Voz do Pastor – Fé e Política

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fe e politicaNeste mês saberemos quais serão os candidatos  para as próximas eleições. O pequeno grupo de Fé e Política da nossa diocese tem refletido e preparado alguns subsídios que já estão chegando às paróquias. Quero, entretanto, nesta circular deixar uma mensagem a todos os católicos da diocese de Guarulhos.

Não há contradição entre fé e política. Portanto, a nossa atuação nas eleições, durante a campanha eleitoral e durante o acompanhamento dos eleitos deve ser transparentemente cristã. Todas as nossas escolhas devem ser um testemunho cristão. O Papa Francisco nos exorta na Evangelii gaudium (182-183): “… a conversão cristã exige rever especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e consecução do bem comum. Por conseguinte, ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos. (…) Uma fé autêntica – que nunca é cômoda nem individualista – comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar  a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela.”

Quero dar algumas indicações formativas para as próximas eleições. Já tive oportunidade de dizer que não indico nomes, pois me sentiria como que ferindo a liberdade das pessoas. Quero, sim, dar indicações com espírito cristão e cidadão.

  • O nosso sistema político é o democrático. Cabe lembrar aqui as palavras de João Paulo II na Encíclica social “Centesimus Annus 46”: “A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia, enquanto assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de escolher e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se torne oportuno; ela não pode, portanto,  favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes, que usurpa, o poder do Estado a favor dos seus  interesses particulares ou dos objetivos ideológicos. Uma autêntica democracia só é possível num Estado de direito e sobre a base de uma reta concepção da pessoa humana. Aquela que exige que se verifiquem as condições necessárias à promoção dos indivíduos através da educação e da formação nos verdadeiros ideais, quer da “subjetividade” da sociedade, mediante a criação e estruturas de participação e corresponsabilidade.”
  1. Notem bem que democracia não é somente escolher quem vai governar ou nos representar no legislativo, mas é também ter participação na condução do governo. Portanto, dentro do espírito evangélico de comunhão e participação que o sistema democrático tende a oferecer, não podemos somente olhar para nós mesmos, mas temos que olhar para o outro, para a sociedade e para o mundo
  2. “Ficha Limpa” já não é mais projeto,  é lei. Entretanto, alguns candidatos, com os mais diversos recursos poderão encontrar brechas para terem homologadas as suas candidaturas, apesar   da desonestidade e corrupção que demonstraram em seus mandatos. Estejam atentos.
  3. È preciso trabalhar por uma reforma do Estado com uma participação que expresse mais a democracia. Temos que privilegiar os candidatos que proponham  esta abertura de participação. É claro que não basta o discurso, mas temos que ver também como tem sido na prática o discurso que o candidato tem proposto.
  4. Não é um critério justo e cristão escolher um candidato somente em virtude das vantagens que terei pessoalmente ou até mesmo a instituição na qual estou envolvido.
  5. É preciso também ver o candidato no Partido que ele escolheu. Se o candidato, principalmente,  escolheu um Partido que  tem posições contrárias à defesa da vida, desde à sua concepção até a morte natural, e vincula e obriga os seus membros a esta posição, seria imoral para o cristão fazer tal opção política. Risquem da sua lista os Partidos contrários à vida e que defendem tudo aquilo que pode ferir a dignidade da pessoa humana. Quando votamos num candidato estamos automaticamente apoiando o seu Partido.
  • Ver no candidato as ideias e valores que defende em sua vida. Temos que, para isso, investigar enquanto possivel sua vida passada.
  • Ver a postura do candidato nos projetos que ele defende para a Cultura da Paz.
  • Ver a postura do candidato com relação aos projetos de inclusão social. Não confundir inclusão social com assistencialismo.
  • Veja  a posição do candidato com relação à questão ecológica.
  • Veja como o candidato se posiciona em relação ás formas de corrupção e ao mau uso do dinheiro público. Veja principalmente se ele tem alguma proposta de mudança neste sentido.
  • Enfim, um critério de discernimento valiosíssimo é buscar entender qual é a concepção que o candidato tem da pessoa humana.
  1. Muitos perguntam: temos que escolher um candidato católico? Não necessariamente, mas de preferência. Isso não é corporativismo, mas  supondo que um candidato católico  deva estar em comunhão  com a fé e a doutrina social da Igreja, irá legislar e/ou governar dentro dos princípios evangélicos e fará da sua função um testemunho cristão. É evidente que não basta o candidato escrever na sua ficha que é católico. Deverá ser reconhecido como verdadeiramente católico aquele que caminha com a Igreja, dentro de uma comunidade cristã. O discipulado de Jesus Cristo só pode ser vivido na caminhada da comunidade. Jesus diz no evangelho que se conhece a árvore pelo seu fruto e ainda não somente pelo exterior do fruto.
  2. Examine a postura política e a atuação dos (as) candidatos (as) à reeleição.
  3. Não se venda e nem venda o seu voto. Acho que nem seria mais necessário dizer estas coisas a um católico. Não aceite nenhuma oferta nesta época de eleições de candidatos que queiram oferecer algo às comunidades. Está cheio de “gaviões” neste período “arreganhando” os dentes para as nossas comunidades, padres e bispo. Isso chega a ser vergonhoso!
  4. Atenção: não se deixem instrumentalizar pelas brigas politiqueiras que acontecem neste período. Muitos candidatos são lançados não como nova proposta política, mas  com o intuito de desestabilizar este ou aquele candidato, este ou aquele Partido, esta ou aquela aliança política.
  5. Se os candidatos ao legislativo originários da nossa região preenchem os requisitos que estamos aqui usando para o discernimento, seria bom que fossem os nossos escolhidos. Repito: seria bom, não necessariamente deveriam. Uma vez que são da região deverão estar mais acessível à nossa interpelação e acompanhamento. Portanto, o motivo principal não é que  devamos pensar em primeiro lugar na nossa região, mas na facilidade  em ter uma atitude ativa no exercício do mandato do candidato que escolhemos. Trata-se de uma participação maior no processo democrático.
  6. Ao que parece não estamos em nenhuma situação extrema, onde a anarquia apareça como única solução viável. Portanto, não vote em branco, nem anule o seu voto. Em princípio  devemos pensar que os homens e mulheres que se candidatarão nas próximas eleições o farão com o desejo de prestar um serviço à sociedade e torna-la melhor.  Sabemos que existe a corrupção. Entretanto, partir de uma falsa premissa que todo candidato(a) é aproveitador (a) e está mal intencionado(a) é injusto. Se vou inutilizar o meu voto porque ninguém presta, é sinal que me considero melhor que eles. Por que então, você que assim pensa, não se candidata para fazer este País melhor?

Parabenizo todos os candidatos oriundos da diocese de Guarulhos e que trabalham por esta cidade. Que Deus ilumine a todos durante o  tempo fecundo de propaganda política!

Oxalá seja fecundo! Apesar de serem poucos os eleitos, todos poderemos ganhar com um diálogo de alto nível e formativo para a participação democrática do nosso povo durante a campanha.  No mês de agosto será publicado na Folha diocesana o texto da CNBB  “Pensando o Brasil: Desafios diante das eleições 2014.

+Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo Diocesano de Guarulhos

 

1 comentário

  1. Alexandre Costa

    Boa tarde Dom Edmilson.
    Linda e oportuna mensagem ao nosso povo, o senhor me fez lembrar o nosso
    saudoso Dom Luiz Gonzaga, que muito contribuiu com o momento político de
    nosso país.
    Que Deus continue a lhe abençoar com muita saúde e sabedoria, para que
    possa conduzir o rebanho que a ti confiou.

    Alexandre Costa- Paróquia Nossa Senhora do Cocaia.

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