Talvez a maior pobreza do nosso tempo não seja material, mas existencial: a de um coração que já não sabe onde encontrar morada. Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão expostos à solidão. Em meio à velocidade das informações, à cultura do desempenho e ao excesso de estímulos, cresce silenciosamente uma pergunta que atravessa o coração humano: onde ainda posso ser verdadeiramente acolhido?
Viktor Frankl observava que o ser humano não sofre apenas pela dor ou pela ausência de bens, mas sobretudo quando perde a percepção de que sua vida possui um significado. O vazio existencial nasce quando deixamos de reconhecer um horizonte capaz de sustentar a esperança. Por isso, a busca mais profunda do homem não é simplesmente por respostas, mas por um lugar onde sua existência seja reconhecida, amada e chamada a florescer.
É precisamente nesse cenário que as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2026–2032), reunidas no Documento 114 da CNBB, oferecem uma das imagens mais belas de todo o seu percurso: a ‘Tenda do Encontro’. A escolha dessa expressão não é casual. Ela remete ao Êxodo, quando Deus armava sua tenda no meio do povo, caminhando com ele em sua travessia. Ao retomá-la, as Diretrizes recordam que a vocação mais profunda da Igreja não consiste em preservar estruturas, mas em tornar visível a proximidade de Deus na história, fazendo de cada comunidade um espaço de acolhida, comunhão, discernimento e missão.
Essa imagem encontra sua plenitude no próprio Cristo. O Evangelho de São João afirma que o Verbo “armou sua tenda entre nós” (cf. Jo 1,14). Antes de anunciar uma doutrina, Deus veio habitar a nossa condição humana. A evangelização nasce exatamente desse movimento: não da ocupação de espaços, mas da criação de encontros; não da imposição de discursos, mas da presença que cura, escuta e restitui a dignidade. Cristo permanece o centro da ação evangelizadora porque somente Ele responde plenamente à sede de sentido inscrita no coração humano.
Essa é também a inspiração da conversão pastoral proposta pelas Diretrizes. A sinodalidade não pode ser reduzida a um método de organização ou a uma forma de gestão eclesial. Trata-se, antes de tudo, de uma espiritualidade. Caminhar juntos significa aprender novamente a escutar: escutar a Palavra, escutar o Espírito Santo e escutar as pessoas concretas, sobretudo aquelas cujas vozes raramente encontram espaço em nossas comunidades. A escuta torna-se, assim, a primeira expressão da caridade e o início de toda autêntica evangelização.
Nessa mesma direção, o Papa Leão XIV recordou, no Angelus do I Domingo da Quaresma de 2026: “Silenciemos um pouco as televisões, os rádios, os smartphones e os computadores, para entrar no nosso quarto e encontrar o Senhor que nos espera no segredo; escutemos a sua Palavra, deixemo-nos reconciliar com Ele e adorar na sua presença.” Antes de oferecer respostas ao mundo, a Igreja é chamada a redescobrir o silêncio que permite ouvir Deus e, por isso mesmo, ouvir verdadeiramente o ser humano.
Quando essa escuta acontece, a comunidade cristã deixa de ser apenas o lugar onde se celebram sacramentos para tornar-se uma autêntica casa de relações reconciliadas. Cuidar dos pobres, promover a cultura da paz, defender a dignidade da vida, acolher as famílias, caminhar com os jovens, visitar os enfermos, proteger a Casa Comum e aproximar-se dos que se afastaram deixam de ser atividades paralelas. Tornam-se expressões concretas do Evangelho vivido, porque revelam que Deus continua armando sua morada no meio do seu povo.
Talvez a maior novidade das novas Diretrizes não esteja na apresentação de programas inéditos, mas no convite a recuperar a identidade mais antiga da Igreja. Desde as primeiras comunidades cristãs, evangelizar sempre significou oferecer um lugar de pertença, onde cada pessoa pudesse experimentar a alegria de ser conhecida pelo nome, a liberdade de recomeçar, a coragem para enfrentar suas fragilidades e a esperança de descobrir que nenhuma existência é inútil quando se deixa iluminar por Cristo.
Em uma sociedade marcada pela fragmentação, a missão da Igreja é tornar-se sinal de unidade. Em um mundo que frequentemente transforma pessoas em números e relações em interesses, somos chamados a cultivar comunidades onde cada rosto seja reconhecido como dom e cada história seja acolhida com respeito. Essa talvez seja uma das formas mais eloquentes de anunciar o Evangelho em nossos dias: oferecer ao mundo não apenas palavras sobre Deus, mas a experiência concreta de uma comunidade onde Deus continua presente.
Nesta semana, escolha alguém que talvez esteja vivendo a solidão do esquecimento: um vizinho, um idoso, um jovem distante da comunidade, uma família ferida, alguém que deixou de participar da vida da Igreja. Vá ao seu encontro. Não leve, em primeiro lugar, um discurso; leve sua presença. Muitas vezes, o primeiro anúncio do Evangelho acontece quando alguém descobre que ainda existe um lugar onde pode ser esperado, ouvido e amado.
Que nossas comunidades, iluminadas pela Palavra, fortalecidas pelos Sacramentos e conduzidas pelo Espírito Santo, sejam verdadeiras tendas de encontro, onde o coração humano reencontre sua morada, a esperança renasça, a comunhão floresça e cada pessoa descubra, com gratidão e coragem, que Cristo continua caminhando conosco, dando sentido à nossa história e enviando-nos em missão.
Que Nossa Senhora da Imaculada Conceição, padroeira de nossa Diocese de Guarulhos, nos acompanhe nesse caminho. Ela, que acolheu a Palavra com fé e ofereceu ao mundo o Verbo feito carne, ensine-nos a abrir espaço para Deus e para os irmãos. Que, à sua paróquia, nossas comunidades se tornem verdadeiras tendas de encontro, onde cada pessoa encontre acolhida, escuta, esperança e a alegria de descobrir que Deus continua armando sua morada no meio do seu povo.
Pe. Marcelo Dias Soares
Coordenador Diocesano de Pastoral


