Falar sobre o suicídio entre os presbíteros exige, antes de tudo, recordar uma verdade que às vezes esquecemos: o padre é um ser humano. Chamado a anunciar o Evangelho, celebrar os sacramentos e cuidar do povo de Deus, ele continua sendo alguém que experimenta cansaço, medo, solidão, crises e fragilidades. Não é herói, muito menos um deus. É um homem chamado por Deus, sustentado pela graça e necessitado, como todos, de cuidado.
A figura de Judas Iscariotes pode ajudar-nos a compreender a gravidade de uma esperança perdida. Mesmo tendo caminhado com Jesus e pertencido à comunidade dos Doze, Judas não conseguiu reconhecer outro caminho depois de sua traição. O Evangelho apresenta seu remorso e sua morte, mas não nos autoriza a transformar sua história em sentença definitiva sobre sua pessoa. O próprio Catecismo recorda que não se deve desesperar da salvação daqueles que atentaram contra a própria vida, pois somente Deus conhece plenamente o coração humano e as circunstâncias que envolvem cada existência.[1]
Também o presbítero pode chegar a um momento em que o sofrimento se torna silencioso. A rotina pastoral, a excessiva disponibilidade, a dificuldade de reconhecer limites, o isolamento e a cobrança por corresponder a um ideal sacerdotal podem produzir um processo de esgotamento. Sanagiotto chama atenção para aquilo que denomina “neurose pastoral”, marcada, entre outros fatores, pelo pouco tempo para si, pelo excesso de trabalho e pelo isolamento do presbitério.[2] Quando o sacerdote passa a acreditar que precisa resolver tudo sozinho, o ministério pode deixar de ser lugar de realização e transformar-se em fonte de profundo sofrimento.
Por isso, é necessário abandonar a imagem do padre que nunca pode fraquejar. Reconhecer limites não diminui a grandeza do sacerdócio, mas é capaz de humanizá-lo. As próprias Diretrizes da CNBB para a formação dos presbíteros ressaltam o conhecimento de si, o reconhecimento das qualidades, defeitos e limites e a importância do acompanhamento personalizado e da psicoterapia.[3] Buscar ajuda não é sinal de fracasso na vocação, mas expressão de responsabilidade diante do dom da própria vida.
Nesse caminho, as virtudes teologais oferecem um horizonte de reconstrução. A fé recorda que Deus permanece presente; a caridade conduz ao cuidado e à fraternidade; e a esperança impede que o sofrimento seja considerado a palavra definitiva. Como ensina o Papa Francisco, a esperança nasce do amor de Cristo e não se reduz a uma espera passiva.[4] É preciso “esperançar”: criar vínculos, partilhar a vida, permitir-se ser acompanhado e reconhecer que ninguém precisa atravessar sozinho as noites da existência.
A fraternidade presbiteral, portanto, não pode ser apenas uma ideia bonita, mas uma prática concreta. Um irmão que pergunta “como você está?”, uma mesa compartilhada, uma conversa sincera ou a coragem de procurar ajuda podem tornar-se instrumentos de preservação da vida. Fé e cuidado psicológico não se excluem; espiritualidade e ciência podem caminhar juntas.
Cuidar do padre é também cuidar da Igreja. Quando permitimos que o presbítero seja simplesmente homem, com sua força e sua fragilidade, abrimos espaço para que a graça encontre uma humanidade verdadeira. E talvez seja justamente aí que a esperança comece novamente a nascer.
Diácono Luis Henrique da Silva Santos
Paróquia N. Sra. Aparecida – Cocaia
[1] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Brasília: CNBB, 2022, n. 2282-2283.
[2] SANAGIOTTO, Vagner. Padres exaustos: a síndrome de burnout no contexto eclesial brasileiro. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023, p. 21.
[3] CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja no Brasil: Documento 110. Brasília, DF: Edições CNBB, 2019, n. 130 e 185.
[4] FRANCISCO, Papa. Spes non confundit: Bula de proclamação do Jubileu Ordinário 2025. Brasília: Edições CNBB, 2024, n. 1 e 3.


