"O Senhor fez em mim Maravilhas" (Lc 1,49)

50 anos de fidelidade ao Chamado de Deus

Jubileu de Ouro de Vida Consagrada – Irmã Clarícia Gramarin

 “Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor.” Sl 88


Queridos irmãos e irmãs,

Estamos reunidos para celebrar um mistério de graça. Cinquenta anos de vida religiosa não são apenas uma data comemorativa, nem a contagem de anos de serviço. Celebramos, acima de tudo, a fidelidade de Deus. Antes de contemplarmos a perseverança da Irmã Clarícia, somos convidados a contemplar, Aquele que permaneceu fiel em todos os momentos da sua caminhada.

O refrão do Salmo 88, torna-se o hino desta celebração: “Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor.” Quem chega ao Jubileu de Ouro pode olhar para trás e reconhecer que, em cada passo da caminhada, havia uma mão invisível sustentando, fortalecendo e conduzindo, essa mão é a mão do Senhor.

A primeira leitura, (Is 41, 9-10; 43,1; 46,4) do profeta Isaías, leva-nos ao coração de toda vocação. Deus toma a iniciativa. É Ele quem diz: “Eu te escolhi; não te rejeitei. Não tenhas medo, porque eu estou contigo.”  (Is, 41,9-10).Toda vocação nasce dessa iniciativa amorosa de Deus. Ninguém se faz religioso por si mesmo. É Deus quem olha, chama, seduz e conquista o coração. Antes que alguém responda “sim”, Deus já havia pronunciado esse chamado no silêncio do seu amor.

Há cinquenta anos, o Senhor pronunciou um nome: Clarícia Gramarin. Não chamou apenas uma jovem; chamou uma mulher para viver totalmente para Ele, para fazer da própria vida um sinal do Reino, um testemunho do Evangelho e uma oferta de amor à Igreja.

 

O Salmo 88: “Cantar eternamente o amor de Deus”! Depois da Palavra de Isaías, a Igreja responde: “Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor.” Percebamos que o salmista não diz que cantará suas próprias conquistas. Ele canta o amor de Deus.

O Salmo responsorial nos recorda Davi que diz: “Encontrei e escolhi meu servo…Minha mão estará sempre com ele. “Deus não escolhe pelos critérios das aparências, da posição ou do prestígio; Ele olha o coração”! (1Sm 16,7). O mesmo Deus que escolheu Davi escolheu também você Irmã Clarícia. A eleição nunca é privilégio. É missão. É serviço. É responsabilidade.

Ao recordar estes cinquenta anos, podemos dizer que Deus cumpriu sua promessa sobre você Irmã Clarícia: Sua mão nunca deixou de sustentá-la. Quando parecia faltar força, Deus foi sua força. Quando surgiam dificuldades, Deus renovava sua esperança. Por isso hoje não celebramos apenas cinquenta anos de profissão religiosa. Celebramos cinquenta anos da Tua fidelidade há Deus.

O Evangelho de hoje (Mt 10,1-7) aprofunda maravilhosamente este mistério. São Mateus poderia simplesmente dizer que Jesus escolheu doze discípulos. Mas não! Ele faz questão de escrever um por um dos seus escolhidos: Simão, André, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus… cada nome é importante; …e porque não recordamos as mulheres que seguiam Jesus entre elas, Maria Madalena Apóstola dos Apóstolos, foi a primeira testemunha da Ressurreição. (Jo 20,17).

Vimos nos Evangelhos, Jesus foi acompanhado por um grupo de mulheres desde o início de sua missão na Galileia. Elas receberam curas, testemunharam seus milagres, viajaram com o grupo e sustentaram o ministério com seus próprios recursos.

As principais seguidoras citadas nominalmente incluem Joana: a Mulher de Cuza, que era administrador do palácio de Herodes Antipas , ela viajou com Jesus até Jerusalém e esteve entre as testemunhas da ressurreição. Suzana: Também acompanhava o grupo e ajudava a amparar o ministério com seus bens. Maria, mãe de Tiago (menor) e de José: citada nos relatos da crucificação e do sepultamento. Salomé: Mãe dos apóstolos Tiago e João (filhos de Zebedeu), que seguiu Jesus desde a Galileia e o serviu. (Mt 27,55-56; Mc 15,40-41).

O Evangelho de Lucas destaca que, além dessas mulheres citadas, havia “muitas outras” que auxiliavam Jesus e os doze apóstolos. A presença feminina no grupo quebrava os costumes da tradição da época. (Lc 8,2-3). Porque Deus chama pessoas e não números. Deus conhece rostos, histórias, lágrimas, sonhos e fragilidades. A vocação nunca é anônima; Jesus Cristo chama pelo nome. Ele quer dar identidade os seus vocacionados e vocacionadas.

É comovente imaginar que, se esta página do Evangelho fosse escrita hoje para esta celebração, depois da lista dos Doze poderíamos ouvir, espiritualmente, mais um nome ecoando no coração de Cristo: “Clarícia!” Há cinquenta anos, esse nome foi pronunciado pelo Senhor. E, como Maria na Anunciação, ela respondeu com generosidade: “Eis-me aqui.” Lc 1,38)

Mas o Evangelho  de hoje nos revela algo ainda mais profundo. Jesus não chama os discípulos para que permaneçam olhando para si mesmos, mas para enviá-los em missão. Depois de chamá-los, Jesus envia-os: “Ide e anunciai o Reino dos Céus está próximo!” (Mt 10,7)

Jesus não envia os Doze levando ouro, poder ou prestígio. Envia homens que levam apenas a autoridade recebida do próprio Cristo. Também a vida religiosa não se apoia nas seguranças do  mundo. Sua maior força sempre foi a confiança naquele que chama. Durante cinquenta anos, a irmã Clarícia caminhou sustentada por essa certeza; quem envia também acompanha.

“A Vida Consagrada é uma Confissão de amor da Trindade”, porque manifesta ao mundo o amor do Pai que chama; a configuração ao Filho que convida ao seguimento e a ação do Espírito Santo que sustenta a fidelidade. Assim, cada vocação consagrada torna-se um reflexo da comunhão divina”. (Doc. Vita Consecrata nº 16-19 )

Durante cinquenta anos, a Irmã Clarícia procurou viver exatamente esse envio. Em cada comunidade, em cada serviço, em cada gesto escondido, em cada pessoa acolhida, anunciou que Deus continua amando seu povo. Talvez não tenha realizado feitos extraordinários aos olhos do mundo. Mas realizou aquilo que Deus mais deseja: permaneceu fiel. E a fidelidade cotidiana é um dos maiores milagres da graça recebida.

“A Vida Consagrada torna visível o próprio modo de viver de Cristo: casto, pobre e obediente. Ela é memória viva de Jesus e sinal profético do Reino de Deus no meio da humanidade”. É precisamente isso que celebramos hoje. Celebramos uma vida configurada a Cristo. Os votos religiosos não são renúncias estéreis.

São uma forma concreta de amar. “A obediência testemunha que a vontade de Deus conduz sempre à verdadeira liberdade. A pobreza proclama que Deus é a verdadeira riqueza. A castidade anuncia que existe um amor maior que todos os afetos humanos”. (Doc. Vita Consecrata nº 21-22)

Esses votos não diminuem a pessoa humana, mas a tornam mais disponível para Deus e para os irmãos e irmãs. Como recordava o saudoso Papa Francisco, “fidelidade é renovar a cada dia o primeiro amor. Celebramos, portanto, cinquenta anos de “sim”, de recomeços e de confiança de que vale a pena seguir a Cristo”.

Neste sentido poderíamos dizer também que, cinquenta anos de Vida Consagrada da irmã Clarícia, significam milhares de Eucaristias celebradas ou participadas, incontáveis horas de oração, comunidades onde se viveu a fraternidade, rostos encontrados na missão, lágrimas enxugadas, crianças educadas na fé, enfermos visitados, pobres acolhidos. Tudo isso talvez não apareça nos livros da história, mas está gravado no coração de Deus.

Nesta celebração, não podemos deixar de contemplar aquela que é o modelo perfeito de toda vida consagrada: a Virgem Maria. Quando o Anjo pronunciou seu nome, Maria respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor.” Depois desse “sim”, colocou-se imediatamente a caminho para servir. Também a vida religiosa nasce de um “sim” que se torna missão. (Doc. Vita Consecrata nº 28)

A eucaristia celebrada hoje torna-se, assim, um novo “sim” da irmã Clarícia ao Senhor que continua chamando e enviando seus discípulos para anunciar que o reino  dos céus está próximo. Maria permaneceu fiel aos pés da cruz. Assim também a religiosa permanece fiel nas alegrias e nas provações, sustentada apenas pela certeza de que Deus jamais abandona aqueles que chama.

Querida Irmã Clarícia, hoje a Igreja não apenas lhe presta uma homenagem. Ela rende graças a Deus pela sua vida. Obrigado pelas orações silenciosas. Obrigado pelas renúncias que somente Deus conhece. Obrigado pelas comunidades que a senhora ajudou a construir. Obrigado pelas pessoas que reencontraram esperança através do testemunho de sua vida que “só Deus basta”.

A vida consagrada só pode ser compreendida à luz do amor que nos amou por primeiro. Ninguém persevera cinquenta anos na entrega, na missão, na oração e no serviço apenas por obrigação ou costume. O que sustenta uma vocação por tantos anos é um grande verdadeiro amor: o amor de Deus experimentado no coração e correspondido na entrega da própria vida a cada dia aos irmãos e irmãs.

Irmã Clarícia, quando o Senhor a chamou há cinquenta anos, talvez não pudesse imaginar os caminhos que percorreria. Hoje, olhando para trás, percebe que cada passo foi conduzido pala providência Divina!

E olhando para frente, continua ouvindo a mesma voz do mestre que há cinquenta anos, ecoou em seu coração “segue-me”, e você irmã Clarícia ouvi-o o chamado de Jesus e continua respondendo com fidelidade. (Mt 9,9)

Enquanto houver vida, haverá missão; enquanto houver missão; haverá anúncio do Reino; enquanto houver Reino; haverá motivo para cantar: Mantra – “ Tudo por causa de um grande amor!   + Amém!


 

Padre Genésio Pereira da Silva

Vigário – Paróquia N. Sra. de Fátima – Vila Fátima

NOTÍCIAS E ARTIGOS