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“O Senhor fez em mim maravilhas.” (Lc 1,49)

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"A Esperança não decepciona" (Rm 5,5)

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Músicos e Instrumentistas

Os músicos e instrumentistas podem oferecer uma grande contribuição para tornar os rituais litúrgicos mais condizentes com o mistério a ser celebrado. Através de sua atividade criativa, os músicos com sua arte de tocar ou compor ajudam o povo celebrante a entrar no mistério da salvação. Eles dão forma sonora aos momentos rituais que a comunidade celebra e têm a responsabilidade de cuidar da música, da palavra feito canção, do ritmo que envolve a comunidade num encontro único e espiritual que transcende a sua natureza. É o som e a palavra tornando-se um só movimento, um revestindo o outro e dando sentido à ação litúrgica. Assim, concordamos com Gelineau quando diz que: “o som se estiver só, escapa à inteligência discursiva. No culto cristão a pura execução de um instrumento não constitui jamais um rito propriamente dito.”80 É preciso que as palavras sejam envolvidas por uma melodia, um ritmo, uma interpretação e uma execução certa, no momento certo, de uma maneira que corresponda exatamente à mensagem do rito celebrado.

A Carta de São Paulo aos Coríntios“81 nos ajuda a perceber que tudo que se passar numa assembleia litúrgica deve visar a sua edificação. Assim, a música é um dos elementos a serviço da revelação e da profecia. Um canto de ação de graças pode ser muito bonito, mas se não serve para edificar a comunidade não tem utilidade naquela celebração. Se os músicos e instrumentistas não tiverem a compreensão da finalidade litúrgica da sua missão na celebração, estariam edificando a si próprios, e esta não é a finalidade deste ministério. Os carismas e dons são úteis quando colocados para o crescimento da comunidade, e não quando servem de ostentação de quem os recebeu. O apóstolo Paulo nos dá uma dica valiosa para que possamos cumprir essa função ministerial com grandeza: “salmodiai com o espírito, mas salmodiai também com a in-teligência.”82

Os santos padres da Igreja serviram-se também deste texto para afirmar que o canto litúrgico não fique apenas na mera sonoridade da voz externa, mas seja uma “expressão espiritual do cristão diante do Senhor”. A utilização instrumental na liturgia foi evoluindo conforme a compreensão de sua utilidade e se fundamenta principalmente no fato de que podem tornar o canto, ou tecnicamente mais fácil ou espiritualmente mais eficaz. E assim, muitas foram as reflexões acerca da sua utilização: “como o canto tem de ouvir-se sempre, o órgão e os instrumentos devem simplesmente sustentá-lo, e nunca encobri-lo”. João Paulo II também mostra preocupação e ressalva na utilização de instrumentos na liturgia: “É preciso, porém, vigiar a fim de que os instrumentos sejam aptos para o uso sacro, correspondam à dignidade do templo, possam sustentar o canto dos fiéis e favoreçam a sua edificação.”83

O Concilio Vaticano II abriu a possibilidade do uso de instrumentos musicais na liturgia, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente.“84 Esta abertura trouxe para os formadores diocesanos e paroquiais uma responsabilidade de formação para que estes músicos se preparem para o uso adequado destes instrumentos e exerçam de maneira digna a sua função ministerial.

Em muitos casos, há um grande desequilíbrio na relação dos músicos com a assembleia, com os cantores e grupos que se reúnem para preparar a celebração. A compreensão de atuação na liturgia dos músicos e instrumentistas se restringe, muitas vezes, ao ato de “se apresentar”, de “mostrar seus talentos” sem nenhuma comunhão eclesial e tão pouco com o grupo e a assembleia celebrante. Este desconhecimento e falta de comprometimento gera muitas desavenças, pois, entre eles, existem aqueles que foram convidados apenas para “tocar na missa” e não para fazer parte de uma comunidade que reza junto e que se prepara junto também. Desconhecem a grande importância que tem a sua missão de sustentar o canto da assembleia, dar um caráter festivo à ação litúrgica e ainda ressaltar a sacramentalidade da voz.

Fazer parte da assembleia é integrar-se no primeiro serviço, a primeira liturgia que Deus realizou para nós, na redenção realizada por Cristo. Os que estão envolvidos em uma celebração, seja exercendo uma função ministerial ou não, são seres celebrantes, povo convocado, assembleia dos chamados. Participar, tomar parte, é integrar-se no corpo de Cristo, comunidade dos fiéis, para partilhar a vida de cada dia onde o Verbo se encarna, ouvir a Palavra que transforma, receber o seu Espírito que nos torna suas testemunhas e o seu Corpo que alimenta nossa comunhão. E todo serviço da Igreja deve tornar-se parte da missão de Cristo, vivendo o compromisso com seu Reino para cantar o canto novo, como diz Sto. Agostinho: “É, pois, pelo canto novo que devemos reconhecer o que é a vida nova. Tudo isso pertence ao mesmo Reino: o homem novo, o canto novo, a aliança nova”. O canto novo é a expressão da comunidade que busca o Reino de Deus, a comunhão com Cristo no serviço aos irmãos. Agostinho continua:

“Ouvi-me, ou melhor, ouvi através do meu convite: Cantai ao Senhor Deus um canto novo. Já estou cantando, respondes. Tu cantas, cantas bem, estou escutando. Mas oxalá a tua vida não dê testemunho contra tuas palavras”85.

Também o músico-instrumentista deve dar testemunho profético em sua ação ministerial, pois este serviço mal executado impede a ação do “Espirito que canta em nós” na assembleia celebrante. Na liturgia, “o discípulo realiza o mais íntimo encontro com seu Senhor e dela recebe a motivação e a força máximas para a sua missão na Igreja e no mundo.”

Todos somos chamados a nos tornar “raça eleita, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido por Deus, para proclamar as obras maravilhosas daquele que chamou vocês das trevas para a sua luz maravilhosa.”86 O canto do povo é a voz principal no diálogo da esposa Igreja com seu esposo e Senhor. A utilização dos instrumentos deve ajudar a destacar este diálogo que acontece na Liturgia. O Senhor nos fala na Palavra proclamada, nós respondemos nas orações, nos salmos e cantos sem perder o foco, que é a participação da assembleia.

Após o Concilio Vaticano II, a Igreja se preocupou em criar possibilidades para fazer acontecer a grande revelação do Concilio: permitir ao povo reunido compreender a Palavra de Deus e a prece de ação de graças pela maravilha do mistério pascal. Surgiram então muitos compositores e grupos musicais para atender à natureza da música ritual que, a partir do Concílio, passou a fazer parte da liturgia. Formaram-se, assim, muitos grupos, bandas e ministérios de música nas diversas comunidades que, com seu jeito próprio, se colocaram nesta missão. Porém, o maior limite dessa participação é que muitos destes grupos se dispuseram a tocar e cantar “na liturgia” e não “a liturgia”, se “apropriaram” do espaço litúrgico, sem uma participação efetiva na comunidade e, aos poucos, foram incorporando nesta atuação repertórios musicais e comportamentos que não estavam cumprindo com o objetivo principal do rito celebrado. Assim, ao longo dos anos muitos abusos foram acontecendo. Muitos se apresentaram como bandas ou ministérios de música, mas poucos se identificaram como animadores do canto da assembleia. Ser ministro da música muitas vezes é compreendido como quem exerce uma função “para” a assembleia e não se considera “parte” dela e, se assim for, há um grande perigo de transformar a celebração em um “show”.

Caetana Cecília | Pe. Jair Costa

Comissão Diocesana de Liturgia / Música Litúrgica


80 GELINEAU, 1968, p.189

81 (1Cor 14,14-19.26)

82 1Cor 14,15

83 DOCUMENTOS…2017, p. 192

84 (cf. SC, n.120).

85 LITURGIA DAS HORAS, 2000, Sermão 34

86 1Pd 2, 9

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Ensaio com a Assembleia

Um dos maiores desafios do grupo de cantores litúrgicos é a formação de lideranças capazes de ensaiar, ensinar e tomar a assembleia sujeito da ação celebrativa. Isto é: tornar a premissa do Concilio Vaticano II uma realização da participação ativa e frutuosa dos fiéis: “Para promover a participação ativa, cuide-se de incentivar as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, bem como as ações, gestos e atitudes. Seja também observado, a seu tempo, o silêncio sagrado.”78

É desejo da Igreja que a participação ativa e consciente solicitada pelo Concilio Vaticano II alcance todo povo cristão, imbuído pelo espírito litúrgico, e celebre intensamente o mistério de Cristo como direito e obrigação, por força do batismo. Portanto é preciso que haja no grupo de cantores lideranças para conduzir a assembleia na participação com o povo de Deus. Para isso, é necessário investir numa formação específica para terem domínio das melodias, postura corporal condizente com o ambiente e a celebração, comunicação eficiente, respeito com a assembleia e ter consciência de que este é um momento de aprender e se encher do espírito, momento de preparação para celebrar e não para catequizar. Entender que o espaço litúrgico é um lugar onde a espiritualidade nos conduz a entender que a assembleia é corpo místico de Cristo e que todos, inclusive a equipe de canto e liturgia, fazem parte dele.

Pelo menos quinze minutos antes do início da celebração, tudo deve estar preparado. Não deve haver nenhuma correria, pois uma das tarefas do grupo de cantores é contribuir para criar um ambiente propício para celebrar. Iniciar a acolhida da assembleia com um refrão orante é um caminho eficaz para criar sintonia, inclusão e unidade. O ensaio com a assembleia é uma ferramenta necessária para criar sintonia e corpo entre as pessoas e sua realização exige uma preparação prévia para não gerar dispersão. Escolher um canto ou um refrão para ensaiar com o povo de maneira leve, sem dar broncas, conduzindo “o corpo místico” a uma experiência musical ritual desde aquele momento.

Durante a celebração, todos os envolvidos nos diversos serviços: coroinhas, leitores, cantores, ministros, instrumentistas, coordenadores, etc…) devem ter uma movimentação discreta e somente quando necessário. A movimentação durante a celebração sem ter uma razão distrai e cria um ruido desnecessário para todos dificultando a atenção e concentração. O destaque da música litúrgica é para a voz e não para o instrumento, que deve ter o papel de acompanhamento e sustentação da afinação e do ritmo. Os músicos devem silenciar quando não estão exercendo sua função.

O grupo de cantores e instrumentistas deve estar num lugar que manifeste claramente que faz parte da assembleia dos fiéis e desempenhe eficazmente a sua missão. Sua localização já indica sua real função. Se necessário, avaliar se a quantidade de músicos e cantores é apropriada para ocupar os espaços que, em muitos casos, são restritos. Se houver um coral, este não deve substituir o canto da assembleia, mas estar a serviço dela. Existem partes próprias de diálogo do coro com a assembleia, que podem ser eficientemente explorados. Assim sendo, o coral desempenhará um verdadeiro ministério litúrgico.

Qualquer que seja o grupo que esteja à frente da música na celebração, é preciso conhecer o perfil da Assembleia que está servindo para que na celebração, através do rito, a música encontre sua finalidade. Por isso, a responsabilidade de construir o “coro do Senhor” cria mais vitalidade quando se tem consciência do papel de “animadores” cheios do Espírito Santo, para dar alma e entusiasmo ao povo reunido em nome de Cristo. A palavra entusiasmo vem do grego “enthousiasmos” en (dentro) e theos (Deus), significando etimologicamente “ter Deus dentro de si”.79 Perceba que animação não é agitação, mas um entusiasmo movido pela ação divina que dá força profética na missão musical.


78 SC n.30.

 

79 A palavra entusiasmo deriva do grego “enthousiasmos” que significa “ter um Deus interior”. “Sou eu quem estou mandando que você seja firme e corajoso. Portanto, não tenha medo e não se acovarde, porque o Senhor seu Deus está com você aonde quer que você vá” Josué1,9

 

Caetana Cecília | Pe. Jair Oliveira

Comissão Diocesana de Liturgia / Música Litúrgica

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PREPARAÇÃO DA CELEBRAÇÃO

Ensaiar pra quê?

A liturgia é o modo através da qual a Igreja vive de Cristo e por Cristo, e faz os fiéis viverem para Cristo. Para que tudo isso aconteça através da ação litúrgica, é preciso que o mistério seja presença desde a preparação da equipe de liturgia, da equipe de cantores e instrumentistas e todos os envolvidos na ação celebrativa. Além da escolha dos cantos, há um outro requisito importante a ser considerado: a formação dos ministros e ministras da música ritual. Não basta ter boa vontade ou uma boa voz. É preciso uma formação e uma inserção numa comunidade, para que cantores e instrumentistas sejam ajudados a entrar no mistério e ser transformados por ele. A missão da equipe de música ritual é garantir a preparação da assembleia, para uma participação plena e consciente da liturgia através da música, como nos lembra a instrução do missal: “Compete ao cantor dirigir os diversos cantos, com a devida participação do povo”.

Nesta orientação, está implícita a dimensão sacramental do canto da Assembleia litúrgica: a unidade das vozes expressa a unidade da Igreja congregada no Espírito Santo. O canto da assembleia é, portanto, a manifestação externa da união dos corações na mútua caridade e o sinal da fraternidade espiritual entre os membros da assembleia reunida. Para cumprir sua missão, o canto não tem sentido na liturgia a não ser quando a comunidade se reúne, expressão do corpo místico do Senhor.

Os santos padres da Igreja, teólogos e pastoralistas dos primeiros séculos, nos alertam que o canto da assembleia seja uma participação real no canto celeste, pois os seres celestes também tomam parte do canto dos fiéis, na terra. Disso decorre o que vem descrito na conclusão do prefácio das Orações Eucarísticas, quando a assembleia celebrante é convocada a juntar sua voz à dos anjos e dos santos para cantar “a uma só voz” ao Deus três vezes santo. Afinal, enquanto peregrinos nesta terra, Deus nos permite experimentar essa realidade, na ação litúrgica, apesar de todos os limites humanos. Sobre o sentimento que gera uma comunidade que canta, São João Crisóstomo (Séc. IV), em uma de suas homilias, diz: “O salmo que acabamos decantar fundiu as vozes e fez subir um só canto, plenamente harmonioso: jovens e velhos, ricos e pobres, mulheres e homens, escravos e livres, todos não usaram senão de única voz”.

O ensaio das músicas em preparação à celebração é além de tudo um “estudo” musical e litúrgico para criar as condições técnicas e espirituais na ação do ministério a ser exercido, mas muitas comunidades e grupos estão deixando esta prática de lado. Porém, é através desta ação que ajudamos a assembleia dos cristãos a encontrar na liturgia o alimento de sua fé. O Papa João Paulo II, no Quirógrafo sobre a música litúrgica, nos encoraja a não improvisar quando se trata de música litúrgica.

“O aspecto musical das celebrações litúrgicas, portanto, não pode ser relegado nem à improvisação nem ao arbítrio de pessoas individualmente, mas há de ser confiado a uma direção harmoniosa, no respeito pelas normas e competências, como significativo fruto de uma formação litúrgica adequada”.

 

Caetana Cecília | Pe. Jair Oliveira

Comissão Diocesana de Liturgia / Música Liturgica