"O Senhor fez em mim Maravilhas" (Lc 1,49)

A morte nos ensina a viver

Uma reflexão sobre a finitude, a esperança e a comunhão dos santos.


 

Caríssimos irmãos,

Iniciamos o mês de novembro e, aos poucos, nos aproximamos do encerramento do ano litúrgico e, consequentemente, do ano civil. Em breve, iniciaremos o Advento, a Novena de Natal e os preparativos para as celebrações de fim de ano, além do tão esperado período de férias e descanso.

Novembro também é marcado por importantes campanhas de conscientização sobre a saúde masculina e por uma celebração muito significativa para a nossa fé: a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. É justamente sobre a morte, a finitude humana e a esperança cristã que gostaria de refletir com vocês.

Ao longo da história, diferentes áreas do conhecimento, como a Antropologia, a Psicologia, a Filosofia, a Sociologia e a Teologia, dedicaram-se a compreender a morte, os limites da existência humana e aquilo que pode existir para além dela.

Falar sobre a morte, entretanto, nem sempre é fácil. Muitas vezes, o assunto provoca desconforto e acaba se tornando um verdadeiro tabu, algo que evitamos colocar à mesa ou discutir abertamente.

Desde a infância, somos apresentados à morte, mas nem sempre de maneira adequada. Para amenizar a dor das crianças, utilizamos expressões fantasiosas, dizendo que a pessoa querida virou uma estrelinha, foi viajar ou que Deus precisou dela no céu. Na juventude, a morte costuma ser percebida como algo distante, pois essa fase da vida é marcada pela força, pelos sonhos, pela disposição e pelos projetos futuros. Na vida adulta, por sua vez, a morte frequentemente é interpretada como fracasso, perda ou interrupção dos planos.

Além disso, diante da morte, muitas vezes assumimos uma postura de julgamento. Quando alguém morre em decorrência de uma doença, podemos interpretar sua condição como uma derrota. Quando a causa é um acidente, procuramos identificar culpados, imprudências e responsabilidades. Quando a morte está relacionada ao uso excessivo de álcool, drogas ou a hábitos prejudiciais à saúde, não raramente responsabilizamos a própria pessoa, esquecendo-nos de que por trás daquela história também existem sofrimentos, fragilidades e circunstâncias que nem sempre conhecemos.

A morte, entretanto, não deve ser motivo para julgamentos. Cada existência possui uma história, e cada pessoa merece ser acolhida com dignidade, respeito e misericórdia.

AS PERGUNTAS QUE A MORTE NOS FAZ

Diante da morte, surgem questionamentos que atravessam a experiência humana e também a nossa fé:

  1. Por que precisamos morrer?
  2. Por que pessoas boas também morrem?
  3. O que acontece com aqueles que morreram?
  4. Onde estão os nossos entes queridos?
  5. Será que voltaremos a nos encontrar?
  6. O que será de nós depois da morte?
  7. Afinal, o que a morte tem a nos ensinar?

Essas perguntas podem receber diferentes respostas, conforme a perspectiva científica, filosófica, psicológica ou religiosa. Para nós, cristãos, a Palavra de Deus ilumina essa experiência com uma certeza fundamental: a morte não tem a última palavra.

Jesus nos apresenta a imagem do grão de trigo que precisa morrer para produzir frutos (Jo 12,24). Essa passagem nos convida a compreender que a vida também é feita de entrega, doação e transformação. Muitas vezes, somos chamados a morrer para o egoísmo, para o orgulho e para tudo aquilo que nos impede de amar verdadeiramente.

A Sagrada Escritura também nos revela um Deus bom, misericordioso e compassivo, que deseja a salvação de todos: “Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4).

A morte dos que amamos nos causa sofrimento, mas a fé nos permite olhar para além da ausência física e confiar na misericórdia de Deus.

ESTAR EM DEUS: NOSSA ESPERANÇA

Desde os primeiros anos de catequese, aprendemos a rezar olhando para o céu. Quando manifestamos um desejo, fazemos um pedido ou expressamos nossa esperança, frequentemente levantamos os olhos e dizemos: “Se Deus quiser!”.

Essa atitude também expressa nossa compreensão sobre o destino último da existência humana: estar com Deus, viver em Deus e participar de sua vida eterna.

Deus nos ama e deseja estar em comunhão conosco. A oração sacerdotal de Jesus expressa profundamente esse desejo: que todos permaneçam unidos a Ele, assim como Ele está unido ao Pai (Jo 17).

É nessa perspectiva que compreendemos a esperança cristã: nossos entes queridos não estão simplesmente reduzidos à lembrança ou à saudade. Confiamos que a vida não termina com a morte e que somos chamados à plenitude da comunhão com Deus.

Estar em Deus é experimentar o descanso, a paz e a plenitude que tanto buscamos durante nossa caminhada. É confiar que o amor de Deus é maior do que a própria morte.

A CULTURA DO ENCONTRO E A COMUNHÃO DOS SANTOS

Quando falamos em encontro, geralmente pensamos em presença física, em estar diante de alguém, compartilhar uma conversa, uma refeição ou um momento especial. Mas será que, mesmo estando fisicamente próximos, verdadeiramente temos nos encontrado? Em que momento nos perdemos uns dos outros?

A experiência da morte também pode nos ensinar a recuperar a cultura do encontro.

Reunimo-nos para celebrar a Missa de sétimo dia, recordar os trinta dias de falecimento ou marcar o aniversário de morte de alguém querido. Nessas ocasiões, famílias que muitas vezes estavam distantes voltam a se encontrar. Filhos, irmãos, parentes e amigos se aproximam para recordar histórias, celebrar a vida e preservar o legado de quem partiu.

Com o tempo, percebemos que o encontro com aqueles que morreram assume outra dimensão. Já não acontece na mesa do café da manhã, no almoço de domingo ou nas conversas cotidianas. Passa a ocupar um lugar especial em nossa memória, em nossas orações e em nosso coração.

Quando nos preparamos para encontrar alguém importante, escolhemos uma roupa especial, usamos nosso melhor perfume e, muitas vezes, levamos flores ou um presente. Da mesma maneira, precisamos preparar nossa vida para o encontro definitivo com Deus.

É justamente aqui que encontramos uma das mais belas expressões da nossa profissão de fé: “Creio na comunhão dos santos”.

Somos Igreja peregrina, caminhando neste mundo e buscando a santidade. A morte não interrompe a comunhão daqueles que pertencem a Cristo. A Igreja nos ensina a reconhecer essa comunhão entre os que ainda peregrinam na terra, aqueles que passam pela purificação e os que já contemplam a glória de Deus.

Nossa vocação à santidade começa no Batismo e encontra sua plenitude na vida eterna. Não se trata de uma conquista baseada em méritos pessoais ou em uma espécie de meritocracia espiritual, mas de um dom gratuito, sustentado pela graça e pela misericórdia de Deus.

Acreditar que um dia nos encontraremos novamente não significa ignorar a dor da separação. Significa reconhecer que o amor verdadeiro não se limita à presença física e que nossa esperança está fundamentada na promessa de Cristo.

Será, sem dúvida, um dos mais belos encontros: estar na Casa do Pai, participar de sua mesa e experimentar a plenitude de seu amor.

Diante dessa esperança, fica uma pergunta para nossa reflexão: com que vida estamos nos preparando para esse encontro?

O LUTO E A EXPERIÊNCIA DA DOR

A morte provoca o luto, uma experiência humana que não se limita à perda de alguém. Também podemos vivenciar processos de luto diante do desemprego, do envelhecimento, das mudanças, do crescimento dos filhos e de tantas outras situações que representam rupturas em nossa história.

A psiquiatra e escritora Elisabeth Kübler-Ross tornou conhecidos cinco estágios frequentemente associados ao processo de luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

É importante compreender que esses estágios não acontecem necessariamente nessa ordem, nem são vividos por todas as pessoas da mesma maneira. O luto é uma experiência singular, que exige tempo, acolhimento, respeito e, quando necessário, acompanhamento profissional.

Não existe um prazo determinado para deixar de sentir saudade ou tristeza. Aprender a conviver com a ausência não significa esquecer quem partiu, mas encontrar novas maneiras de continuar vivendo, preservando o amor e as lembranças.

É a partir dessa experiência que podemos retomar nossas últimas perguntas: o que será de nós depois da morte? E, sobretudo, o que a morte nos ensina?

A MORTE NOS ENSINA A VIVER

A morte não nos ensina apenas sobre o descanso do corpo e a esperança da alma em Deus. Ela nos ensina, principalmente, a reconhecer o valor da vida enquanto ainda temos a oportunidade de vivê-la.

Diante de uma celebração exequial ou de uma homenagem a alguém querido, frequentemente fazemos promessas, renovamos propósitos e voltamos para casa com o desejo de sermos pessoas melhores. A dor da despedida nos faz perceber aquilo que, muitas vezes, deixamos para depois: amar, perdoar, abraçar, agradecer, estar presente e ser feliz.

Diante da morte, compreendemos que não queremos apenas existir, mas viver verdadeiramente. Queremos amar e ser amados, construir histórias, fortalecer vínculos e deixar boas lembranças.

A morte nos recorda que o tempo é precioso e que não podemos desperdiçar a oportunidade de fazer o bem.

Somos seres finitos, conscientes de que nossa existência terrena tem um limite. Entretanto, para nós, cristãos, essa consciência não deve produzir desespero, mas esperança e responsabilidade diante da vida.

A morte nos ensina a viver!

Por isso, sejamos livres e generosos nas homenagens aos nossos entes queridos que partiram. Utilizemos flores, orações, camisetas, fotografias, publicações, encontros familiares e momentos de reflexão. Todas essas manifestações podem expressar o carinho, a saudade e a gratidão por aqueles que fizeram parte de nossa história.

Mas que nossas homenagens não sejam apenas recordações de quem partiu. Que também sejam compromissos com aqueles que permanecem conosco. Que saibamos abraçar enquanto há tempo, perdoar enquanto há oportunidade, amar enquanto podemos e valorizar cada encontro.

Que a saudade nos aproxime de Deus e que a esperança da ressurreição ilumine nossa caminhada.

Afinal, aqueles que amamos e que partiram permanecem vivos em nossa memória, em nossa história e, conforme professamos em nossa fé, na esperança da vida eterna em Deus.

Porque, para quem acredita na ressurreição, a morte não é o fim da história. É a esperança de um novo encontro.

 

Pe. Johnny William Bernardo

Pós-graduado em Tanatologia, Luto e Fenômenos da Morte.

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