"O Senhor fez em mim Maravilhas" (Lc 1,49)

Pastoral do surdo apresenta sua caminhada e propostas ao Clero da Diocese de Guarulhos

No dia 7 de outubro, no Seminário Diocesano Imaculada Conceição, durante a reunião mensal do Clero da Diocese de Guarulhos, foi realizada a apresentação da Pastoral do Surdo, com o objetivo de compartilhar sua história, sua atuação pastoral, os desafios enfrentados e as propostas de trabalho para os próximos anos.

Estiveram presentes o assessor eclesiástico, Pe. Johnny Bernardo; a coordenadora, Keith Silene Gama Ribeiro; a vice coordenadora, Valdinea Maria Reis; e o colaborador Sandro, pessoa surda, residente na cidade de São Bernardo do Campo.

Em um primeiro momento, a equipe reuniu-se com o bispo diocesano, Dom Edmilson, que acolheu prontamente a iniciativa e solicitou que o trabalho da Pastoral fosse apresentado aos padres e diáconos da Diocese, favorecendo, assim, sua divulgação e articulação junto às comunidades paroquiais.

HISTÓRIA E IDENTIDADE DA PASTORAL DO SURDO

A Pastoral do Surdo é um organismo de evangelização vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cuja atuação foi se expandindo pelo território nacional a partir de 1950, com a missão de anunciar o Evangelho e promover a participação das pessoas surdas na vida da Igreja. Atualmente, seu bispo referencial em âmbito nacional é Dom Adilson Pedro Busin. No Regional Sul 1, onde está situada a Diocese de Guarulhos, o bispo assessor é Dom Moacir Aparecido de Freitas.

Na Diocese de Guarulhos, a Pastoral do Surdo iniciou suas atividades em 2013. Ao longo desses anos, desenvolveu diversas iniciativas em diferentes regiões do território diocesano, entre elas: catequese, meditação do Santo Terço e tradução e interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras) das celebrações e dos sacramentos, especialmente Matrimônio, Eucaristia, Crisma e Reconciliação.

Além das atividades diocesanas, a Pastoral também participa de encontros e iniciativas em âmbito estadual e nacional, como a Romaria Nacional da Pastoral do Surdo ao Santuário Nacional de Aparecida, realizada anualmente em setembro, e o ENAPAS (Encontro Nacional da Pastoral do Surdo).

SETEMBRO: MÊS DE VALORIZAÇÃO DA COMUNIDADE SURDA

Em setembro de 2026, aconteceu, no Santuário Nacional de Aparecida, a 46ª Romaria Nacional da Pastoral do Surdo. Na Diocese de Guarulhos, tivemos a presença do assessor nacional, Pe. Wilson Czaia, que, juntamente com o Pe. Johnny Bernardo, participou da celebração da Santa Missa na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Inocoop, realizando a tradução e interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

O mês de setembro é especialmente significativo para a comunidade surda, pois reúne importantes datas de conscientização e valorização da língua de sinais e da identidade surda: 23 de setembro, Dia Internacional das Línguas de Sinais; 26 de setembro, Dia Nacional dos Surdos; e 30 de setembro, Dia Internacional do Tradutor e Intérprete.

Essas datas constituem uma oportunidade para fortalecer a conscientização social e eclesial sobre a importância da acessibilidade, da inclusão e do reconhecimento da Libras como língua de comunicação, expressão e evangelização.

DESAFIOS E PERSPECTIVAS PASTORAIS

Entre os principais desafios identificados pela Pastoral do Surdo, tanto em âmbito estadual e nacional quanto na realidade de nossa Diocese, destacam-se:

  1. Ampliar a participação das pessoas surdas nos momentos celebrativos e na vida comunitária da Igreja.
  2. Expandir a oferta de missas e catequeses acessíveis, inclusivas e participativas, contemplando crianças, jovens e adultos surdos.
  3. Identificar e promover a participação das pessoas surdas residentes no município e no território da Diocese de Guarulhos.
  4. Construir uma cultura de acolhimento, respeito e acessibilidade, envolvendo os agentes de pastoral, as lideranças e toda a assembleia litúrgica.
  5. Desenvolver uma proposta de catequese específica para pessoas surdas, em consonância com o caminho de inspiração catecumenal, respeitando suas particularidades linguísticas e culturais.

Diante desses desafios, a Pastoral pretende fortalecer sua atuação por meio das seguintes iniciativas:

  1. Promover a formação de catequistas bilíngues, capacitados para acompanhar pessoas surdas no processo de iniciação à vida cristã.
  2. Desenvolver estudos bíblicos destinados às pessoas surdas e aos intérpretes de Libras.
  3. Oferecer tradução e interpretação em Libras nas missas, celebrações e eventos diocesanos.
  4. Realizar formações on-line e presenciais para agentes de pastoral, com previsão de início em março de 2027.
  5. Promover formação presencial para seminaristas e religiosos da Diocese, utilizando materiais específicos sobre a linguagem litúrgica e sacramental em Libras.

DIÁLOGO, ESCLARECIMENTOS E PARTICIPAÇÃO DO CLERO

Durante aproximadamente 40 minutos, a equipe apresentou a trajetória histórica da Pastoral do Surdo, sua caminhada na Diocese de Guarulhos, as atividades realizadas, os desafios atuais e as perspectivas para o futuro. O momento também foi marcado por questionamentos e contribuições dos participantes.

Entre as questões levantadas, destacaram-se duas: a primeira dizia respeito à maneira como deve ser realizada a confissão sacramental de uma pessoa surda; a segunda tratava de como a Pastoral poderá colaborar diante das necessidades pastorais da Diocese.

Em relação à primeira questão, foi esclarecido que existem diferentes possibilidades de comunicação durante o sacramento da Reconciliação, considerando as particularidades de cada pessoa surda. Entre elas, podem ser utilizados recursos escritos, como perguntas e respostas, a leitura labial, quando possível, e a presença de um intérprete de Libras, observando-se rigorosamente o sigilo sacramental e as disposições do Direito Canônico.

Quanto à segunda questão, a Pastoral reafirmou sua disponibilidade para colaborar com as necessidades diocesanas, oferecendo formações, assessorias e serviços de tradução e interpretação, conforme as solicitações dos párocos e coordenadores pastorais.

UM APELO À COMUNHÃO, AO ACOLHIMENTO E À EVANGELIZAÇÃO

A Pastoral do Surdo dirige um apelo especial a todas as paróquias, aos agentes de pastoral e a todo o povo de Deus: é necessário construir uma verdadeira cultura de busca, encontro, empatia, acolhimento e divulgação. Não basta esperar que as pessoas surdas procurem nossas comunidades; é preciso que a Igreja também vá ao encontro delas, reconhecendo suas necessidades, valorizando sua identidade e garantindo sua participação na vida eclesial.

A Palavra de Deus precisa ser anunciada a todos os povos, sem distinção. No livro dos Atos dos Apóstolos, encontramos o relato do encontro de Filipe com o eunuco etíope, que, ao ler as Escrituras, questiona: “Como poderei entender, se alguém não me explicar?” (At 8,31). Esse episódio nos recorda a importância do acompanhamento, da comunicação e da mediação para que todos possam compreender e acolher a Palavra de Deus. Assim também, as pessoas surdas não podem ficar à margem desse anúncio: elas precisam ter acesso à Palavra, à catequese, à liturgia e à vida comunitária.

Por fim, a Pastoral reforça a importância da comunhão e do diálogo com os pais e responsáveis por crianças, jovens e adultos surdos, especialmente aqueles que ainda utilizam uma comunicação predominantemente familiar, muitas vezes denominada “sinalização caseira”. Esse diálogo é fundamental para favorecer o contato com a Libras, ampliar as possibilidades de comunicação e promover a integração dessas pessoas na comunidade eclesial.

A missão da Igreja é anunciar Jesus Cristo a todos. Por isso, a acessibilidade não deve ser compreendida apenas como uma adaptação, mas como uma expressão concreta de comunhão, acolhimento e compromisso evangelizador. Afinal, todos têm o direito de ouvir, compreender, celebrar e viver a Palavra de Deus, cada um em sua própria língua e realidade.

 

Pe. Johnny Bernardo

Assessor Diocesano da Pastoral do Surdo

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