalha e o pecado que nos envolve, com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente da nossa fé e a leva à perfeição. Em vista da alegria que o esperava, suportou a cruz, não se importando com a infâmia e assentou-se à direita do trono de Deus.” (Hb 12, 1-2)

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

Categorias
Artigos Voz do Pastor

Dois Jovens Santos neste Ano Jubilar: Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati

O Ano Jubilar que estamos vivendo está repleto de imagens e acontecimentos que somos chamados a contemplar e ver a ação de Deus. Entre o final de julho e começo de agosto pudemos assistir o Jubileu dos jovens em Roma. Aquela imagem da multidão de jovens em Tor Vergata, seguramente, faz-nos acreditar que, sim, podemos ser peregrinos de esperança.

Temos um outro acontecimento ligado à juventude que é a canonização do Beato Carlo Acutis, que deveria ter acontecido no dia 27 de abril, mas em virtude da morte do Papa Francisco, foi, posteriormente, transferida para o dia 07 de setembro.

Carlo Acutis (1991-2006), jovem adolescente, que viveu entre o final do século XX e início do século XXI, é um santo que inspira a nossa juventude tão “antenada” com as novas tecnologias. Afinal, ele não foi somente um jovem gamer, mas serviu-se de seu conhecimento técnico de informática para favorecer a obra da evangelização em sua paróquia, na Igreja e na sociedade.

No entanto, a sua santidade não vem dos seus conhecimentos tecnológicos e do trabalho que realizou. A santidade é dom de Deus. Dom que Carlo soube acolher com o impulso do Espírito Santo. Ele, de família católica tradicional, mas nem tanto “praticante”, acolheu o chamado de Deus e na infância, adolescência e início da sua juventude, esforçou-se por ser fiel a Deus e à Igreja. Este seu esforço e fidelidade foram elementos para uma caminhada de conversão para toda sua família.  Sua vida desde a infância foi permeada de catequese, oração e adoração, e profundo sentido da força da Eucaristia, celebrada e acolhida como caminho para o céu.

Que os nossos jovens possam olhar para São Carlo Acutis não simplesmente como gamer, antenado no mundo digital, mas como aquele no qual Deus, propõe um caminho de santidade para hoje!

Entretanto, a Providência Divina, através do Papa Leão, nos presenteia com outra canonização na mesma celebração do dia 07 de setembro, a do Beato Pier Giorgio Frassati  (1901-1925).

Também ele, proveniente de família católica “tradicional”. Educado em colégios católicos, desde a infância, adolescência e juventude destaca-se  – diferentemente da sua família – numa vida eclesial mais engajada: comunhão diária, Cruzada Eucarística, Liga Eucarística, Companhia do Santissimo Sacramento. Congregação Mariana, Confraria do Santo Rosário. Ação Católica. Terciário dominicano, Conferência de São Vicente. Todos movimentos eclesiais que congregavam jovens na Itália do início do século XX. Como Acutis fará um século depois, acolhe o chamado de Deus e busca ser fiel a ele. Sua biografia diz que sua mãe temia que ele fosse querer ser padre, mas há testemunhos de que ele teria dito preferir ser leigo para poder estar mais perto de realidades que ferem a dignidade da pessoa humana.

Era conhecedor da cultura clássica, com destaque para a Divina Comédia, de Dante Aleghieri. A sua experiência de fé possui fundamentos  bíblicos (Novo Testamento) e leituras de Santo Agostinho e Santa Catarina de Sena. Amava esportes e alpinismo. Estava prestes a tornar-se engenheiro na área da mineração quando faleceu. Esta escolha ele o fez para poder estar mais perto de uma das classe trabalhadoras mais sofrida na sua realidade.

A sua família era abastada. Seu pai foi fundador de um dos jornais mais fortes da Itália, em Turim, “La Stampa”. Pier Giorgio diante dos acontecimentos sociais do seu tempo, sempre buscou ler os fatos através do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja (lembremos que fazia poucos anos que Leão XIII havia escrito a Rerum Novarum). Esta leitura se torna concreta nele diante do forte avanço da industrialização em Turim, do flagelo da gripe espanhola, dos horrores da I Guerra mundial e do avanço do fascismo na Itália. Para estar mais engajado politicamente inscreveu-se no Partido Popular e se desliga de uma organização universitária onde estava inscrito, por discordar dela devido a condescendência, da mesma, com as ideias fascistas.

Dois santos propostos como exemplos e intercessores para a Igreja e, de modo especial, para juventude. A nossa juventude está sendo “bombardeada” por tantas  ideias através das novas tecnologias e por tantas ideologias de polarizações sociais e políticas. A grande tentação é alienar-se ou tomar  “partido” buscando refúgio onde se encontra mais seguranças humanas.

Dois jovens – cada um no seu tempo – souberam encontrar caminhos dentro de uma vida eclesial comprometida espiritual, intelectual e socialmente.

Dois jovens que são colocados como padroeiros do nosso VIVA A VIDA, que chega à sua 20ª edição, no mesmo dia da canonização de ambos.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

Categorias
Artigos Voz do Pastor

As peregrinações do Ano Santo: expressão do ser Peregrino de Esperança

Em maio de 2024 o Papa Francisco publicou a Bula de convocação do Ano Santo Jubilar de 2025. No refletir sobre ela e apresentá-la à diocese, veio em meu coração o desejo de fazer a Peregrinação a Roma. Pela minha idade é bem possível que seja o último Ano Santo Jubilar em que possa fazer esta peregrinação. Uma vez visto na programação que haveria uma data específica para o Jubileu dos bispos, preparei-me na agenda, no espírito e economicamente para esta viagem. Com alegria, então, pude estar em Roma nos dias 23 a 30 junho.

O Papa Leão XIV ao saudar os bispos no dia do Jubileu dos Bispos, disse-nos: “Aprecio e admiro o vosso empenho em vir como peregrinos a Roma, sabendo muito bem quão prementes são as exigências do ministério. Mas cada um de vós, como eu, antes de ser pastor, é ovelha do rebanho do Senhor!…somos os primeiros a serem convidados a atravessar a Porta Santa, símbolo de Cristo Salvador. Para guiar a Igreja confiada a nossos cuidados, devemos deixar-nos renovar profundamente por Ele, o Bom Pastor, para nos conformarmos plenamente ao Seu coração e ao Seu mistério de amor.” Estas palavras tocaram-me de modo especial, pois exprimiam todo o sentido de estar ali, naquele momento e naqueles dias. Foi exatamente com este espírito que passei pelas Portas Santas das quatro Basílicas papais de Roma.

Quero, pois, partilhar com os meus diocesanos algumas experiências destes dias de peregrinação.

            Já. na segunda-feira, dia 23 de junho, após breve repouso da viagem, peregrinei a duas Igrejas jubilares de Roma. A primeira foi a Basílica de São João do Latrão, catedral do Papa e considerada mãe de todas as igrejas de Roma e do mundo. Lá, primeiramente, participei do Sacramento da misericórdia de Deus para os pecadores. Ali, nas orações próprias para lucrar as indulgências, rezei pela caminhada sinodal da nossa diocese, pelos passos corajosos que pastoralmente somos chamados a dar. Não pude deixar de colocar nas minhas orações a comunhão do presbitério e a comunhão do bispo com o presbitério. Rezei pela minha conversão pessoal e pastoral. De lá dirigi-me à Basílica de Santa Cruz in Gerusalemme, cujo inícios remontam ao século IV e que, desde então, custodiam as relíquias da Cruz de Cristo, trazidas desde a Terra Santa por Santa Helena. Os monges cistercienses, da minha Congregação, foram responsáveis por esta Basílica até 2010, por quase 500 anos. Ali residi por 02 anos e meio, durante meus estudos em Roma e também fui vigário paroquial. Ao rezar diante das relíquias da Cruz, não pude deixar de pensar nos tantos rostos sofredores dos irmãos e irmãs de nossa diocese. Jesus, o homem das dores, conhecedor de todas as misérias, se faz presente no rosto dos pobres e sofredores. Como o meu, o nosso coração, precisa se abrir à grandeza do mistério da Cruz, para amarmos na dimensão da Cruz e tomar cada dia a nossa cruz.

Dia 24 de junho, terça-feira, foi o dia de ir à periferia de Roma: Santuário de Nossa Senhora do Divino Amor. Neste lugar pedi especialmente pelos movimentos marianos da nossa diocese: Terço dos homens, Mães que oram pelos filhos, Movimento Sacerdotal Mariano, Consagração a Nossa Senhora, terço das mulheres e tantas outras expressões marianas que temos. A última igreja onde peregrinei neste dia foi a Basílica de Santa Maria Maior. Ali, juntamente com outros peregrinos presentes, pude rezar o santo terço, pedindo a todos nós, a exemplo da Virgem Maria, a obediência da fé. Esta Basílica papal, tem recebido peregrinos (e turistas também) de modo excepcional neste Ano Jubilar, pois nela se encontra sepultado o saudoso Papa Francisco. Impressionante a fila que se forma para passar diante do local onde o seu corpo está sepultado. Neste dia, também, entre a minha ida ao Santuário de Nossa Senhora do Divino Amor e a Basílica de Santa Maria Maior, peregrinei também à Basílica de São Lourenço al Verano, local do martírio do Diácono São Lourenço. Logicamente, aí, detive-me em oração pela nossa Escola Diaconal São Lourenço e pelos diáconos permanentes da nossa diocese e suas famílias.

Dia 25 de junho foi o dia do Jubileu dos Bispos. Acredito que éramos mais de 800 bispos em peregrinação. Todos nós, já paramentados para a celebração da Eucaristia, adentramos à Basílica de São Pedro, passando pela Porta Santa. A Eucaristia foi presidida pelo Cardeal Ouellet, Prefeito emérito do Dicastério para os bispos, pois o Papa estava na audiência geral com o povo na Praça de São Pedro. Após a celebração da Eucaristia o Papa Leão XIV veio encontrar-nos no altar da Cátedra, na Basílica de São Pedro. A maneira como nos saudou já disse acima. A sua audiência para nós foi uma verdadeira catequese, pois exortou-nos a ser peregrinos de esperança para vivermos o dom profético que somos chamados a exercer, sendo construtores da unidade, como homens de fé, esperança e caridade pastoral. Exortou-nos ainda em cultivar virtudes humanas indispensáveis para a nossa missão: prudência pastoral, pobreza evangélica e a continência perfeita no celibato por causa do Reino dos Céus. As palavras do Papa Leão foram encorajadoras para mim, pois ser profeta se torna mesmo, cada vez mais, nadar contra a corrente No final da audiência, foi muito significativo, juntamente com Pedro (o Papa) e junto ao túmulo de Pedro cantarmos a profissão da fé, o Creio.

Quinta-feira, 26 de junho, foi o dia de peregrinar à Basílica de São Paulo Fora dos Muros. Neste lugar onde está sepultado o Apóstolo Paulo, coloquei intenções especiais pelo nosso COMIDI, mas também por todas as pastorais e movimentos da nossa diocese para que tenhamos uma verdadeira e corajosa conversão missionária. Coloquei nas orações os padres que estão servindo em outras dioceses e também os nossos dois missionários ad gentes, Pe. Salvador, Helena e a família em missão do Caminho Neocatecumenal, Ariel, Daniela e seus seis filhos.

Na noite deste dia foi celebrada uma vigília vocacional na Basílica de São Pedro. O testemunho de um seminarista nigeriano, estudante em Roma, tocou a todos, pois sofreu perseguição por causa da fé, junto com alguns outros companheiros de seminário na Nigéria. Eles foram ridicularizados pelos seus sequestradores e um dos seus companheiros de seminário foi cruelmente assassinado por ter falado sobre a fé cristã e ter ensinado o Pai Nosso a um dos carcereiros. Pensei em nossos seminaristas que devem sempre se preparar nestes momentos de formação para que estejam sempre preparados para dar a razão da própria fé. Esta vigília preparava a solene ordenação presbiteral que foi realizada no dia seguinte, solenidade do Sagrado Coração de Jesus, presidida pelo Papa Leão XIV.

No sábado, dia 28 de junho, juntamente com o nosso seminarista Sebastião, peregrinamos à Basílica de São Sebastião ad catacumbas, local também de peregrinação jubilar. Rezando na basílica e visitando as catacumbas, coloquei nas minhas intenções todos que oferecem suas vidas pela evangelização em nossa diocese. Não deixei de colocar nas minhas intenções todos que, por pertencerem à Igreja e evangelizarem, são perseguidos, muitos começando a partir das próprias famílias.

Domingo dia 29 de junho, solenidade do martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo, tive a alegria de poder concelebrar com o Papa Leão. Nesta celebração, o Santo Padre impôs o pálio a 54 novos arcebispos. A grande experiência mística nesta celebração, foi poder atualizar na minha vida o dom da unidade e comunhão na Igreja. De fato, o Santo Padre, em sua homilia sublinhou que, apesar dos conflitos na obra evangelizadora, Pedro e Paulo, viveram a comunhão eclesial e a vitalidade da fé. “Caríssimos, a história de Pedro e Paulo ensina-nos que a comunhão a que o Senhor nos chama é uma harmonia de vozes e rostos, e não apaga a liberdade de cada um. Os nossos Padroeiros percorreram caminhos diferentes, tiveram ideias diferentes, por vezes confrontaram-se e discordaram com franqueza evangélica. Mas isso não os impediu de viver a concordia apostolorum, ou seja, uma viva comunhão no Espírito, uma sintonia fecunda na diversidade. Como afirma Santo Agostinho, «temos um só dia para as Paixões dos dois Apóstolos. Eles eram dois e formavam um só ser. Embora tivessem sofrido em dias diferentes, eles formavam um só ser» (Sermão 295, 7.7).”

Dia 30 de junho: dia de retornar a Guarulhos com o coração agradecido. Esta ação de graças pude exprimir num longo momento de oração na igreja paroquial Nossa Senhora de Loreto (que também é igreja jubilar). Esta igreja paroquial fica dentro do Aeroporto Internacional de Roma, em Fiumicino.

Ainda que seja difícil a todos irem a Roma, temos os lugares de peregrinação em nossa diocese. Espero que esta minha experiência possa animar os irmãos e irmãs, que ainda não fizeram sua peregrinação jubilar que o façam. Recordando nossas igrejas jubilares: Catedral Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos, Santuário Nossa Senhora do Bonsucesso, Santuário Bom Jesus da Cabeça, Santuário São Judas Tadeu e paróquia Santa Terezinha. A nossa Romaria diocesana deste ano, dia 20 de setembro, também será a nossa peregrinação ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, também igreja jubilar.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

Categorias
Artigos Voz do Pastor

Ano Santo Jubilar e as Indulgências

Ao falar aqui de maneira simples sobre as Indulgências, espero não estar “pecando” através da linguagem.

Quando pecamos, ferimos a nossa existência. Quanto mais pecamos, a nossa existência vai se amoldando às consequências do pecado em nós. Com o passar do tempo, nódoas profundas, como uma sujeira impregnante, vão se acumulando como a sujeira numa piscina: por cima tudo pode estar limpo, mas no fundo está a sujeira.

O Sacramento da Penitência, sim, perdoa os nossos pecados. O Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo nos remiu de todo pecado. No entanto, as chamadas penas temporais (consequências) continuam aí. Faz-se necessário uma profunda conversão em toda a nossa existência para que as manchas sejam retiradas. Precisamos de purificação. Caso não tenhamos em nossa existência terrena esta purificação, o amor de Deus, por quem fizemos opção fundamental, irá nos purificar após a nossa peregrinação terrena. É o que a Igreja ensina sobre o Purgatório. Quem “está” no Purgatório não está condenado, está salvo, mas necessita desta atenção amorosa de Deus.

As Indulgências que a Igreja ordinariamente nos oferece, em certas ocasiões, nos ajudam na libertação destas penas temporais do pecado em nós. As Indulgências especiais concedidas no Ano Santo Jubilar, como este que estamos celebrando, são uma grande oportunidade de purificação para todos nós. Com as Indulgências “a Igreja, esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado.”  (Papa Francisco, Misericordiae Vultus 22). Podemos assim experimentar a ilimitada misericórdia de Deus. Atenção: não só para conosco, mas em algumas circunstâncias, para as almas do Purgatório, em virtude da fé que professamos “creio na comunhão dos santos”. A Igreja peregrina está em comunhão, não somente com a “Igreja celeste”, mas também, como se dizia, com a “Igreja padecente”.

A Penitenciaria Apostólica ao falar sobre a concessão das Indulgências para este Jubileu declara: “Durante o Jubileu Ordinário de 2025, permanecem em vigor todas as outras concessões de Indulgência. Todos os fiéis verdadeiramente arrependidos, excluindo qualquer apego ao pecado, que forem movidos por um espírito de caridade e que, no decurso do Ano Santo, purificados pelo Sacramento da Penitência e revigorados pela Sagrada Comunhão, rezarem segundo as intenções do Sumo Pontífice, estes poderão obter, do tesouro da Igreja, pleníssima Indulgência, remissão e perdão dos seus pecados, que se pode aplicar às almas do Purgatório sob forma de sufrágio.

Estejamos atentos: não se trata de fazer simplesmente as coisas exteriores prescritas: peregrinações e visitas pessoais aos lugares sagrados do Jubileu, realizar as obras de misericórdia e penitência, participar de missões populares, encontros de formação sobre o Concílio Vaticano II, visita aos doentes e idosos, redescobrir o valor penitencial das sextas-feiras etc. etc. Primeiramente é preciso sentir em nós a dor do pecado. Depois ter um verdadeiro arrependimento. Em seguida, buscar o Sacramento da Penitência (sem o qual não se pode lucrar as Indulgências). Realizar os modos de lucrar as Indulgências com todo sentimento de desapego ao pecado.

Assim sendo, o sermos Peregrinos de Esperança, vai transformando o nosso ser à medida em que espelhamos em nós a vida nova que nos vem do Cristo.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

Categorias
Artigos Voz do Pastor

O Bispo e o Papa

Durante este Tempo Pascal Deus nos permitiu viver acontecimentos especiais com a morte do saudoso Papa Francisco e a eleição e primícias do Pontificado de Leão XIV.

Naquela manhã de segunda-feira, 21 de abril, oitava da Páscoa fomos surpreendidos com a morte do Papa Francisco. O sentimento que experimentei foi surpresa até para mim mesmo, pois me senti órfão e ao mesmo tempo perguntando-me: para onde vou?  Eu mesmo me censurava dizendo-me: o que é isso? Que apego desnecessário! As horas daquele dia foram passando e então fui diagnosticando em mim aquele sentimento.

É verdade: o Pontificado do Papa Franciso foi marcante para mim. Os desafios lançados desde as suas primeiras palavras como Papa, a Evangelii Gaudium (com uma linguagem diferente), as Encíclicas sociais, os Sínodos…Tudo isso sempre foi para mim um apelo à conversão pessoal e pastoral. Algumas coisas não entendiam “de primeira”, mas depois refletindo entendia que não era heresia, que estava em comunhão com a fé e Tradição da Igreja.

No entanto, aquele sentimento, no dia 21 de abril, não era somente algo afetivo, mas também efetivo. Tenho 17 anos de serviço episcopal, dos quais 12 sob o Pontificado de Francisco. Não fiquei com medo do futuro, absolutamente. Tratava-se de um momento que, apesar de continuar sendo Sucessor dos Apóstolos, o Colégio Episcopal, estava sem a sua Cabeça visível nesta terra. O Ministério do Sucessor de Pedro estava temporariamente ausente. Foi aquela sensação que o meu ministério episcopal não estava, diria, pleno.

De fato, nos ensina a Lumen Gentium, Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II: “O Senhor Jesus, depois ter orado ao Pai, chamou a si os que ele quis e escolheu os doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar o Reino de Deus (Cf Mc 3,13-10; Mt 10,1-42); a estes os constituiu apóstolos (cf. Lc 6,13) sob a forma de colégio, isto é, de grupo estável, cuja presidência entregou a Pedro, escolhido dentre eles.  (cf Jo 21,15-17) (Lumen Gentium 19) Tal como, por disposição do Senhor, São Pedro e os demais apóstolos formam um só colégio apostólico, de maneira semelhante o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e os bispos, sucessores dos apóstolos, estão unidos entre si. (…). Mas o colégio episcopal não tem autoridade, se nele não se considera incluído, como cabeça, o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, permanecendo sempre íntegro o seu poder primacial sobre todos, tanto pastores como fiéis.”  (Lumen Gentium 22).

Para corroborar com esta doutrina explicitada no Vaticano II, temos a Exortação Apostólica “Pastores Gregis” de São João Paulo II, que foi publicada a partir do Sínodo dos Bispos sobre o serviço episcopal: “De igual modo, através da sucessão pessoal do Bispo de Roma ao bem-aventurado Pedro e de todos os bispos no seu conjunto aos apóstolos, o Romano Pontífice e os Bispos estão unidos entre si como um Colégio. (…) De fato, ele é (o bispo) constituído na plenitude do ministério episcopal pela consagração episcopal e pela comunhão hierárquica com a Cabeça do Colégio e com os membros, isto é, com o Colégio que sempre inclui sua Cabeça. (…). Porém, o afeto colegial só se realiza e exprime, de modo pleno, na ação colegial em sentido estrito, isto é, na ação de todos os Bispos unidos com a sua Cabeça pela qual exercem o poder pleno e supremo sobre toda a Igreja. Esta natureza colegial do ministério apostólico é querida pelo próprio Cristo. Por isso, o afeto colegial ou colegialidade afetiva vigora sempre entre os bispos como communio episcoporum e em alguns atos se exprime como colegialidade efetiva. (…). Princípio e fundamento desta unidade, tanto da Igreja como do Colégio dos Bispos, é o Romano Pontífice. (…) Cada Bispo – sempre em união com todos os irmãos no episcopado e com o Romano Pontífice – representa Cristo, Cabeça e Pastor da Igreja.”

(Pastores Gregis, 8)

Esta compreensão, existencial e sacramental, tornou-se para mim mais clara ainda, quando na tarde de 08 de maio, foi anunciada a eleição de Leão XIV. Naqueles momentos, antes mesmo do anúncio do eleito e do nome que ele havia escolhido, senti voltar aquela sensação do ministério “pleno”. Depois, sabendo quem era o eleito, sabendo um pouco da história, fui intuindo os caminhos de Deus na história. Não somente as suas primeiras palavras no balcão da Basílica de São Pedro, mas principalmente a sua homilia, na Sistina, com os cardeais, no dia 09 de maio, fizeram-me experimentar um sentimento de comunhão efetiva e afetiva.

Ainda que, após o assentimento à sua eleição, o Papa eleito, sendo já bispo, torna-se bispo de Roma, com tudo aquilo que está intimamente ligado a esta missão, a celebração de 18 de maio, “início do Pontificado”, é também cheia de significado nesta união afetiva e efetiva. “…a unidade da Igreja está radicada na unidade do episcopado, o qual, para ser uno, requer uma Cabeça do Colégio. De forma análogo a Igreja para ser una exige uma Igreja como Cabeça das Igreja, a de Roma, cujo bispo – sucessor de Pedro – é a Cabeça do Colégio. (…)O primado do bispo de Roma e o Colégio Episcopal são elementos próprios da Igreja universal, não derivados da particularidade das Igrejas, mas interiores a cada Igreja Particular. O fato de o ministério do Sucessor de Pedro ser interior a cada Igreja Particular é expressão necessária dessa fundamental e mútua interioridade entre Igreja universal e Igreja Particular.”  (Pastores Gregis 56)

Então, todos os meus sentimentos como bispo, não são coisas que podem ser chamadas banalmente de sentimentais. Tratam-se de sentimentos que denotam uma realidade existencial e sacramental – ousaria dizer ôntica. Visto, ainda, que sou um bispo diocesano, toda a Igreja Particular de Guarulhos, deve unir-se a este sentimento, para estarmos plenamente na comunhão e unidade da Igreja.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo diocesano

Categorias
Artigos Voz do Pastor

Peregrinos da Esperança ou Peregrinos de Esperança? – Parte 3

Nós, cristãos católicos, neste Ano Jubilar somos chamados a ser, sim, Peregrinos de Esperança. O Peregrino da Esperança é aquele que está em busca da Esperança que não decepciona. O Peregrino de Esperança já possui a Esperança e, portanto, dela transborda e manifesta os sinais da Esperança e a significa para a humanidade.

De fato, “…justificados pela fé, estamos em paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não é só. Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança a virtude comprovada, a virtude comprovada a esperança. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. (Rm 5,1-5)

Neste texto que inspira o Jubileu da Esperança, a primeira coisa que se nos apresenta e nos diferencia em sermos Peregrinos de Esperança e não Peregrinos da Esperança, é a outra virtude teologal que nele aparece: a fé. Duas vezes aparece a expressão “pela fé”. O próprio apóstolo Paulo em outros textos diz que a fé vem pelo ouvido e pela pregação. A fé que temos foi em nós infusa pela ação do Espírito Santo através da pregação da Igreja que ouvimos com nossos ouvidos.

A fé é a nossa resposta de adesão àquilo que nos foi pregado e entrou de modo avassalador em nossos corações, pois o anúncio da salvação por Jesus Cristo proporcionou-nos o encontro, não como uma ideia ou ideologia, mas com a pessoa deste nosso Deus, Senhor e Salvador e, que, de alguma maneira, transformou a nossa existência. A nossa “justificação” vem através desta fé, pois nossa adesão ao Senhor Jesus, faz-nos sentir amados e perdoados, não obstante a situação de morte e infelicidade que nos colocaram os nossos pecados. Isso, seguramente, não aconteceu somente uma vez, mas várias vezes, sempre que esta pregação reverberou e ainda reverbera dentro de nós.

Então, a primeira coisa que nos faz Peregrinos de Esperança é a nossa fé. A fé que vence o mundo, como nos diz São João. Esta fé tem um conteúdo, possui uma maneira de enxergar o mundo com os olhos de Deus e acreditar no amor do Pai, aquele amor que o “pai da mentira”, desde o princípio tenta fazer com que duvidemos. A vivência da nossa fé nos faz testemunhas do amor que é mais forte do que a morte. Nenhuma situação de morte neste mundo pode destruir este amor que acreditamos.

Convido a cada um e a cada uma a fazer memória em sua vida daquele ou daqueles momentos em que o anúncio de Jesus fez com que você acreditasse no amor, pois se sentiu amado e amada por Deus. Este é um primeiro passo para entendermos a nossa identidade de Peregrinos de Esperança e não de Peregrinos da Esperança.

A convocação e o anúncio deste Jubileu foram feitos pelo grande Peregrino de Esperança do nosso tempo: o Papa Francisco que terminou a sua peregrinação no último 21 de abril, não sem antes, no dia anterior, domingo da Páscoa da Ressurreição, ao se fazer presente na Praça de são Pedro, testemunhar que, mesmo na debilidade, podemos e somos Peregrinos de Esperança.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo Diocesano

Categorias
Destaques Diocese Voz do Pastor

Mensagem de Páscoa 2025 – Dom Edmilson Amador Caetano

“No primeiro dia da semana elas foram ao túmulo levando aromas…”

                 O túmulo é o símbolo da morte, símbolo do fim de todos os entraves da vida e símbolo de todas as coisas que não conseguimos vencer com as nossas forças.  Cada um pode aqui elencar os seus próprios fracassos e pecados que são comparáveis ao túmulo.

Além disso, podemos nos sentir imóveis, conformados e decepcionados com a falta de vivência dos valores do Reino na sociedade e vemos tantas conquistas desbaratadas por poderes mortíferos e a incapacidade de ter voz de anúncio do Reino, quando tantas vozes tentam sufocar a nossa fé. Tantos anos de trabalho evangelizador em Guarulhos e não vemos aparentemente fruto abundante.

As mulheres vão ao túmulo para um ritual costumeiro. Algo que pode transparecer como conformismo diante da morte que não pode ser vencida. São muitos os sofrimentos de morte em nossas vidas e vamos arcados com eles ao túmulo, como que nos conformando com as várias realidades para as quais nos sentimos inertes.

“Encontraram a pedra removida…não encontraram o corpo do Senhor Jesus.”

                A grande pedra removida e o túmulo vazio são sinais de que algo forte aconteceu.  Constatar primeiramente que a realidade de morte e fracasso pode ter novos desdobramentos é uma grande possibilidade de ir além. A primeira constatação que nos faz o anúncio pascal é que o “depósito da morte” está vazio. A morte não está ali dominando.

Quando vemos em nossas comunidades pessoas restauradas pelo amor misericordioso de Deus; jovens e adultos buscando a Palavra e serem iniciados na fé cristã; crianças animadas na catequese; uma Pastoral Familiar, com todas as suas expressões, que trazem a alegria do Evangelho da Família; jovens interessados no discernimento vocacional etc. Sentimos que, apesar do túmulo, a morte não está aí dominando.

“Cheias de medo, inclinaram o rosto para o chão…Ele não está aqui; ressuscitou…Lembrai-vos de como vos falou…É preciso que o Filho do homem seja entregue às mãos dos pecadores, seja crucificado, e ressuscite ao terceiro dia.”

Quando o improvável acontece, temos medo. Inclinamos o rosto para o chão, como reverência ao mistério ou assentimento à verdade dos fatos que não somos capazes de explicar. As palavras de Jesus, acolhidas verdadeiramente, vão nos esclarecendo e dando sentido até mesmo aos nossos momentos de fracasso e aparente derrota. Somente Jesus Cristo dá sentido à vida. Somente Jesus Cristo revela ao homem a grandeza do ser humano. Somente o anúncio da ressurreição, o anúncio do ressuscitado, nos faz caminhar por cima da morte. Somente este anúncio faz-nos passar da morte para a vida. Faz-nos fazer Páscoa.

“Elas lembraram-se das palavras de Jesus…anunciaram tudo isso aos onze, bem como a todos os outros.

É este anúncio reverberado em nós que que nos arranca ao medo e nos faz enxergar que para além dos poderes mortíferos, existe a vida que impera. Não há voz alguma que tente sufocar a nossa fé que possa imobilizar-nos. Assim, na força do ressuscitado, vamos adiante com todos os desafios e projetos de uma Igreja Sinodal que intensifica sua vida na comunhão, participação e missão.

“As outras mulheres que estavam com elas disseram-no também aos apóstolos; essas palavras, porém, lhes pareceram desvario, e não lhes deram crédito.”

Neste ano, no qual na Vigília Pascal, proclamamos este trecho do evangelho segundo Lucas, onde as mulheres são apresentadas como primeiras anunciadoras da ressurreição, mostrando-nos todo um processo que vai da decepção e do medo à força extraordinária do anúncio, apesar da incredulidade dos apóstolos. Quero recordar a importância da expressão de fé da alma feminina apresentada nas Escrituras, desde o Antigo Testamento aos relatos da ressurreição, passando pela atuação das mesmas na Igreja nascente até o Documento Final do Sínodo de 2024. Num dos trechos deste documento está dito:

“As mulheres constituem maioria daqueles que frequentam as igrejas e são, constantemente, as primeiras testemunhas da fé nas famílias. São ativas na vida das pequenas comunidades cristãs e nas paróquias; …contribuem para a investigação teológica e estão presentes em posições de responsabilidade nas instituições ligadas à Igreja…Há mulheres que exercem cargos de autoridade ou são responsáveis pela comunidade.”  (Documento Final 60).

Vejamos com olhar pascal as mulheres das nossas comunidades. A presença delas e seu testemunho de fé no ressuscitado faz-se presente nas nossas paróquias e comunidades, na vida consagrada, nas novas comunidades e nas diversas pastorais. Graças ao testemunho de fé de tantas mulheres o simbolismo do túmulo vai se redefinindo.

“Pedro…correu ao túmulo…viu apenas os lençóis…voltou para casa, muito surpreso com o que acontecera.”

Celebramos a Páscoa de 2025, ano jubilar da Esperança. Ao terminarmos as celebrações voltamos às nossas casas. Como estamos voltando? Transformados pela ressurreição e fortes para o anúncio, como as mulheres? Apenas surpresos como Pedro, indagando sobre os acontecimentos? Será que voltamos somente satisfeitos por termos cumprido o preceito, após as penitências da Quaresma e prontos para voltar ao modo antigo de vida, isto é, longe da comunidade, longe dos compromissos de vida cristã? Voltar como as mulheres seria o ideal. Voltar como Pedro seria um bom começo. Já a terceira possibilidade nos faria voltar para diante do túmulo com todo o seu antigo simbolismo.

FELIZ PÁSCOA!

O SENHOR RESSUSCITOU VERDADEIRAMENTE, ALELUIA!

+ Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo diocesano de Guarulhos

Categorias
Artigos Voz do Pastor

Peregrinos da Esperança ou Peregrinos de Esperança? Continuação…

A nossa reflexão continua a do último mês. Seria bom relê-la.

Leia: (Artigo – Março 2025)

Retomemos o texto inspirador do Jubileu da Esperança:

“…justificados pela fé, estamos em paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não é só. Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança a virtude comprovada, a virtude comprovada a esperança. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. (Rm 5,1-5)

O dom infuso da fé não pode estar desunido daquele da esperança. Faz parte do conteúdo da nossa fé gloriar-se “na esperança da glória de Deus”. A adesão e a vivência da nossa fé nos colocam em perspectiva escatológica, pois “se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens.” (1Cor 15,19) A vitória de Cristo em tudo e em todos é a esperança que nos move ao combate pela fé a cada dia. Nos faz ter sempre disposição renovada em realizar os sinais de esperança. É a nossa segurança. De fato, uma das imagens mais antigas para indicar a esperança é a âncora. Uma embarcação firmemente ancorada não soçobra mesmo nas mais furiosas tempestades.

A esperança da glória de Deus faz parte do conteúdo da fé exatamente pelo fato de não nos deixar inertes diante da situações que devemos enfrentar com a luz da fé. Entretanto, a virtude teologal da esperança torna-se completa em nós, exatamente, quando nos movemos pela fé, afinal nos recorda o apóstolo Tiago que a fé sem obras é morta. Esta é uma forma de entendermos a continuidade do texto da carta aos Romanos: “E não é só. Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança a virtude comprovada, a virtude comprovada a esperança.”

Para “ativar” em nós a virtude teologal infusa da esperança não podemos deixar-nos cair no imobilismo diante das respostas que somos chamados a dar, nas mais variadas e adversas situações. Combater pela fé e defender a fé fazem parte desta “ativação”.

O pecado da omissão, nas palavras, nas atitudes e nos atos, nos impede de ser Peregrinos de Esperança.

 

Dom Edmilson Amador Caetano, O. Cist.

Bispo diocesano

Categorias
Artigos Voz do Pastor

Peregrinos da Esperança ou Peregrinos de Esperança?

Nós, cristãos católicos, neste Ano Jubilar somos chamados a ser, sim, Peregrinos de Esperança. O Peregrino da Esperança é aquele que está em busca da Esperança que não decepciona. O Peregrino de Esperança já possui a Esperança e, portanto, dela transborda e manifesta os sinais da Esperança e a significa para a humanidade.

De fato, “…justificados pela fé, estamos em paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não é só. Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança a virtude comprovada, a virtude comprovada a esperança. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. (Rm 5,1-5)

Neste texto que inspira o Jubileu da Esperança, a primeira coisa que se nos apresenta e nos diferencia em sermos Peregrinos de Esperança e não Peregrinos da Esperança, é a outra virtude teologal que nele aparece: a fé. Duas vezes aparece a expressão “pela fé”. O próprio apóstolo Paulo em outros textos diz que a fé vem pelo ouvido e pela pregação. A fé que temos foi em nós infusa pela ação do Espírito Santo através da pregação da Igreja que ouvimos com nossos ouvidos.

A fé é a nossa resposta de adesão àquilo que nos foi pregado e entrou de modo avassalador em nossos corações, pois o anúncio da salvação por Jesus Cristo proporcionou-nos o encontro, não como uma ideia ou ideologia, mas com a pessoa deste nosso Deus, Senhor e Salvador e, que, de alguma maneira, transformou a nossa existência. A nossa “justificação” vem através desta fé, pois nossa adesão ao Senhor Jesus, faz-nos sentir amados e perdoados, não obstante a situação de morte e infelicidade que nos colocaram os nossos pecados. Isso, seguramente, não aconteceu somente uma vez, mas várias vezes, sempre que esta pregação reverberou e ainda reverbera dentro de nós.

Então, a primeira coisa que nos faz Peregrinos de Esperança é a nossa fé. A fé que vence o mundo, como nos diz São João. Esta fé tem um conteúdo, possui uma maneira de enxergar o mundo com os olhos de Deus e acreditar no amor do Pai, aquele amor que o “pai da mentira”, desde o princípio tenta fazer com que duvidemos. A vivência da nossa fé nos faz testemunhas do amor que é mais forte do que a morte. Nenhuma situação de morte neste mundo pode destruir este amor que acreditamos.

Convido a cada um e a cada uma a fazer memória em sua vida daquele ou daqueles momentos em que o anúncio de Jesus fez com que você acreditasse no amor, pois se sentiu amado e amada por Deus. Este é um primeiro passo para entendermos a nossa identidade de Peregrinos de Esperança e não de Peregrinos da Esperança.

Dom Edmilson Amador Caetano

Bispo diocesano

Categorias
Artigos Voz do Pastor

Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal

Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. A primeira coisa a recordar aqui é gramatical. Dizemos “perdoai-nos” (reflexivo, suplicante) e não “perdoai” (imperativo, como que ordenando). Quem é verdadeiramente filho de Deus, recebeu a natureza divina (revestiu-se de Cristo) e experimentou tantas e tantas vezes na vida o perdão. Deus é Aquele que perdoa e, se tenho a natureza de Deus, também sei perdoar. Tenho a capacidade de perdoar como um dom. Se não se vive de acordo com a natureza divina, não se é filho “do Pai que está nos céus”, mas se deixa conduzir pelo pai da mentira.

Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. É preciso distinguir e discernir entre ser tentado e cair em tentação. Jesus foi tentado, é verdade que para nós pecadores é muito tênue a linha que separa o ser tentado e cair em tentação. Remeto a dois textos bíblicos que, com uma boa Leitura Orante, podem nos ajudar: 1Cor 10,12-13 e Tg 1,2-15. Deus não nos tenta, mas permite a tentação em nossas vidas para que com firme decisão da nossa vontade, optemos e comportemo-nos como filhos do Pai que está no céu, pois estamos enxertados naquele que por nós foi tentado, Jesus Cristo, o Filho Unigênito do Pai.

A última parte desta petição do Pai nosso, mas livrai-nos do mal, é bem distinta da tentação. As tentações podem nos levar ao pecado. Há sempre possibilidade de conversão, se assim o quisermos. Entretanto, o MAL que aparece nesta petição do Pai Nosso não é simplesmente coisas ruins que nos podem acontecer. Aqui se trata de uma tentação especial, a tentação por excelência: a apostasia. Abandonar a fé, a confiança no amor do Pai. Este MAL é “personificado”, é o MALIGNO, satanás, o demônio, o pai da mentira que nos quer “arrancar” a filiação que recebemos. O grande momento desta tentação chega em nossa vida quando abandonamos a oração e buscamos “outros deuses”. Jesus não foi tentado somente no deserto, mas sua agonia no Getsêmani foi um terrível combate. Ele mesmo exorta seus discípulos e a nós: “Vigiai e orai para não entrar em tentação: o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mc 10,38)

Assim terminamos as breves reflexões sobre as petições do Pai Nosso que fizemos ao longo deste ano, como preparação para o Ano Jubilar de 2025. Não é possível ser “peregrinos de esperança” se o nosso coração não está entregue nas mãos misericordiosas do Pai. Que todos possamos iniciar em comunhão com a Papa Francisco o Ano Santo na Noite de Natal de 2024 e, em comunhão com toda a Igreja (todas as dioceses farão neste dia), no domingo dia 29 de dezembro, festa da Sagrada Família, às 15h, congregados na Igreja NS do Rosário (centro de Guarulhos) e fazermos a primeira peregrinação jubilar até a Catedral onde celebraremos a Eucaristia.

 

Dom Edmilson Amador Caetano

Bispo diocesano